MASilva produz rolhas de cortiça para o mundo

É a segunda empresa, em termos de dimensão, do setor da cortiça. Com um volume de negócios de 57 milhões de euros, o grupo exporta 40 milhões e tem sete unidades de produção espalhadas pelo mundo.

Mozelos é a terra da cortiça e dos corticeiros e um nome sempre associado a Américo Amorim e à sua Corticeira. Paredes meias com a maior empresa do setor, a Amorim, vive o grupo MASilva. Fundado em 1972, a Manuel Alves da Silva, empresa que leva o nome do seu fundador e atual presidente — uma prática muito comum à época — dedica-se à produção de rolhas de cortiça natural.

Com um nível de faturação que ronda, no final de 2016, os 56 ou 57 milhões de euros, o grupo Manuel Alves da Silva assume-se como o número dois do setor. A MASilva produz anualmente 600 milhões de rolhas por ano, 70% das quais da categoria rolhas naturais.

cortiça

José Oliveira, diretor de governação corporativa do grupo MASilva, adianta, em declarações ao ECO, que “de facto quando se fala do setor da cortiça, associa-se sempre ao nome da Corticeira Amorim e isso acontece porque eles têm feito um trabalho brilhante e têm ajudado a desenvolver a indústria”. Para o gestor, o setor devia passar por uma consolidação, como aliás, chegou a ser sugerido por Manuel Pinho, ex-ministro da Economia no Governo de Sócrates. Mas “isso dificilmente acontecerá porque há uma cultura enraizada nos empresários da indústria da cortiça”.

"Quando se fala do setor da cortiça, associa-se sempre ao nome da Corticeira Amorim. E isso acontece porque eles têm feito um trabalho brilhante e têm ajudado a desenvolver a indústria.”

José Oliveira

Diretor de governação corporativa

Com mais de 40 anos de atividade, a MASilva assume-se como um grupo de cariz familiar, em que a sucessão está assegurada — o presidente executivo é o filho mais novo do fundador. O grupo emprega 240 pessoas, 150 em Portugal e 90 no estrangeiro (50 das quais nos Estados Unidos).

Manuel Alves da Silva, um homem de visão e sentido de oportunidade tinha ainda um elemento que no setor faz toda a diferença: é um exímio conhecedor da matéria-prima. Foi, de resto, essa visão que o levou em 1975, ano quente em Portugal, a iniciar o processo de internacionalização, com a exportação para França. Um caminho que havia de prosseguir e que leva hoje o grupo a deter um volume de exportações na ordem dos 40 milhões de euros e, sobretudo que o leva a deter sete unidades de produção espalhadas pelo mundo (Estados Unidos, França, Brasil, Austrália, Chile, Espanha, China).

MASilva Portugal

José Oliveira diz que, “face a 2015, estamos a crescer cerca de 10%. De 2015, face a 2014, crescemos 12% mas, se olhamos apenas para as exportações, podemos dizer que a nossa empresa nos últimos dez anos cresceu 75%, o que é assinalável quando a indústria, no seu todo, cresceu 12% nesse período”.

E como se faz a escolha dos mercados? José Oliveira explica que a escolha “é natural”. “Como a nossa atividade principal são as rolhas de cortiça logo estamos nos países produtores de vinho”.

O principal mercado da MASilva são os Estados Unidos, seguido por Espanha, França, Alemanha, Áustria e fora da Europa, a Austrália e a China.

Consolidar como palavra-chave

Sem planos de criar mais nenhuma unidade industrial fora de Portugal (em Portugal detém quatro unidades de produção, três no norte e uma no sul), José Oliveira diz que o objetivo por agora é consolidar. “Temos algum potencial de crescimento nalgumas geografias, nomeadamente em França, apesar de este ser um mercado maduro, temos uma quota de mercado muito baixa. E agora fizemos uma grande aposta na rede comercial pelo que creio que vamos aumentar muito as vendas”. José Oliveira dá mesmo o exemplo de Espanha, “onde começámos em 2011 e temos estado sempre a crescer a dois dígitos”.

Em França, o crescimento anda na ordem dos 8 a 9% ao ano mas o objetivo é que, no prazo de dois a três anos, este possa duplicar. Já a quota de mercado não passa dos 3%, mas a ambição é atingir dentro de cinco anos os 10%.

Para isso, o grupo tem investido fortemente em investigação e desenvolvimento. José Oliveira adianta que o grupo lançou em janeiro o one by one, um sistema que pretende eliminar o problema do TCA, o chamado ‘gosto a rolha’. O gestor salienta que o método é semelhante ao lançado pela Corticeira Amorim, mas “nós fomos os primeiros a lançar”.

“Isto permite-nos diferenciar e posicionarmo-nos nos mercados ultra premium que são os vinhos topo de gama”, observa.

O grupo tinha previsto investir cinco milhões de euros este ano mas apenas realizou 75% a 80% deste investimento, sobretudo porque está a deslocalizar a produção das rolhas técnicas para outra nave industrial, também em Mozelos, e que só deverá estar concluída no início de 2017.

MASilva Portugal

Novos produtos

Apesar de a indústria corticeira ter vindo, nos últimos anos, a inovar e apresentar novos produtos, a MASilva concentra-se apenas na produção de rolhas de cortiça. Para José Oliveira “fabricamos todo o tipo de rolhas e inovamos no próprio produto com ‘nuances’ que são boas ofertas para todos os segmentos de mercado porque, para conseguirmos ter um equilíbrio financeiro e económico, temos que vender toda a gama e como somos uma empresa verticalmente integrada temos de controlar todas as partes do processo”.

Para José Oliveira “há que rentabilizar toda a gama para sermos competitivos no mercado, daí que temos vários mercados com apetência para qualidades melhores e mais valor acrescentado, e outros com apetência para gamas intermédias”.

De resto, acrescenta José Oliveira “penso que enquanto o senhor Silva continuar à frente dos destinos desta empresa não iremos diversificar, ele está muito focado nas rolhas de cortiça e realmente não podemos divergir para não perdermos o foco”. Apesar disto, a MASilva tem outros interesses no negócio, sobretudo nas empresas fora do país “onde podemos vender outros produtos associados mas não produzidos por nós”.

Os mercados que valorizam mais as rolhas de melhor qualidade são os Estados Unidos e França. José Oliveira adianta que, entre os corticeiros, “costuma dizer-se que França é o melhor mercado do mundo porque gasta todo o tipo de produto, tanto do muito bom como do menos bom”.

"Costuma dizer-se entre os corticeiros que França é o melhor mercado do mundo porque gasta todo o tipo de produto, tanto do muito bom como do menos bom.”

José Oliveira

Diretor de governação corporativa da MASilva

Já o mercado da China, onde o grupo já marca presença, é cheio de particularidades: “Muitas barreiras à entrada, com diferenças culturais profundas e cheio de vinhos de boa qualidade a par de qualquer boa cave francesa. Mas é um mercado onde existe o topo de gama e a gama mais baixa, não existe o mercado intermédio”.

Sem querer adiantar nomes de clientes, José Oliveira realça que “temos em quase todos os mercado clientes de topo. Mas diria que temos clientes que vendem garrafas de vinho a 700 ou 800 dólares e, na Europa, a 500 euros”.

MASilva Portugal

Para o futuro, José Oliveira sublinha que o grande objetivo “é continuar com o crescimento de 10% ao ano, pelo que dentro de cinco anos podíamos estar a faturar entre 75 a 80 milhões de euros”. Já sobre o setor, o gestor diz que o segredo é olhar com confiança. “Tivemos uma grande crise em 2009 e depois começámos a fazer o trabalho que tinha de ser feito. Nos últimos 10 a 12 anos investiu-se muito no setor e conseguiu-se melhorar a imagem fraca que a cortiça tinha”.

Origem da matéria-prima

Como na maior parte das empresas de cortiça — exceção feita ao grupo Amorim, que também está presente na produção –, a MASilva não detém a matéria-prima. José Oliveira salienta que “tipicamente os sobreiros são propriedade de famílias abastadas e que já fazem parte da família há anos o que faz com que dificilmente estejam à venda. É um investimento muito avultado e o retorno é feito a duas gerações”.

O grupo MASilva compra a cortiça sobretudo em Portugal. Mas em 2016, fruto de razões económicas, “e porque sabemos que a qualidade é semelhante à portuguesa, compramos também matéria-prima na Extremadura espanhola, sobretudo na zona que é próxima ao Alentejo”.

 

Cronologia:

1972- Fundação da Manuel Alves da Silva

1975- Manuel Alves da Silva começa a exportar para França

1995- Investimento no laboratório da empresa

1999- Criação da MASilva 2 Cortiças, empresa dedicada à produção de rolhas técnicas de cortiça

2000- Constituição da MASilva Corks USA

2002- Constituição da MASilva France

2004- Constituição da MASilva 3- Cortiças

2009- MASilva Cortiças do Brasil e MASilva Corks Australasia e da importadora de Corchos MASilva Chile

2011- MASilva Garzón Espanha

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