Economia atingiu o maior excedente comercial de sempre

  • Margarida Peixoto
  • 7 Dezembro 2016

Nunca o peso do saldo comercial no PIB português foi tão elevado como o atingido no terceiro trimestre deste ano. Mas será que isso é mesmo bom?

Quando chegou ao poder, António Costa tinha uma estratégia para a economia: devolver os rendimentos às famílias, apostar na reabilitação urbana e aumentar o ritmo de crescimento do PIB. Nunca disse que não iria apostar nas exportações, e essa não era a tónica do discurso do primeiro-ministro. Um ano volvido, nem tudo correu como o previsto, mas alguns resultados parecem ter saído melhor do que a encomenda. O excedente comercial atingiu 1,7% do PIB no terceiro trimestre de 2016. Este é o maior valor de sempre.

Melhorar o saldo externo era um dos grandes objetivos do governo de Pedro Passos Coelho. As políticas da troika, que deprimiram a economia doméstica e incentivaram as empresas a procurar alternativas no mercado externo, tinham como um dos seus grandes objetivos (o outro era cortar o défice) corrigir de forma estrutural o défice da balança comercial de bens e serviços. De facto, a economia portuguesa passou de défices persistentes para saldos positivos, a partir de 2013, embora nem a própria troika tivesse dado o objetivo como conquistado — temia-se que o ganho fosse apenas conjuntural.

Agora, no terceiro trimestre de 2016, quando o PIB também cresceu de forma surpreendente, o excedente comercial ganhou uma dimensão nunca vista, mostram os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE).

O maior excedente de sempre

Fonte: INE
Fonte: INE

Os números do INE mostram que tanto as exportações como as importações estão a aumentar. Mas as vendas ao exterior estão a evoluir a um ritmo superior ao das compras: 5,4%, contra 3,5%, quando comparado com o terceiro trimestre de 2015.

Mas não era suposto a política de devolução dos rendimentos ter feito disparar as importações e ter desequilibrado as contas externas? Era. Contudo, nem o consumo disparou de forma muito evidente, nem o investimento retomou.

“Esperava-se que a devolução dos rendimentos tivesse um impacto inverso ao que foi verificado no saldo comercial”, reconhece Rui Serra, economista-chefe do Montepio, ao ECO. Mas acontece que o investimento está baixo e isso “beneficia o saldo comercial”. Tendo em conta o tipo de bens adquiridos para investir, esta é, aliás, a rubrica que mais faz subir as importações — e não tanto a do consumo privado.

"A reposição de poder de compra é uma política de substituição do investimento pelo consumo. Uma política de sacrifício do investimento é mais austera do que de sacrifício do consumo.”

Augusto Mateus

Ex-ministro da Economia do governo de António Guterres

“A reposição de poder de compra é uma política de substituição do investimento pelo consumo”, acrescenta Augusto Mateus, ex-ministro da Economia do governo de António Guterres. “Uma política de sacrifício do investimento é mais austera do que de sacrifício do consumo”, garante, deixando o aviso: “Os défices parecem estar controlados, mas estão a gerar problemas duradouros na medida em que comprometem o PIB potencial“.

Aliás, para o ex-ministro “a reposição de rendimentos deveria ser feita na sequência de ganhos no investimento. Caso contrário, os seus efeitos são muito modestos do ponto de vista do crescimento, não colocando o consumo a crescer 4% ou 5%”, explica.

É por isso que Rui Serra antevê que o valor do saldo comercial conseguido no terceiro trimestre não seja sustentável, pelo menos no curto-prazo. Poderá mesmo resultar de uma correção estatística da evolução das importações que, quando comparadas com o segundo trimestre do ano, caíram em termos reais — a redução foi de 0,4%, depois de no segundo trimestre a subida ter sido de 2%.

Quer dizer que, afinal, o número é mau?

Não. Este número tem um lado bom que será, eventualmente, o mais evidente: “Resulta de três fatores positivos que não se devem, nem podem, negar”, reconhece Augusto Mateus. Todos eles estão relacionados com o bom desempenho das exportações.

  1. A “servitização” da economia. “Portugal tem uma participação cada vez mais ativa e equilibrada na servitização da economia”, nota o ex-ministro. Ou seja, as empresas nacionais cada vez mais vendem serviços a outras empresas, participando dessa forma na cadeia de produção dos bens.
  2. Bom desempenho do turismo. “O turismo português está a crescer a um ritmo superior ao mundial, o que significa que estamos a ganhar quota”, nota o economista Rui Serra. Em parte, estes ganhos são conjunturais, na medida em que resultam dos problemas vividos em destinos do norte de África, mas também há progressos estruturais, garante Rui Serra.
  3. Melhoria dos setores transacionáveis. “Portugal melhorou os seus fatores competitivos e tem agora mais vantagens tecnológicas”, diz Augusto Mateus, comparando com o período pré-troika.

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