Vencedores e vencidos, raposas e galinheiros

A preocupação com a abstenção que passou pelos discursos quase todos da noite eleitoral chega, no mínimo, com meses de atraso. Mais pareceram lágrimas de crocodilo para ficarem bem na fotografia.

Algumas notas soltas sobre as eleições europeias.

  1. Para não perder tempo a discutir décimas numa escala de grandeza próxima dos 70%, vamos assumir que a abstenção se manteve semelhante à de 2014 (66%), ponderadas as alterações no universo de eleitores. É demasiado. Mas pensando bem, o que pode mobilizar eleitores a escolher entre candidatos cujo nome não conhecem (69% não consegue apontar o nome de um eurodeputado, segundo sondagem do Expresso) para um órgão que desconhecem (quase metade não sabe para que era a eleição, idem)? E quando os principais partidos fizeram pouco ou nada para lhes explicar a Europa, o que é e para que serve e foram os primeiros a centrar o debate em questões estritamente internas?

    Mas parece que, finalmente, os partidos repararam nisso. Tarde demais. A preocupação com a abstenção que passou pelos discursos quase todos da noite eleitoral chega, no mínimo, com meses de atraso. Mais pareceram lágrimas de crocodilo para ficarem bem na fotografia. Minutos depois já estavam a concluir que a votação tinha sido um cartão verde para o governo, vermelho para a oposição e amarelo não sei para quê. Tudo ao lado do que estava em causa nesta eleição. As campanhas e o discurso político são iguais ao que se fazia há 30 anos mas o mundo mudou muito desde então.

  2. O PS teve uma vitória clara, mas não a “grande vitória” que se apressou a anunciar para tentar condicionar o tom da noite. Foram mais 2 pontos percentuais do que o “poucochinho” de 2014. Para “grande vitória” é poucochinho. Mas vale mais do que este valor nominal se tivermos em conta que se trata do partido do governo, sempre sujeito a desgaste. E vale mais ainda sabendo que daqui a quatro meses há eleições legislativas e este é um óptimo ponto de partida.

    O Bloco de Esquerda mais do que duplicou a votação e foi outro dos vencedores. Um prémio merecido para a empatia de Marisa Matias e as suas tentativas de debate de assuntos europeus no meio da algazarra de temas nacionais.

  3. O PSD está com vários dramas. Não só não descolou em relação à eleição de 2014, altura em que estava em plena governação de austeridade, como tem um problema cada vez mais evidente de posicionamento político e diferenciação alternativa ao PS. As propostas para entendimentos com o PS para acordos de regime que Rui Rio achou por bem defender no discurso de domingo e a embrulhada sobre as carreiras dos professores são tudo o que dispensava se quer vincar diferenças.
  4. O PCP teve uma pesada derrota. A segunda consecutiva, depois do terramoto autárquico de 2017. Agora como então, os comunistas acharam por bem dar um ralhete aos eleitores, que não sabem tão bem como o partido o que é melhor para eles. É sempre enternecedor ter alguém que se dispõe a pensar e decidir por nós. Terá chegado a hora do declínio continuado do último partido comunista tradicional que resiste na Europa?

    Já o CDS, perdeu na exacta medida da diferença entre a expectativa que criou e a realidade. Tal como o PSD, tem um problema de posicionamento e diferenciação.

  5. O PAN foi a surpresa da noite com um eurodeputado eleito e uma votação acima dos 5%. É um fenómeno a merecer estudo. É um partido monotemático – natureza e animais. Duvido que alguém consiga apontar uma ideia do PAN para a Educação, a Saúde, a Segurança Social, a arquitectura fiscal ou as Finanças Públicas. É um partido da “natureza” mas a sua base eleitoral é essencialmente urbana. É mais popular entre eleitores cujo contacto mais regular com a terra e a vida animal se faz mais nos corredores de frescos dos supermercados e com animais de estimação domésticos do que entre as populações rurais que vivem com e da natureza, dos seus ciclos, da sua compreensão e respeito. Está a capitalizar a preocupação crescente e justificada com as alterações climáticas e já roubou a bandeira do ambientalismo e ecologia aos Verdes, que nunca foram mais do que um anexo do PCP. Se souber credibilizar-se noutras áreas, pode vir a ser um caso sério no eleitorado urbano, sobretudo o mais jovem.
  6. Paulo Sande (Aliança), Ricardo Arroja (Iniciativa Liberal) e Rui Tavares (Livre) mereciam ser eleitos pela competência e diversidade que poderiam introduzir na discussão e visão da Europa e pelo incómodo saudável que podiam causar aos partidos instalados. Mas ficaram todos muito longe desse objectivo.
  7. André Ventura pode manter o seu compromisso semanal de comentário futebolístico sem ter que abdicar do lugar de eurodeputado caso viesse a ser eleito, que era certamente o que faria para ser coerente. Os eleitores não lhe criaram esse incómodo e mostraram que encontram outras formas de mostrar o seu descontentamento com os partidos do sistema: provavelmente a abstenção é a válvula de escape.
  8. A par da CDU alemã, o britânico Brexit de Nigel Farage é o partido nacional com mais lugares no futuro Parlamento Europeu, com 29 eurodeputados. Logo a seguir aparece a italiana Liga, de Matteo Salvini, com 28 eleitos. A democracia tem a grandeza de ser o único sistema em que são as galinhas que abrem a porta do galinheiro às raposas.

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