Podemos repetir sucesso do Lloyd’s no Novo Banco?

Entre a dimensão, os fantasmas que trazem do passado, a economia em que se enquadram e os gestores que tomaram conta de cada um, o Novo Banco e o Lloyd's jogam em duas ligas muito distintas.

 

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“Chamar Horta Osório para gerir o Novo Banco como geriu o Lloyd’s”. Daniel Bessa falava no Porto Canal e juntava-se assim aos que defendem uma nacionalização temporária da instituição que resultou da resolução do Banco Espírito Santo (BES). Carlos César, João Galamba, Eurico Brilhante Dias, Paulo Trigo Pereira, Rui Rio, Manuela Ferreira Leite, José Maria Ricciardi, Nuno Morais Sarmento e Vera Jardim são alguns dos que veem aqui uma solução ideal, que, ainda por cima, é permitida pelas regras europeias, que preveem a possibilidade da “propriedade pública temporária” de um banco de transição, como é o Novo Banco.

Uma nacionalização à Lloyd’s implicaria a entrada do Estado português no capital do Novo Banco e a posterior venda desta participação, por tranches, até que o banco deixasse por completo de ter capitais públicos e voltasse a ser totalmente controlado por privados. Se estas vendas resultassem em lucro para o Estado, como o Reino Unido prevê que vai acontecer no caso do Lloyd’s, melhor ainda.

Na teoria, funciona. Só que, pelo meio, é preciso ter em conta algumas grandes diferenças entre os dois bancos. Entre a dimensão, os fantasmas que trazem do passado, a economia em que se enquadram e os gestores que tomaram conta de cada um, o Novo Banco e o Lloyd’s jogam em duas ligas muito distintas.

Um quarto do PIB britânico tremeu, mas não caiu

Estávamos a 30 de julho de 2008 quando o maior banco de retalho britânico reportava uma queda de 70% nos lucros semestrais, atingido em força pela crise do crédito. Ainda assim, o Lloyd’s conseguia um lucro de 599 milhões de libras. Menos de dois meses depois, a 15 de setembro, o Lehman Brothers declarava falência e arrastava consigo os mercados financeiros mundiais.

Passaram dois dias da falência do Lehman Brothers e, em uma hora de negociação em bolsa, o Halifax Bank of Scotland (HBOS) perdia metade da sua capitalização bolsista. Para evitar o colapso do sistema financeiro britânico, o Lloyd’s saltou em socorro do HBOS e avançou com uma fusão com o banco escocês, numa operação avaliada em 12 mil milhões de libras.

13 de outubro de 2008. O Governo britânico avançava com uma linha de 37 mil milhões de libras para resgatar a banca do país. Deste montante, 20,5 mil milhões entraram no capital do Lloyd’s e o Estado passava a deter uma participação de 43,4% no banco. Era o princípio de uma história que está a acabar com final feliz.

Por esta altura, os ativos do Lloyd’s ultrapassavam os 367 mil milhões de libras. Para se ter uma ideia do que significaria para o Reino Unido um banco destes cair, note-se que o PIB britânico, em 2008, totalizava 2,875 biliões de dólares, segundo os dados do Banco Mundial. Fazendo a conversão dos tais 367 mil milhões de libras para a cotação à data do resgate, os ativos do Lloyd’s valeriam um quarto do PIB britânico.

Não caiu, só tremeu. A 13 de fevereiro de 2009, o Lloyd’s anunciava perdas de 11 mil milhões de libras, um buraco resultante da fusão com o HBOS. Só teve de esperar até ao primeiro trimestre de 2010 para voltar aos lucros, mas já lá vamos.

Antes disso, fast forward para 30 de julho de 2014. Dias antes de desaparecer para dar lugar ao Novo Banco, o BES reportava prejuízos históricos de 3,57 mil milhões de euros no primeiro semestre desse ano. Era o colapso do segundo maior banco privado português, que, em ativos, detinha quase metade do PIB nacional da altura.

O retrato do BES e do Lloyd’s Bank na altura das intervenções estatais

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A diferença entre estas duas histórias é que o império Espírito Santo colapsou e deixou Portugal a braços com uma fatura de 4,9 mil milhões de euros, dos quais 3,9 mil milhões resultam de um empréstimo do Estado ainda por pagar, que foram injetados no Fundo de Resolução para capitalizar o Novo Banco. E se, no caso do Lloyd’s, o Tesouro britânico tem conseguido vender sucessivamente fatias da sua quota inicial no banco, a venda do Novo Banco está a revelar-se uma tarefa bem mais difícil.

Chamem o Horta Osório

António Horta Osório estava a comandar as operações do Santander no Reino Unido quando foi chamado para o Lloyd’s. O gestor português assumiu o cargo de presidente executivo do banco britânico a 1 de março de 2011 e, desde então, entre salário, bónus e ações do banco, recebeu uma média de 7,8 milhões de libras por ano.

Tem sido um bom investimento. Horta Osório levou o banco para lucros superiores a 2 mil milhões de libras no conjunto dos nove meses do ano passado e já conseguiu vender quase toda a participação que o Estado britânico detinha no Lloyd’s. Hoje, já só sobram 2,5 mil milhões de libras dos 20,5 mil milhões que foram injetados em 2008.

Por cá, ainda ninguém ficou tempo suficiente para mostrar verdadeiros resultados. O Novo Banco ainda não tem três anos e já teve três presidentes. Vítor Bento foi o primeiro. Entrou primeiro como presidente do BES, a 14 de julho de 2014, para substituir Ricardo Salgado, há duas décadas à frente do banco. A 13 de setembro desse ano, apresentou demissão. O também antigo presidente da SIBS discordava do modelo de venda rápida que era defendido pelo Governo de Passos Coelho — Bento queria cinco anos para colocar em prática o seu projeto — e acabou por sair três meses depois de ter entrado.

Seguiu-se Eduardo Stock da Cunha, que veio da equipa de Horta Osório, no Lloyd’s, para implementar um plano de reestruturação: cortou os custos operativos em 23%, reduziu a força de trabalho em cerca de mil pessoas, mais do duplicou as provisões para crédito em risco e títulos de dívida, aumentou as receitas em 7%. Em julho de 2016, menos de dois anos depois de ter chegado, deixou o banco com um prejuízo de 362 milhões de euros.

Agora, é António Ramalho quem está à frente do Novo Banco e, para já, conseguiu o mais difícil: no terceiro trimestre de 2016, o Novo Banco reportou lucros de 3,7 milhões de euros. No acumulado de janeiro a setembro, contudo, o banco continua a apresentar um prejuízo de 359 milhões e praticamente um quarto do crédito concedido em risco de não ser pago. É o equivalente a 8,5 mil milhões de euros que o Novo Banco arrisca nunca ver de volta.

Os milhões e os milhõezinhos

Hoje, o Novo Banco tem 20% de quota de mercado e é responsável por quase um quarto de todo o crédito concedido às pequenas e médias empresas portuguesas. A par da Caixa Geral de Depósitos (CGD), é ao Novo Banco que as empresas mais recorrem para pedir crédito, o que significa que, em teoria, é também dos primeiros bancos a recuperar pujança quando a economia dá sinais de melhoria. “Os bancos são irmãos siameses das empresas”, já dizia Mira Amaral ao ECO.

O problema é que a economia portuguesa tarda em crescer o que seria necessário para que o Novo Banco pudesse apanhar a boleia. Desde a queda do BES, o PIB português cresceu a uma média de 1,3% por trimestre (em termos homólogos). Em termos anuais, a economia portuguesa cresceu 0,9% em 2014 e 1,4% em 2015. Faltam ainda os dados do conjunto de 2016 mas, no terceiro trimestre, o crescimento do PIB foi de 1,6%.

O Lloyd’s faz-se valer de uma economia que, no pico da crise financeira mundial, conseguiu sempre crescer, à exceção de um ano. Em 2009, primeiro ano completo após a intervenção na banca britânica, o PIB do Reino Unido afundou 4,3%. Desde então, e até 2015, cresceu a uma média anual de 2%. Como termo de comparação, no mesmo intervalo de tempo, o PIB português caiu a uma média anual de 0,8%.

Por outro lado, as empresas portuguesas, tidas como as grandes salvadoras da economia nacional, tiveram um comportamento que em nada se compara ao das britânicas. É verdade que as exportações portuguesas cresceram a um ritmo mais acelerado entre 2009 e 2015: neste período houve um aumento anual médio de 4% das exportações portuguesas, contra uma subida de 3,2% no Reino Unido. Mas, no que toca a investimento, a vitória britânica é clara: de 2009 para 2015, o investimento (ou a formação bruta de capital fixo) aumentou 40% no Reino Unido; em Portugal, caiu 30%.

Isto sem contar com o mercado de capitais em que cada um dos bancos se insere. O Lloyd’s está cotado na bolsa londrina, o FTSE, índice composto por 100 empresas e com uma capitalização bolsista superior a 2 biliões de euros. Além disso, e segundo uma análise do Barclays, o banco tem capacidade para oferecer aos acionistas uma rentabilidade de 13% ao longo dos próximos três anos. Como termo de comparação, veja-se que o Deutsche Bank, maior banco alemão, oferece um retorno de 2%.

O Novo Banco não é cotado, mas o PSI 20, índice bolsista de referência em Portugal, é composto por 18 empresas e tem uma capitalização bolsista a rondar os 52 mil milhões de euros.

Retrato atual do Novo Banco e do Lloyd’s

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O resultado é claro: o Lloyd’s de hoje está de regresso aos lucros de milhares de milhões, o Novo Banco ainda está nos milhõezinhos, e só se se considerar um trimestre (o terceiro de 2016, onde conseguiu os tais 3,7 milhões de lucros). Se se considerar o período mais amplo (os nove primeiros meses de 2016), os resultados continuam no vermelho.

Os fantasmas do passado

A pesar na balança está também uma fatura de muitos zeros que o Novo Banco arrasta consigo. De um lado, os lesados do papel comercial do BES: os cerca de 4.000 clientes do banco falido que investiram 434 milhões de euros em papel comercial das empresas Espírito Santo Financial e Rio Forte, do Grupo Espírito Santo, poucos meses antes do colapso do grupo.

Já foi encontrada uma solução para este grupo, mas este é um legado que o Novo Banco carrega e que, enquanto não estiver fechado, vai continuar a retirar valor ao banco.

Do outro lado, está mais uma fatia da herança BES: os ativos não estratégicos, aqueles que estão no chamado side bank e que ascendem a 9,7 mil milhões de euros. Os administradores do Novo Banco até têm conseguido, aos poucos, desfazer-se de parte destes ativos. Em dezembro de 2015, o banco tinha 10,8 mil milhões de euros em participações de equity, operações internacionais, crédito não estratégico, participações imobiliárias e participações em fundos de reestruturação.

Mas é aquele risco de 9,7 mil milhões de euros, em grande parte, que faz com que as propostas pelo Novo Banco sejam tão pouco atrativas e incluam a exigência de uma garantia de Estado.

O Lloyd’s também não tem um cadastro limpo. A grande mancha no currículo é o escândalo dos seguros de proteção de pagamento (os PPI, na sigla em inglês). Em causa está a venda, ainda na década de 1990, de seguros que, supostamente, ajudavam os clientes que não fossem capazes de pagar as prestações de um crédito.

O caso explodiu já nos anos 2000, quando o Lloyd’s, juntamente com outros bancos britânicos, foi acusado de incluir, nos contratos de venda destes seguros, cláusulas ocultas que impediam que os clientes usufruíssem dos seguros no momento em que precisassem deles. Foram ainda vendidos seguros sem o consentimento dos clientes.

A má notícia é que a conta deste escândalo já vai em 17 mil milhões de libras, entre multas e processos judiciais. A boa é que o Lloyd’s está seguro de que este assunto está finalmente encerrado.

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