Web Summit: Sete conselhos para os políticos serem menos jarretas

O político de hoje está para o político do futuro como o vinil está para o Spotify. Já que é para nos darem música, preferimos ouvi-la num sítio mais moderno.

Está a começar o Web Summit e os nossos políticos rejubilam com esta oportunidade de se sentirem modernos, evoluídos e cosmopolitas. O barulho das luzes daqueles LEDs todos fazem com que qualquer um se sinta o próximo Jeff Bezos da Baixa da Banheira.

Quem nos próximos dias passear pelos corredores do evento verá governantes enternecidos com estes jovens e promissores empresários. Acontece que sempre que penso neste cenário, penso também nos detalhes quase cómicos deste choque de realidades.

É delicioso pensar num qualquer deputado, dirigente de organismo público ou até secretário de Estado a discutir com o seu cônjuge a forma como deve ir vestido: “com gravata ou sem gravata querida? Achas que eles vão estar todos de ténis?”. Ou melhor, imaginem aquela pergunta ao assessor: “achas que os cumprimente com um passou-bem ou com um hi5 como o meu filho faz com os colegas do Liceu Francês?”.

Mas se estes pormenores divertidos pouco ou nada interessam do ponto de visto prático, do ponto de vista político têm uma certa relevância que interessa esmiuçar. Foi por isso que decidi enumerar sete ensinamentos que gostava que os nossos políticos extraíssem do Web Summit:

  1. Aquela malta não está à espera da mama do Estado.

    Antigamente quando pensávamos numa convenção de negócios em Portugal vinha-nos à mente um grupo de engravatados a fazer negócios, com uns políticos à mistura que garantiam uns apoios do estado, uns contratos com umas autarquias e quiçá uns financiamentos a fundo perdido da União Europeia.Não é assim que esta malta faz negócio e não é assim que eles se querem financiar. Aquele discurso do investimento estatal forte para gerar crescimento económico aqui não ganha grandes seguidores. Guardem isso para os comícios com os velhinhos vindos de autocarro de uma qualquer coletividade do interior e principalmente não fiquem à espera que aquelas empresas vos enviem um cabaz de bacalhaus e garrafas de vinho do Porto pelo Natal.
  2. Regulação laboral é uma coisa e felicidade laboral é outra.Os empregos para a vida acabaram, o que existe hoje são oportunidades de vendermos o nosso conhecimento e o nosso esforço em troca de uma recompensa financeira. Cada pessoa é a sua própria empresa e como tal está obrigado a trabalhar o seu marketing pessoal e a fazer a sua gestão estratégica a curto, médio e longo prazo.

    Não quero com isto fazer uma apologia da exploração laboral. Bem pelo contrário, quero que empregados e empregadores tenham a verdadeira liberdade de acordarem entre si a forma como querem transacionar este esforço e este conhecimento – havendo obviamente uma regulação óbvia que deve ser mantida e que importa do ponto de vista do respeito pela dignidade humana. Mas acima de tudo, quero que empregados e empregadores cheguem ao final do dia felizes com o negócio que estabeleceram entre si – sem que o Estado interfira muito no tema.

  3. O nosso ensino não está focado no sucesso.O nosso sistema de ensino passou do prazo e o perfil da maioria daqueles empreendedores prova-o. É preciso investir mais no ensino das Soft Skills. É preciso cativar os nossos jovens para o ensino através de modelos menos formais e mais funcionais, mais práticos e menos teóricos e principalmente mais cativantes para quem quer aprender.

    O sucesso nos dias de hoje é para quem é fazedor em vez de marrão, criativo em vez de cinzentão. A relação docente-aluno está desatualizada, as salas de aula como existem não fazem sentido, o sistema de avaliação é igual há décadas e os currículos estão desatualizados. Não é assim que se prepara uma geração de portugueses que queremos vencedora à escala global.

  4. Aqueles tipos não querem ser tratados por doutores.O excesso de formalismo da classe política em particular, e do povo português em geral, é algo que me dá a volta às entranhas. O Web Summit é o local indicado para os nossos governantes perceberem que o valor das pessoas não se mede em canudos e gravatas.

    Que uma tia de Cascais trate o filho por você isso é lá com ela, mas soa-me ainda mais estranho que um ministro trate o seu colega também ministro por “doutor”. Imaginem lá um encontro entre os dois na fila da casa de banho da Presidência do Conselho de Ministros: “o senhor doutor ministro importa-se que passe à frente? É que estou mesmo aflitinho”, ao que o outro responde “claro que não doutor ministro, só bebi duas imperiais ao almoço e ainda aguento uns minutinhos”.

  5. Na nova economia, menos Estado é melhor Estado. 

    Como disse em cima, aqueles empreendedores não estão à espera da benção do Estado. A única coisa que pedem é que o Estado não atrapalhe os seus negócios.
    Lá porque um negócio é novo, não é por isso que tem que ser regulado. Lá porque uma empresa é lucrativa, não é por isso que tem que ser taxada. Lá porque uma pessoa gosta de ganhar dinheiro não é por isso que se transforma num porco capitalista.Isto é mais ou menos como a minha relação com a bricolage: sempre que tento pregar um quadro na parede acabo por mandar metade do estuque para o chão. Se o Estado quer melhorar a economia então o melhor mesmo é não inventar muito.

  6. Todas aquelas mudanças chegarão rapidamente à política.Aqueles empreendedores estão a mudar a forma como os consumidores interagem com as marcas. Muito em breve mudarão também a forma como os eleitores interagem com os eleitos.

    Todos sabemos que a política, por norma, anda atrasada em relação à inovação. Mas não está longe o dia em que aparecerá um challenger que irá mudar também este mercado.

    O político de hoje em dia está para o político do futuro como o vinil está para o Spotify: podemos até querer ficar com alguns como peça de estimação, mas já que é para nos darem música preferimos ouvi-la num sítio mais moderno.

  7. É preciso puxar aquela malta para a política.Um dos maiores problemas da política é a base de recrutamento dos seus atores, ou seja, as máquinas partidárias e as universidades. Em ambos os casos estes sítios padecem da mesma doença, a mais do que óbvia falta de ligação à realidade.

    Se queremos um país mais rico e inovador, talvez seja bom chamarmos para a política aqueles que realmente geram riqueza e inovação. Não o fazer é estúpido e os políticos não nos deviam tratar como estúpidos, porque como diria David Ogilvy: “the consumer isn’t a moron, she is your wife”.

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