Urnas & Urnas

O Executivo reage como deve pelas razões que não devia, mas reage por medo, por fraqueza, por cálculo político nos intervalos da incompetência.

Portugal atravessa a mais fúnebre crise da sua existência democrática. Basta observar o ar derrotado do Primeiro-Ministro ao anunciar o novo confinamento revisto e aumentado. Não há teoria, nem convicção, nem ideologia, nem qualquer visão política nas palavras sem alma de um Primeiro-Ministro que reage à pressão do momento.

Todas as medidas parecem ter sido ditadas por uma criatura estranha ao Governo, pois não havia vontade para decretar rigorosamente nada. O Primeiro-Ministro parecia uma criança mimada e birrenta a quem tiraram as mãos do triciclo que se dirigia para uma rotunda em sentido contrário. As medidas anunciadas não foram por preocupação pelos portugueses, mas apenas uma cedência táctica de um Governo desgovernado.

O Executivo reage como deve pelas razões que não devia, mas reage por medo, por fraqueza, por cálculo político nos intervalos da incompetência. Que o Primeiro-Ministro seja bem-vindo a uma página triste e negra da nossa História.

Com meio coração na manga e o outro meio coração no bolso, o providencial Primeiro-Ministro é o líder de um Governo que implora por ajuda aos portugueses, que muda de opinião sem saber muito bem porquê, que tem Ministros em pânico, alguns em quarentena, outros em lágrimas, como se fosse obrigação de Portugal cuidar do Governo. É ao Governo que compete salvaguardar a segurança e a saúde pública dos portugueses.

Enquanto as luzes psicadélicas das ambulâncias passam o filme retrato da Nação nas paredes dos hospitais, o Primeiro-Ministro não tem uma palavra de compreensão, uma sílaba de afecto, uma letra de solidariedade. Nada. Apenas o desconforto de quem enfrenta Portugal sem a cábula da teoria estafada e do estofo da pequena intriga partidária. Quando os portugueses esperam um “sobressalto” político em direcção ao futuro, o líder das “corporações nacionais” apresenta-se com o fato velho da velha classe política indiferente.

Este é um Portugal que viaja dentro das urnas em direcção ao crematório. O método do Governo não é responder à urgência com rapidez e imaginação política. O método institucional do socialismo moderno na democracia avançado do século XXI continua a ser o de sempre – mastigar a realidade, os pormenores, as pessoas, dando voltas e mais voltas até que a ineficácia do Governo possa esgotar todas as parcelas mínimas de significado. O Governo parece um cão que se prepara para dormir enquanto o País adoece e morre. Portugal é hoje um País triste, esgotado, uma realidade paralela à realidade do Governo que parece governar uma sociedade alternativa que observa em episódios a partir das janelas de São Bento.

Se os portugueses mortos viajam em urnas até às estações do purgatório, os portugueses vivos vão às urnas para escolher o Presidente da República. A ironia e o cinismo da simbologia não podem ser maiores – a democracia joga nas urnas a resiliência e a robustez da vida democrática. Em plena pandemia, em pleno confinamento, em plena crise na moral da Nação, as Eleições aí estão respeitáveis como uma bomba nascida no ar sob a forma de um pássaro.

Depois da “Festa da Democracia”, depois do voto antecipado onde as filas pareciam estrangulamentos numa fila de racionamento, a Nação em peso marcha cantando e rindo para a aventura eleitoral com máscaras, álcool gel, caneta apropriada, um exército de tarefeiros às ordens absurdas de um regime democrático que no fundo os despreza. Proteja-se e vá votar é como dizer proteja-se quando chegar ao lago de Chernobyl. O vírus na variante britânica, que tanto impressiona o Primeiro-Ministro, é fluente em russo e ucraniano para se poder replicar e sobreviver em ambientes tóxicos.

E assim com a aparente imprevidência histórico-nacional, o País vai a votos sem muito bem saber porquê, apenas porque a data já está marcada, porque as exigências da Constituição assim o obrigam, porque a democracia não tem medo, porque uma vida pode e deve valer um voto, porque nada se vai passar e o fascismo não passará. Um cidadão, um voto, um dia. Tudo a bem da Nação.

Neste contexto pandémico e político conturbado, a ninguém lembra a possibilidade do voto por correspondência, a ninguém lembra a possibilidade de prolongar o sufrágio por vários dias, mas a todos parece ocorrer o perigo da abstenção, a possibilidade de um auto-retrato distorcido da vontade nacional, a indecência de uma segunda volta, o descalabro da ascensão da extrema-direita, o enfraquecimento da figura do Presidente da República, a potencial crise de legitimidade do próprio regime democrático. Conquistar a Democracia de Domingo significa completar o processo da nossa libertação.

Os portugueses merecem e precisam de respostas do Governo e do Presidente da República. Portugal pode estar em sérias dificuldades, mas ainda não está liquidado. Enquanto houver vida, tem de haver análise, coragem, argumentação, discussão, luta, persuasão, polémica, e ainda mais todas as palavras compridas que por efeitos políticos e circunstâncias humanas se juntam numa palavra pequena, colorida, muito curta e sempre a olhar para o futuro – esperança.

Nota: O autor escreve ao abrigo do antigo acordo ortográfico.

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