Passos rejeita demitir-se. Autárquicas não serão “tragédia”

O presidente do PSD rejeitou esta quinta-feira a possibilidade de vir a demitir-se caso o resultado das autárquicas fique aquém do objetivo: social-democratas querem ter o maior número de mandatos.

Questionado sobre se vai demitir-se caso tenha um mau resultado nas eleições autárquicas, Passos Coelho foi direto ao dizer que “nunca” se demitiria do PSD por causa de um resultado autárquico. Rejeitada essa hipótese, em entrevista à SIC, o líder dos social-democratas não fez projeções para o futuro no caso de eleições legislativas. Numa entrevista dominada pela banca, o presidente do PSD continuou a apontar o dedo à estratégia económica e orçamental do atual Governo. Para Marcelo, deixou um aviso: o Presidente da República deveria ter defendido a presidente do Conselho de Finanças Públicas, Teodora Cardoso, perante as críticas do PS, PCP, BE e Governo.

“Ninguém esperará com certeza (…) que eu invoque os resultados das autárquicas para abandonar o PSD”, respondeu Pedro Passos Coelho perante o cenário em que, à semelhança das últimas eleições autárquicas., o partido que lidera tenha um resultado que não lhe permita liderar a Associação Nacional de Municípios Portugueses. Para o líder do Partido Social Democrata, o resultado das eleições “não será uma tragédia para o PSD”. Passos Coelho defendeu a sua escolha a Lisboa, Teresa Leal Coelho, rejeitando admitir uma derrota à partida. No entanto, Passos Coelho admite reconhecer as suas responsabilidades: “Não lavo as minhas mãos desse processo”, afirmou.

Défice sem “medidas extraordinárias” e “corte cego” seria de 3,2%

Pedro Passos Coelho voltou a criticar a estratégia de António Costa, mesmo a orçamental, apesar de reconhecer que o défice de 2,1% é uma boa notícia para o país. Na opinião do atual líder da oposição, o défice “sem as medidas extraordinárias do lado da receita” e do “corte cego que foi feito no Estado e no investimento público” seria de 3,2%. O líder do PSD recusa a ideia de que se enganou, ripostando que a estratégia do Executivo é que mudou: “O Governo mudou de estratégia, começou com uma e acabou com outra“, disse, referindo a opinião do Conselho de Finanças Públicas, da UTAO (Unidade Técnica de Apoio Orçamental) e do Banco de Portugal.

O presidente dos social-democratas recusa fazer “declarações para alarmar”, referindo-se à possibilidade de o país ter de pedir um resgate financeiro em breve. Mas não deixou de criticar a desaceleração do crescimento económico em 2016 face a 2015 e de responsabilizar o Governo pelo aumento da taxa de juro a que o Estado se financia, “mais do dobro da espanhola”. “Estamos a gerir a conjuntura em vez de estarmos a executar as reformas estruturais”, criticou Passos Coelho.

Marcelo deveria ter defendido Teodora Cardoso

Passos Coelho sublinhou a ideia de que o Presidente da República “não está em Belém para desenvolver a estratégia do PSD”, estando num plano diferente do partidário, mas deixou um conselho a Marcelo Rebelo de Sousa: “Teria gostado de o ver a defender a independência do Conselho de Finanças Públicas (CFP)”. Em causa estão as críticas feitas pelo Bloco de Esquerda, Partido Comunista Português, Partido Socialista e Governo à presidente do CFP, Teodora Cardoso. O líder do PSD diz que Marcelo deveria ter protegido a “idoneidade de Teodora Cardoso quando [esta] foi fortemente atacada pelos partidos da maioria”, reforçando que o país precisa de instituições independente ao nível do Estado.

Contudo, na generalidade, Pedro Passos Coelho elogiou o trabalho de Marcelo na sua “cooperação ativa com os órgãos de soberania, em particular o Governo”. “O Presidente da República tem cumprido com o papel de não faltar à cooperação com o Governo”, referiu o ex-primeiro-ministro, argumentando que esse deve ser também o papel de Belém.

Venda do Novo Banco é perversa

Para o líder da oposição a possibilidade de o sistema bancário poder vir a “responder por perdas e má gestão de um concorrente”, o Novo Banco liderado pelo Lone Star, é algo “perverso”. “Uma coisa um bocadinho insólita até“, classificou. Passos Coelho criticou o Governo por não ter vendido a totalidade do banco de transição e ter deixado o Fundo de Resolução com 25% da estrutura acionista e responsabilidades para o futuro, no que toca aos ativos problemáticos e às possíveis necessidades de capital futuras.

Além disso, o ex-primeiro-ministro admitiu que o acordo feito com os bancos para constituir o Fundo de Resolução teria de ser revisto, mas deixou críticas à solução implementada pelo Governo. Em causa está o prolongamento do prazo que os bancos têm para liquidar os empréstimos que o Estado concedeu ao Fundo de Resolução para injetar dinheiro no Novo Banco e no Banif.

Na opinião de Passos Coelho, o Governo “perdoou metade do empréstimo que foi concedido”. “Sabíamos que estes prazos tinham de ser estendidos, mas isso teria de pressupor que o Estado não teria prejuízo para os contribuintes”, disse, argumentando que os bancos vão pagar um juro menor do que o Estado paga para se financiar nos mercados.

Sobre o setor financeiro, o líder do PSD criticou ainda a atuação na Caixa Geral de Depósitos, referindo que a existência de três administrações num ano “provocou uma instabilidade muito razoável no banco”. Passos Coelho voltou a criticar as necessidades de capital “excessivas” na CGD.

E defendeu o seu Governo quanto à atuação que teve no sistema bancário. Para o presidente dos social-democratas os atuais problemas “não são comparáveis com os problemas” que encontro quando chegou ao Governo”. Passos Coelho criticou a mudança na política de imparidade levada a cabo por este Governo, o que implicou maiores necessidades de capital. O líder do PSD diz que isso nunca lhe foi exigido pelo Banco Central Europeu ou Banco de Portugal e referiu até que, se aplicasse esta política na altura do programa de ajustamento, “não teríamos tido dinheiro para resolver os bancos”.

(Última atualização às 22h12)

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