Vírus aumenta procura pela Uber Eats. Mas com falta de emprego, há mais mochilas verdes na rua

Pandemia mandou para a estrada muitos dos que ficaram sem trabalho, aumentando o número de estafetas da Uber Eats em Lisboa. O ECO juntou-se a eles e ouviu as histórias de quem anda na rua.

Por volta do meio-dia, quando a fome começa a apertar, Murilo, Vítor, Gabriela e mais dois ou três estafetas, todos eles brasileiros, esperam que “caia” um pedido de uma refeição para entregar. Estão perto de dois restaurantes de fast food a meia dúzia de passos do Saldanha. Em tempo de pandemia e a caminho da quinta semana do estado de emergência, o isolamento social ou o teletrabalho são normas que os estafetas da Uber Eats não conseguem cumprir. E há cada vez mais estafetas a circular nas ruas de Lisboa por estes dias.

“Há mais gente a entregar comida porque agora não existe outro emprego. Muitos brasileiros trabalham em restaurantes, mas como os restaurantes estão a fechar e sem contrato de trabalho, as pessoas vêm trabalhar para a Uber Eats”, conta Murilo, sentado na scooter alugada que usa para fazer as entregas.

E há mais pedidos agora? “Agora já não. As pessoas estão a economizar porque a economia vai baixar. A primeira e a última semana do mês são as mais fortes porque que é quando as pessoas têm dinheiro. Mas hoje estou aqui desde as 11h00 e ainda não tive nenhum pedido. Neste momento há muitos estafetas na rua e menos pedidos”, desabafa.

Reportagem com estafetas da Uber Eats durante a pandemia de Covid-19 - 14ABR20
Vítor apressa-se a levantar um pedido. Alguém espera por hambúrgueres para o almoço.Hugo Amaral/ECO

Uns metros atrás, o telemóvel de Gabriela, 30 anos, já deu sinal. Levanta um pedido num restaurante de sanduíches para ir entregar umas ruas mais abaixo e também ela tem a mesma opinião. “Nas primeiras semanas quando começou o surto havia muitos pedidos porque as pessoas ainda não estavam preocupadas com o dinheiro. Agora já não é assim. Ao mesmo tempo, alguns colegas que já tinham deixado de fazer entregas, estão a voltar porque perderam os trabalhos que tinham”, lamenta.

Vítor, que está por perto, não fazia entregas. Com 25 anos, era chefe de cozinha num pequeno restaurante na zona de Santa Apolónia que empregava dez pessoas. Com o estado de emergência, fechou — e não há previsão para abrir. Sem salário, começou a trabalhar na Uber Eats há um mês. “Trabalho cerca de 12 horas e nesta altura faço entre 40 a 50 euros por dia. Mas depois tem os gastos. O aluguer da mota, o combustível, a conta da Uber Eats e a comissão das entregas. No total são cerca de 150 euros de despesas por semana” conta, enquanto espreita a aplicação no telemóvel à espera do próximo pedido.

Vale tudo para fazer entregas. Até tuk tuk’s

Reportagem com estafetas da Uber Eats durante a pandemia de Covid-19 - 14ABR20
Hugo Amaral/ECO

E nesta altura de pandemia vocês andam protegidos com máscara e luvas? “Só capacete!” responde Vítor, com boa disposição, sem mostrar grande preocupação com o surto. Gabriela é mais ponderada: “no início usava máscara e luvas mas com o aumento do preço deixei de usar. Teria que trocar as luvas por cada pedido que fizesse e isso sairia muito caro”.

Noutra zona de Lisboa, em Santos, Carlos (português de nome fictício) ri-se. “Vai lá comprar máscaras ou álcool. É um roubo! Os indianos têm álcool à venda por 10 euros. Mas eu tenho de trabalhar. Se não trabalhar como vou pôr comida em casa?” pergunta, depois de acomodar três hambúrgueres na mochila para ir entregar à Lapa num serviço que lhe leva menos de dez minutos. E o negócio? “Num dia, 40 euros já é muito bom. Antes do surto fazia um pouco mais. Talvez mais 20 ou 30. Agora há mais gente na rua, gente que tinha conta aberta mas que não estava a fazer entregas e agora voltaram a ativar. E gente que vem dos tuk tuk’s e do Uber também”.

É o caso de Henrique, um brasileiro com descendência italiana, ou um “brasiliano” como faz questão de se intitular, entre sorrisos. Henrique tem 34 anos e está em Portugal há cerca de um ano e meio a gerir uma frota de carros na Uber. Com o início da pandemia e a consequente queda a pique dos clientes, migrou para a Uber Eats e faz as entregas com o carro.

Reportagem com estafetas da Uber Eats durante a pandemia de Covid-19 - 14ABR20
Hugo Amaral/ECO

Um pouco mais afastada, Rita, uma portuguesa de 23 anos, destaca-se entre os outros estafetas. É uma mulher no meio de um serviço feito maioritariamente por homens e faz as entregas num tuk tuk vermelho que a polícia municipal quis apreender há uns dias no Rossio, conta ao ECO. O agente alegava que não podia fazer entregas com este tipo de veículo. Rita defendia-se dizendo que o tuk tuk estava registado em nome pessoal e não estava a fazer serviço turístico naquele momento, apesar de ter licença para tal. A troca de argumentos viria a terminar com uma multa de 120 euros por mau estacionamento.

Mais gorjetas. E até um “banquete” de Páscoa

Mas nos dias de hoje, estacionamento e trânsito deixaram de ser um problema em Lisboa. Naquele grupo de quatro ou cinco estafetas comenta-se que agora é muito mais rápido fazer entregas e como há menos trânsito a circular nota-se mais a presença dos estafetas de um lado para o outro. “Nós continuamos na rua a trabalhar e tem gente que dá valor a isso. Na Páscoa houve uma família que fez um pedido e disse que a comida que tinham encomendado era para entregar ao estafeta como forma de agradecimento pelo facto de estar a trabalhar na Páscoa” conta Hugo, um brasileiro estudante de comunicação vindo do Rio de Janeiro.

Reportagem com estafetas da Uber Eats durante a pandemia de Covid-19 - 14ABR20
Grupo de estafetas em Santos. O tempo de espera é passado na conversa.Hugo Amaral/ECO

Entre trocas de impressão sobre a atuação do presidente Bolsonaro no seu país e os elogios à forma como a imprensa portuguesa tem ajudado o Governo a combater a pandemia, Hugo chega à conclusão que está tudo relacionado com uma questão de escala e de política. O Brasil tem mais de 200 milhões de habitantes e um sistema político bastante complexo em relação a Portugal, que tem 10 milhões e um sistema muito mais simples.

Política à parte e já na zona das Amoreiras, Renan Ribeiro partilha a coincidência de ter o mesmo nome que o guarda-redes do Sporting. Num ano e meio já fez quase 7 mil viagens, “graças a Deus sem nenhum tombo”, brinca. E o negócio? Renan queixa-se que nas Amoreiras só há quatro restaurantes abertos e isso faz com que os pedidos naquela zona tenham diminuído um pouco.

Reportagem com estafetas da Uber Eats durante a pandemia de Covid-19 - 14ABR20
Renan espreita o telemóvel perto de uma das entradas do centro comercial das Amoreiras que, nesta altura, só tem quatro restaurantes abertos.Hugo Amaral/ECO

Em relação à pandemia, Renan dispara algumas considerações sobre a faturação, a proteção e os amigos que ficaram sem trabalho. “No começo havia mais trabalho mas agora está a voltar ao que era antes. O que aumentou foi a gorjeta! Faço cerca de 10 euros por dia na aplicação” diz ao ECO e continua “tenho o cuidado de usar máscara e luvas e evito tocar ao máximo nos elevadores e nos puxadores das portas. E tenho um amigo meu que ficou desempregado e agora está a tentar tirar licença da Uber Eats mas…há sempre forma de usar as contas de outros, pagando uma comissão a essa pessoa pelas entregas que faz”, remata, enquanto coloca o capacete e as luvas.

A hora de almoço já lá vai e por volta das 16h00 Renan já não tem pedidos a “caírem” na zona das Amoreiras há algum tempo. “Vou ali dar uma volta ao Chiado a ver se está melhor”.

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