A Smartex.ai está a "revolucionar" a indústria têxtil com IA. A Impetus usa a tecnologia da startup portuense para aumentar a eficiência, reduzir custos e tornar a indústria mais sustentável.
“São olhos dentro do tear que permitem detetar os defeitos em tempo real. Isto é uma revolução.” É assim que a diretora de qualidade da Impetus vê a tecnologia da startup Smartex.ai, que através da Inteligência Artificial consegue detetar defeitos na produção têxtil, evitando desta forma o desperdício de tecido e reduzindo os custos. Em 25% da produção, a têxtil de Barcelos conseguiu uma redução de 8% nos defeitos finais.
Cada tear é equipado com sensores e oito câmaras que permitem tirar fotografias em tempo real. A tecnologia permite produzir e inspecionar um rolo de malha de 80 metros em apenas 75 minutos. Tempo que inclui a colocação do rolo na máquina e a retirada.
Com esta tecnologia, as fábricas têxteis conseguem aumentar a eficiência da produção, reduzir custos e tornar a indústria têxtil mais sustentável. A Impetus, que pertence à família Figueiredo, começou a utilizar a Smartex.ai em 2021. Dos 20 teares da empresa de Barcelos, cinco já estão equipados com a tecnologia da startup do Porto.

O sistema tem um algoritmo que interrompe a produção logo que um defeito se torna repetitivo. “Com esta tecnologia estamos a parar o defeito e a controlar a qualidade do produto desde o início“, refere Tércio Pinto, managing director da Impetus. Todos os anos são gerados 92 milhões de toneladas de resíduos têxteis, o que equivalente a um camião de roupa queimada ou depositada em aterros a cada segundo, de acordo com o relatório da Fundação Ellen MacArthur.
Com esta tecnologia estamos a parar o defeito e a controlar a qualidade do produto desde o início.
Antes da introdução desta tecnologia, alguns dos defeitos só eram detetados no produto final. O que para a Impetus se traduzia em “prejuízo e tempo para voltar a produzir o que estava mal”, explica o managing director da têxtil.
Joana Cunha, diretora de qualidade, conta que em novembro houve um “problema muito grave” num tear que não estava equipado com Smartex, com o erro só a ser detetado na peça confecionada. “Este erro não detetado a tempo originou que 800 peças foram parar ao lixo, numa malha que custa 52 euros por quilo.” Significou um prejuízo de 7.488 euros para a têxtil nortenha.
A diretora de qualidade sublinha ainda que “antes da tecnologia, os rolos eram inspecionados aleatoriamente e era uma sorte encontrar um rolo com problemas”. E, continua, “enquanto se inspecionavam os rolos, os outros teares continuavam a produzir e os defeitos no fim eram inevitavelmente maiores”.
Contas feitas, em 25% da produção da Impetus — tendo em conta que dos 20 teares, cinco estão equipados com a Smartex — a têxtil de Barcelos conseguiu uma redução de 8% nos defeitos finais, de acordo com os dados de 2024 disponibilizados pela empresa.
“Ninguém quer peças confecionadas com defeitos porque já estamos a pagar o corte, a tinturaria, as etiquetas, a confeção e, no fim, vai para o lixo”, insiste Joana Cunha, acrescentando que é primordial “tirar a malha defeituosa antes do corte”.
Ninguém quer peças confecionadas com defeitos porque já estamos a pagar o corte, a tinturaria, as etiquetas, a confeção e no fim vai para o lixo.
O investimento rondou os 14 mil euros por cada tear, a que acresce uma despesa mensal de fornecimento de dados que ronda dos 80 euros. Gilberto Loureiro, fundador da Smartex.ai, explica ao ECO que o objetivo é que os “clientes paguem o investimento em menos de um ano”.
O managing director da Impetus considera que “não existem grandes motivos para a indústria não aplicar esta tecnologia”. “Se formos calcular o fio e malha em cru ou acabada que deixar de ser gasta, no final a poupança existe”, contabiliza.
Tércio Pinto enumera as vantagens e descreve que “o olho humano não está dentro do tear, logo a produção vai até ao fim e só depois na inspeção é que conseguimos perceber que a malha tem determinado defeito”.
Todas as máquinas têm um tablet acoplado que permite fazer a inspeção virtual. O operador consegue avaliar porquê que a máquina parou, corrigir o defeito e retomar a produção.
Manuel Cunha, responsável da tricotagem convencional da Impetus explica que um funcionário consegue estar simultaneamente a controlar quatro teares com esta tecnologia até porque o “sistema para automaticamente quando é detetado algum defeito”.

O operador conta ao ECO que os defeitos podem ser uma agulha partida, um vinco na malha, falta de licra, entre outros. “Tudo o que seja anormal na malha a Smartex vai detetar“. Trabalhador na indústria têxtil há 40 anos, Emanuel Cunha não tem dúvidas que “esta tecnologia veio revolucionar o setor”.
A tecnologia além de poupar tecido — o que equivale a dinheiro — poupa tempo. A Smartex envia todos os meses aos clientes um relatório com quantos quilos de desperdiço foram poupados ao usar o sistema da startup. Desde o seu arranque 2021, até dezembro do ano passado, a Smartex já conseguiu poupar mais de 7 mil toneladas de tecidos com defeito. “Caso esses defeitos não fossem detetados a tempo, a indústria iria gastar 900 mil milhões de litros de água para tingir as peças”, contabiliza Gilberto Loureiro.

O jovem empreendedor afirma ainda que “cerca de 10% de toda a roupa produzida no mundo é desperdiçada antes de chegar às lojas devido a problemas de qualidade“.
As câmaras dentro dos teares tiram fotos em tempo real, posteriormente armazenadas na cloud da Amazon Web Services (AWS). A Smartex.ai, que venceu o concurso Pitch da Web Summit em 2021, já recebeu cerca de 500 mil euros de financiamento por parte da Amazon.
A empresa fundada por António Rocha, Gilberto Loureiro e Paulo Ribeiro é a única portuguesa, num total de oito, apoiada pelo Compute for Climate Fellowship. Uma iniciativa da AWS, programa que apoia startups que utilizam tecnologias de computação em nuvem e inteligência artificial (IA) para enfrentar os desafios das mudanças climáticas.
“À medida que os impactos da crise climática se tornam mais disseminados, o mundo precisa de mais soluções como a Smartex, tendo em conta que reduzem o desperdício e as emissões de carbono e ajudam a economizar dinheiro aos clientes”, disse Lisbeth Kaufman, diretora de startups de tecnologia climática da AWS, que marcou presença na demonstração na Impetus.

Além de detetar o defeito em tempo real com recurso às câmaras dentro do tear, os rolos depois de inspecionados são cravados com um QR Code, uma espécie de “passaporte” para tecidos, que permite rastrear o material em todas as suas etapas e fornece informações como a composição, o peso, o comprimento, o consumo e as emissões.
“Estamos a tentar interligar a cadeia de valor com os dados que depois nos permitem responder aos desafios ambientais”, refere o managing director da Impetus.
A têxtil fundada em 1973, já tem uma peça à venda nas lojas que disponibiliza 90% de dados reais com base na Avaliação do Ciclo de Vida (Life Cicle Assessment – LCA).
Startup do Porto já arrecadou mais de 40 milhões de investimento
Recuando no tempo, Gilberto Loureiro, CEO e cofundador da Smartex, cresceu no mundo têxtil e trabalhou durante alguns verões em fábricas. A certa altura foi “promovido” a chefe de controlo de qualidade, que consistia em ficar oito horas por dia a inspecionar tecidos e malhas à procura de defeitos. “É um trabalho mesmo difícil e desafiante — fiz isso durante alguns dias e já estava a ficar cego, ou seja, já não conseguia ver bem a malha a passar”, lembra.
Perante esta adversidade, surgiu a ideia de tentar encontrar uma solução para detetar os defeitos mais facilmente. Ainda a estudar engenheira física na Universidade do Porto decidiu, juntamente com os atuais sócios da Smartex, começar em 2015 a incorporar câmaras e sistemas de inteligência artificial (IA) dentro dos teares têxteis. “Nessa altura já estava a surgir esta onda da IA e a consciência dos consumidores para a sustentabilidade e a rastreabilidade”, conta.
Consciente desta oportunidade, depois de terminarem o curso, em 2018, o trio decidiu desenvolver tecnologia para fábricas têxteis com apenas dez mil euros emprestados pelo pai de Gilberto Loureiro. Viajaram pela China e pelos EUA, começaram a levantar as primeiras rondas de investimentos e três anos depois começaram a vender a tecnologia.

“Desde 2021 tem sido uma boa curva de crescimento e de vendas”, diz o fundador, acrescentando que “já arrecadou mais de 40 milhões de dólares de investimento, sendo que mais de 25 milhões foram investidos em desenvolvimento e engenharia”.
Quatro anos depois da fundação, a startup já têm mais de mil sistemas vendidos em dez países, 70 clientes, incluindo marcas como a H&M que está a utilizar a Smartex para reduzir desperdício, melhorar eficiência e impulsionar o futuro da moda sustentável. Turquia, Bangladesh e Portugal absorvem mais de 50% das vendas da Smartex que emprega 70 pessoas e fatura mais de três milhões de dólares.
No caso da H&M, Gilberto Loureiro detalha que o grupo ajuda a Smartex a encontrar fábricas que trabalham para a cadeia de moda sueca, e que podem eventualmente cofinanciar o investimento. “Já provamos que conseguimos reduzir o preço por exemplo em cinco cêntimo por t-shirt — a H&M produz biliões de t-shirts por ano, logo vai beneficiar com o sistema ao fazer mais roupa com menos malha”, diz o porta-voz da startup.

A nível nacional, além da Impetus, cerca de 20 empresas está a utilizar a tecnologia Smartex. É o caso da Familitex, da Fábrica de Malhas, da Rifertex, da Malhas do Carregal, da João António Lima Malhas ou da Vilartex.
A inovação não fica por aqui. Dentro de meio ano, a startup do Porto vai lançar um sistema de inspeção para as tinturarias. Para a diretora de qualidade da Impetus, Joana Cunha, este é mais “um passo na direção certa”.
IA ameaça postos de trabalho?
A opinião é unânime. Tanto o CEO da Smartex como a diretora de qualidade da Impetus defendem que a IA não vai pôr em causa os postos de trabalho. “A IA não é nada sem nós”, alega Joana Cunha, garantindo que a têxtil de Barcelos não cortou nos postos de trabalho após implementar esta tecnologia há cerca de quatro anos.
“Este setor tem falta de mão de obra e na eventualidade de termos de reduzir postos de trabalho nas áreas automatizadas, aproveitamos para deslocalizar as pessoas para áreas que precisam de mão de obra“, refere a diretora de qualidade da têxtil, que emprega mil pessoas e fatura 46 milhões de euros, dos quais 41 milhões são destinados à exportação.

Gilberto Loureiro garante que “nunca [viu] nenhum cliente da Smartex despedir nenhum trabalhador” desde o momento que o sistema foi instalado. “Esta tecnologia não está a substituir as pessoas, mas a deixar que as mesmas pessoas façam o mesmo trabalho dez mais rápido”, afiança. “A questão é o desperdiço que se poupa“, conclui o líder da startup portuense.
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Inteligência artificial já está a ‘despir’ o desperdício têxtil
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