Horta Osório: “Nova gestão da CGD tem de assegurar que os erros do passado não voltam a repetir-se”

António Horta Osório afirma que a CGD precisa de estabilidade e que Paulo Macedo tem as condições para evitar os erros do passado. O Lloyds voltou a receber o UK Bank of the Year.

A Caixa Geral de Depósitos (CGD) já tem um presidente indigitado, Paulo Macedo, mas ainda não tem uma nova equipa de gestão. “A Caixa precisa de estabilidade para desenvolver o seu trabalho, considero que já se perdeu tempo de mais“, afirma António Horta Osório ao ECO, no dia em que o Lloyds, a que preside, foi eleito UK Bank of the Year pelo quarto ano consecutivo pela revista The Banker.

Nas primeiras declarações sobre o dossiê Caixa, em exclusivo ao ECO, Horta Osório define o que deve ser a prioridade de Paulo Macedo. “A nova gestão da CGD tem a responsabilidade, porque o plano de recapitalização aprovado [por Bruxelas] lhe dá todas as condições necessárias, de assegurar que os erros cometidos no passado não se voltem a repetir”, responde o banqueiro português que deu a volta ao Lloyds em cinco anos. Os erros, Horta Osório não identifica, mas não é preciso. São conhecidos, e constam, por exemplo, do livro da jornalista Helena Garrido sobre a banca nacional.

António Horta Osório sabe do que fala quando avalia as exigências que se colocam a um banqueiro que tem a responsabilidade de gerir dinheiros públicos. O Estado inglês entrou no Lloyds com 20 mil milhões de libras e ficou com 43% do capital. E hoje? Já lá vamos. Primeiro, a CGD.

Horta Osório afirma ao ECO que a nova equipa tem de assegurar que “não volte a ser necessário utilizar dinheiro público, ou seja dos contribuintes, para resolver esse tipo de problemas”. E será muito, como se sabe.

De acordo com o plano de recapitalização já negociado, a CGD ‘receberá’ mais de cinco mil milhões de euros, dos quais mil milhões através da emissão de obrigações a colocar junto de investidores privados. A transferência do Orçamento do Estado será de 2,7 mil milhões, aos quais acresce 960 milhões de euros de obrigações contingentes (CoCos) de empréstimos do próprio Estado que serão transformados em capital e mais 500 milhões de ações da ParCaixa a incorporar no capital do banco público. Tudo a fazer em 2017, segundo garante o governo. E depois de apurar as imparidades a registar nas contas de 2016 e que, segundo se sabe, serão superiores a dois mil milhões de euros.

Quais devem ser as prioridades da nova gestão da CGD?

A Caixa tem vários desafios pela frente, como se sabe. É essencial avançar com o plano de recapitalização e de negócios que já foi aprovado de modo a que o banco possa cumprir com a sua missão de banco público que é a de ajudar a economia a crescer e particularmente financiar as PME, essenciais para a criação de emprego e as exportações, ajudando dessa forma ao crescimento do país.

António Horta Osório é cuidadoso nas palavras sobre a Caixa. Está a falar a partir de Londres e, por isso, embora acompanhe a realidade portuguesa de muito perto, não quer dizer mais do que o essencial. Já sobre o que fez no Lloyds, a história é outra:

“A decisão do Tesouro Britânico de retomar a venda da sua participação no Lloyds reflete o trabalho árduo que tem sido desenvolvido ao longo dos últimos cinco anos para transformar o Grupo num banco simples, de baixo risco e focado no cliente, empenhado em ajudar a economia britânica a prosperar”, afirma ao ECO. Por momentos, parece estar a falar do que deve fazer a CGD em Portugal.

António Horta Osório recorda que, em 2009, o Governo inglês adquiriu uma posição de 43% no capital do Lloyds, por 20 mil milhões de libras. “Essa participação está agora em cerca de 7,5%, tendo sido devolvidos aos contribuintes britânicos mais de 17 mil milhões de libras, incluindo os dividendos pagos ao Tesouro Britânico”.

Recorde-se que o Lloyds voltou a pagar dividendos em 2014, pela primeira vez desde 2008. No total foram já pagos mais de dois mil milhões de libras em dividendos. “Com o regresso do Lloyds ao setor privado, os contribuintes estão a receber, tal como prometi assim que assumi funções, o seu dinheiro de volta e com lucro”, afirma.

O Estado já tem, portanto, uma posição minoritária no capital do Lloyds, mas o banco que lidera não é hoje assim tão diferente do que Horta Osório advoga para a CGD. “O Lloyds tem vindo e continuará a crescer nas áreas das PME, crédito ao consumo e na banca digital; somos o maior banco digital do Reino Unido com mais de 12 milhões de clientes “digitais” num total de 25 milhões de clientes, dos quais 7,8 milhões são clientes ativos através do móvel. Continuamos firmes no nosso objetivo de ajudar a economia britânica e isso é visível no crescimento do crédito às PME, de 28% nos últimos 5 anos, que ajudou mais de 94 mil novos negócios e startups só nos primeiros seis meses deste ano”.

O Brexit está em marcha, ainda que lenta. O que significa para a economia do Reino Unido e para o sistema financeiro e para o Lloyds em particular?

As consequências do Brexit, e o impacto que terão sobre a economia em geral, ainda não são claras. Por isso, é muito importante que os bancos e as empresas se preparem para reagir em caso de dificuldades. Nos primeiros nove meses deste ano, o Lloyds aumentou os lucros antes de impostos em 52%, para 3,3 mil milhões de libras.

Além disso, teve os melhores resultados dos bancos cotados nos testes de stress em Inglaterra, o que o coloca numa posição privilegiada para fazer face aos desafios que se venham a colocar. Este ano, o cenário considerado pelo Banco de Inglaterra foi mais severo do que no ano anterior, mas o Grupo ultrapassou confortavelmente o patamar mais alto reafirmando a forte posição de capital e de balanço.

E como é que o gestor português mais reconhecido no mundo vê a situação económica do país? Horta Osório aponta três prioridades:

  1. Implementar as reformas estruturais que levem à redução do nível de endividamento do país, que continua muito alto, para assegurar que o país cresça mais e que não volte a viver uma crise tão profunda como a que viveu recentemente.
  2. Paralelamente, é essencial apostar na educação como forma de aumentar a competitividade que, por sua vez, levará ao aumento do nível de vida dos portugueses.
  3. Finalmente, é fundamental investir na formação e preparação do país para a Revolução Digital, que é uma realidade a nível global e está a alterar as competências necessárias, o que exige planear o futuro não só para os mais jovens mas também para aqueles que atualmente desempenham funções que se vão tornar redundantes ou poderão até desaparecer.

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