Zuckerberg, Rio e a Elina Marlene

As audiências afastam-se de jornais e televisões diariamente. Assim a dita sociedade de informação será cada vez mais a da desinformação.

Um terramoto para os media a decisão de Mark Zuckerberg apostar mais na conversa entre amigos do que na partilha de conteúdos noticiosos. Se a imprensa ainda gatinhava uma solução para ir conquistando os públicos que perdia nas bancas através das redes sociais, especialmente a de maior alcance que é o Facebook, agora ainda mais limitada estará com esta mudança estratégica.

Obviamente que ninguém acredita que o criador desta rede fez um retiro qualquer num templo budista e após maturada reflexão decidiu voltar ao «back to basics» do que era a sua rede social antes de se tornar um potentado financeiro. Esta decisão cínica tem a ver apenas com mais receitas dos conteúdos, esquecendo-se que hoje quem factura mais com a publicidade é o Facebook e o Google ajudando cada vez mais a matar os media tradicionais a quem irá, não tenham dúvidas disso, exigir mais receitas para os ir exaurindo.

Com isso, com o esmagamento da imprensa, acentuar-se-á a tendência já existente das pessoas lerem apenas o que aparece onde andam. E elas andam no Facebook. Será uma enorme dificuldade vislumbrar como será o consumo de conteúdos nos próximos tempos. Pois as audiências afastam-se de jornais e televisões diariamente e cada vez haverá uma maior incerteza sobre as âncoras em que nos baseamos para ter informação fiável e credível. E assim a dita sociedade de informação será cada vez mais a da desinformação.

Quem tem também muita dificuldade na relação com os media é Rui Rio. Ainda nem tinha sido entronizado e já eram vários os colegas de partido, de olhos nos olhos (como se fossem muito corajosos) como eles gostam de dizer no púlpito do Congresso, a desejar-lhe felicidades enquanto mandavam um qualquer amolador afiar os seus punhais para lhe apontarem à jugular no tempo certo. Como diz bem a Ana Sá Lopes, uma das profissões mais difíceis é ser líder da oposição e não será um mar de laranjas, porque mar de rosas não podia ser no PSD, o seu caminho.

Os sociais-democratas têm uma tradição de relacionamento de constante palpitação com os seus líderes. E só dois que mergulharam no granito na construção das suas «personas», Cavaco Silva e Pedro Passos Coelho, conseguiram unificar o partido depois de lhe terem dado vitórias e outorgado as luxúrias inerentes ao poder. De resto, no PSD, podia citar uma passagem da “Máscara” (Persona) de Ingmar Bergman: «cada tom de voz uma mentira, cada gesto uma falsidade, cada sorriso uma tristeza». Será assim a vida de Rui Rio. Para lá das desconfianças dos opinion-makers, das golpadas dos que o querem apear, ainda surgirão erros próprios.

O novo líder até começou bem com um discurso bem estruturado, apesar do engasganço repetido até à exaustão por diversas televisões. Agarrando em Helmut Schmidt e nos «seus pequenos passos», construiu uma narrativa interessante com base em muitas ideias ditas por Santana Lopes na recente campanha – o combate à desertificação do interior, a terceira idade e a intergeracionalidade – acrescentado de pitadas de racionalidade nas questões da Educação e Inovação e defendendo claramente a melhoria do Serviço Nacional de Saúde. Palavras moderadas que eliminaram o espectro liberal que marcou o recente ciclo do PSD e o recentraram.

Porém, ainda alguém se lembra do seu discurso? É natural, porque cometeu um erro crasso na equipa que o acompanha. Há vários dias que as redes sociais brincam com o nome de Elina Marlene (o seu segundo nome), mas isso até é inofensivo. O problema é que Elina Fraga destratou o partido e processou os membros do Governo num passado muito recente, já deu entrevistas e explicações, no entanto, é este assunto que está a marcar os passos iniciais de Rui Rio e nunca é bom acordar na ressaca de um pesadelo. É uma trapalhada que será maior se a ex-Bastonária da Ordem dos Advogados, agora investigada, for acusada de algo. Se isso acontecer, a saída será mais rápida que a sua própria sombra. Enquanto isso, no partido, subsiste o mantra «Roma não paga a traidores». Rio começa mal.

Nota: o autor escreve segundo a antiga ortografia

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