Eleições na Holanda: Leia isto e esqueça os mitos

  • Marta Santos Silva
  • 15 Março 2017

Geert Wilders é o protagonista? Só no estrangeiro. Os holandeses preocupam-se mais com saúde e precariedade do que com imigração, e a extrema-direita não deverá formar Governo nem participar nele.

A tentação é grande de ver as eleições na Holanda como mais uma oportunidade para a crescente vaga populista que ameaça varrer a Europa. Depois do Brexit, onde o partido de extrema-direita UKIP liderou a campanha pela saída da União Europeia, e também do crescente apoio por partidos como o de Marine Le Pen em França, que também vai às urnas este ano, é fácil temer a popularidade de Geert Wilders, o louro e carismático líder do Partido da Liberdade (PVV), que já foi condenado por ameaçar a comunidade marroquina e que quer tirar a Holanda da UE. Mas a realidade, dizem os peritos que falaram ao ECO, não é bem assim.

“Na verdade foi uma campanha bastante convencional”, afirma o investigador Gijs de Vries, da London School of Economics (LSE). Não houve um só tema dominante, e a corrida aos assentos parlamentares não tem sido marcada pelos assuntos ligados à imigração ou aos refugiados. As pessoas preocupam-se com o sistema de saúde, ou “que os seus pais não tenham lugar num lar”, ou mesmo com a precariedade: “Muitos jovens hoje em dia têm contratos a termo, que dão pouca segurança, e não gostam disso”. Já a imigração e a xenofobia patentes no discurso de Wilders? Não parecem ser decisivos.

Um manifestante protesta contra o partido da extrema-direita, PVV, com um cartaz com o rosto de Geert Wilders.Jasper Juinen/Bloomberg

O PVV está à frente nas sondagens, sim: um agregado de diferentes sondagens feito pela agência Reuters mostra o partido de extrema-direita em primeiro. Mas só junta em si 16,6% das intenções de voto, e não vai participar na coligação que sair das eleições desta quarta-feira, 15 de março. Não só os principais partidos já disseram que não convidariam o líder da extrema-direita a participar num Governo como “há quem diga que Wilders nem sequer quer ser primeiro-ministro”, explica ao ECO Léonie de Jonge. “Como outsider pode ter mais influência. Pode dizer: ‘As elites não vos estão a ouvir'”, continua a investigadora da Universidade de Cambridge.

Se os holandeses não precisam de se preocupar com ter Wilders como primeiro-ministro, isso não quer dizer que a sua presença no espetro político não gere ansiedade. “É claro que muitas pessoas estão interessadas ou ansiosas com o papel da direita radical na Holanda, mas porque é quase certo que o partido não se vai juntar a um Governo de qualquer forma, o número de assentos que vai conseguir não é tão importante”, resume Wouter van der Brug, investigador especializado em populismo na Universidade de Amesterdão. E além de ansiedade, Wilders também gera ondas que influenciam o discurso da campanha: “É certo que tiveram uma influência noutros partidos de direita e que vimos outros partidos a virar mais à direita, mas também é difícil dizer se isto não está também relacionado com a crise de refugiados. É difícil desembaraçar estas coisas”, continua o investigador holandês. Mais ainda desde que estalou uma crise diplomática sem precedentes com a Turquia.

Trunfo surpresa: a crise diplomática com a Turquia

“Isto é uma crise e muito profunda. Não criámos esta crise nem a trouxemos a esta etapa. Os que a criaram são responsáveis por resolvê-la.” As palavras são do vice-primeiro-ministro turco Numan Kurtulmus, citado pelo The Guardian (acesso gratuito), quando anunciou que a Turquia iria expulsar o embaixador holandês do país e suspender as relações diplomáticas de alto nível com o país. A Holanda, onde há uma grande comunidade turca, decidira impedir ministros do país de fazerem discursos políticos em território holandês, uma medida apoiada pela Alemanha. O Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, tem querido reunir apoio junto dos turcos emigrados na Europa para um referendo que irá aumentar o seu poder, e países como a Holanda, a Alemanha e a Dinamarca estão pouco à vontade com a campanha eleitoral nos seus territórios.

No entanto, “é bastante frequente que os turcos venham falar à Holanda”, afirma Léonie de Jonge. “Só agora é que se tornou tão politizado”. O que é que provocou esta politização? Para de Jonge, a presença de Wilders. O atual primeiro-ministro, Mark Rutte, que faz campanha pela reeleição com o seu partido de centro-direita VVD, não podia ignorar a situação com a Turquia. “Rutte tinha de falar, porque se não o fizesse, Wilders fá-lo-ia por ele”, defende a investigadora. “Ele estava a tentar tirar o ímpeto a Wilders”.

A verdade é que as sondagens mostram que a controvérsia deu uma vantagem a Rutte na opinião pública, mas Wilders também beneficiou, embora de forma mais limitada, por ter elogiado a ação do primeiro-ministro. “E Erdogan, na Turquia, também saiu a ganhar”, continua Léonie de Jonge.

Para o investigador da LSE Gijs de Vries, o discurso de Wilders tem impacto, em especial na área da imigração, “onde o seu extremismo não é aceitável nos principais partidos mas estes começam a emitir uma perspetiva mais crítica em relação aos estrangeiros”, afirma. “O primeiro-ministro é um exemplo claro disso. Escreveu uma carta aberta durante a campanha em que pede aos holandeses que se comportem normalmente. O que é comportar-se normalmente? Se ler a carta, torna-se claro que foi escrito tendo em mente que os recém-chegados têm de se adaptar. É preciso integrar-se ou sair, e ou te comportas como nós ou não tens lugar na sociedade holandesa“, continua o investigador, descrevendo a perspetiva que se lê nas entrelinhas da missiva do primeiro-ministro Mark Rutte.

A influência de Wilders nos restantes partidos, porém, é limitada, afirma de Vries. “Os holandeses continuam a favor da União Europeia”, exemplifica. “Wilders está a fazer campanha para que os holandeses saiam da União Europeia e do euro, e os holandeses não concordam com isso. Todas as investigações de opinião o demonstram”.

Que solução pode sair das eleições?

Wilders à parte, já que mesmo que o seu Partido da Liberdade saia vencedor das eleições não será capaz de formar um Governo, o que se pode esperar a partir desta quarta-feira na Holanda? No imediato, não deverá haver alterações — é habitual que o Parlamento holandês demore a organizar-se em coligações para criar soluções de Governo. “Pode demorar até vários meses antes que o novo Governo se constitua”, afirma Gijs de Vries.

Entretanto, Mark Rutte e os seus ministros, na sua coligação maioritária entre os principais partidos de centro-direita e de centro-esquerda, segurarão o barco. “No intervalo o Governo demissionário gere os assuntos do dia-a-dia, pelo que não haverá um vácuo de poder”.

Historicamente, a Holanda favorece governos de coligação. Desde a Segunda Guerra Mundial, houve 29 governos de coligação e 11 deles incluíam quatro ou mais partidos. Por isso, o facto de os partidos terem agora de se organizar em coligação para encontrar ruma solução governativa não é novidade. As perguntas são quanto tempo vai demorar e qual a formulação que vai assumir.

As sondagens mais recentes apontadas pela Reuters colocam seis partidos principais a obter entre 6% e 16% das intenções de voto, e visualizam-se várias soluções principais: é possível que haja uma coligação à direita, que junte o partido conservador do atual primeiro-ministro Mark Rutte aos democratas cristãos e a outras forças mais pequenas dessa família política, ou uma coligação progressista à esquerda, entre os Verdes, cuja popularidade tem crescido, um partido populista de esquerda e os trabalhistas. Mas as combinações são infindáveis.

“Neste momento, parece que a esquerda vai perder à grande. Há um grande número de partidos na Holanda que de facto não poderão governar, pelo que parece que teremos um Governo de direita e provavelmente minoritário”, afirma o investigador Wouter van der Brug. Gijs de Vries acrescenta que a preferência dos holandeses seria uma coligação maioritária, vista como mais estável, mas também assume a possibilidade de uma coligação minoritária.

Léonie de Jonge vê um campo de jogo mais aberto, que acredita ser explicado pelo sistema eleitoral holandês, “um dos sistemas representativos proporcionais mais puros da Europa”, que permite que os partidos pequenos consigam assentos na assembleia mesmo com uma percentagem relativamente baixa dos votos. “O sistema político está muito fragmentado, já não há grandes partidos. Vai ser preciso formar uma coligação com quatro, cinco, ou talvez seis partidos diferentes”. Neste contexto, afirma a investigadora, “tudo é possível”. Tudo, concordam os três peritos, menos Geert Wilders a primeiro-ministro.

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