Verão dita maior quebra de sempre nos montantes aplicados em depósitos

O montante aplicado em depósitos encolheu em mais de dois mil milhões de euros durante o mês de agosto. Desde o início do histórico do BCE que a quebra não era tão acentuada.

O mês de eleição para os portugueses passarem férias foi marcado pelo maior “rombo” de sempre nos depósitos. Segundo dados divulgados hoje pelo BCE, em agosto, o montante aplicado pelos portugueses em depósitos encolheu em mais de dois mil milhões de euros, a maior quebra desde o início de 2003, período a que remonta o histórico disponibilizado pela entidade liderada por Mario Draghi.

Depósitos

Fonte: BCE (Valores em milhares de euros)
Fonte: BCE (Valores em milhares de euros)

Nesse mês, o total de depósitos das famílias recuou, em 2.119 milhões de euros, para perto de 143,5 mil milhões de euros, o patamar mais baixo desde o mês de maio. A maior parte do dinheiro saiu dos depósitos à ordem, mas também das aplicações a prazo com maturidade superior a dois anos. Os depósitos à ordem encolheram em 1.630 milhões de euros (a maior quebra também desde janeiro de 2003), para se fixarem em quase 42,3 milhões de euros. Já os depósitos acima de dois anos perderam 1,03 milhões de euros, para se situarem no final de agosto em 37,8 milhões de euros.

A diminuição das aplicações em depósitos coincide com o período de férias dos portugueses, altura em que por tradições os gastos de consumo crescem. Acresce ainda o facto de esse mês ter sido marcado pelo período de subscrição da segunda emissão de Obrigações do Tesouro de Rendimento Variável (OTRV). “A redução do saldo de depósitos em agosto reflete essencialmente dois fatores: por um lado, o movimento típico sazonal, pois os depósitos de particulares normalmente registam uma ligeira redução nesta altura do ano; por outro lado, deverá também possivelmente refletir o desvio de aplicações em instituições financeiras para títulos do Tesouro, designadamente a série de OTRV’s lançada nesta altura (montante total colocado de 1,2 mil milhões de euros)”, refere a esse propósito Paula Gonçalves Carvalho, economista-chefe do BPI.

A redução do saldo de depósitos em agosto reflete essencialmente dois fatores: por um lado, o movimento típico sazonal, pois os depósitos de particulares normalmente registam uma ligeira redução nesta altura do ano.

Paula Carvalho

Economista-chefe do BPI

A economista explica ainda que a atual tendência de fuga dos depósitos “trata-se sobretudo da procura por rentabilidade pelos particulares num contexto em que as taxas de remuneração oferecidas para aplicações tradicionais pelo sistema bancário são muito baixas ou mesmo nulas”. A quebra das remunerações dos depósitos a prazo é precisamente um dos elementos que estará a contribuir para a contínua quebra dos valores aplicados em depósitos a prazo. O valor em aplicações a prazo encolheu em 487 milhões de euros, para se fixar nos 101 mil milhões de euros, em agosto. Desde pelo menos o início de 2003 que as famílias não tinham tão pouco dinheiro em depósitos a prazo.

Contudo a economista-chefe do BPI acredita que a quebra histórica verificada no stock de depósitos, em agosto, é um movimento temporário. “Esta evolução ocorre num contexto em que se registam taxas de crescimento dos depósitos de particulares superior a 3%, em termos anuais, evolução que se deverá manter. Tratou-se de um movimento pontual, refletindo condições específicas na altura”, complementa Paula Gonçalves Carvalho.

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