António Barreto, um dos construtores da democracia em Portugal

  • Helena Garrido
  • 24 Abril 2017

É o teatro e a ligação ao PCP que o leva para o exílio. Sai de Portugal para a Alemanha, a pretexto de um festival de teatro. O destino final era Argel. Mas acaba por ficar em Genebra, na Suíça.

Conhece o mundo, conhece Portugal do campo e da cidade, viveu no exílio, esteve na política onde travou batalhas difíceis para a estabilização da democracia, tem estudado, investigado e contribuído para o pensamento e a análise rigorosa da sociedade portuguesa. António Barreto, 74 anos, doutorado em sociologia em Genebra, onde esteve exilado, tem no Douro, nos livros e na fotografia as suas grandes paixões. E na defesa de uma Justiça portuguesa justa uma das suas grandes causas atuais. A sua vida está interligada à estabilização da democracia em Portugal.

A sua casa em Lisboa, na Lapa, onde generosamente dá em geral as entrevistas, é uma biblioteca de paredes cobertas de livros e um sítio para escrever de onde se pode ver o Tejo. Livros e um arquivo de fotografias, uma outra das suas paixões que hoje partilha com os leitores do Diário Notícias onde agora escreve semanalmente. São fotos que mostram um pouco todos os sítios o mundo por onde passou. Restam-lhe poucos. Quer ainda fazer umas doze viagens.

Nasceu em Vila Real, em 1942, estava a Europa a viver a sua segunda guerra do século XX. Filho de uma família numerosa — com sete irmãos –, cedo teve de ganhar a vida para continuar a estudar. Os pais já tinham dois filhos a estudar na Universidade e não podiam ter mais um, apesar das excelentes notas com que acabou o liceu, como conta nesta entrevista. Não se conformou e foi para Coimbra trabalhar de dia e estudar à noite, em Direito, onde fica de 1960 a 1963. Paralelamente inscreve-se no Círculo de Teatro de Coimbra (CITAC).

E é o teatro e a ligação ao PCP que o leva para o exílio. Sai de Portugal para a Alemanha, a pretexto de um festival de teatro. O destino final era Argel. Mas acaba por ficar em Genebra, na Suíça, onde um amigo lhe arranja alojamento. Acabará por viver ali, onde se licencia em Sociologia em 1968 — curso que em Portugal era proibido — e onde já depois do 25 de Abril de 1974 completa o doutoramento, em 1985.

Durante mais de uma década, o regresso a Portugal era o horizonte. O 25 de Abril de 1974, quando está a fazer 32 anos, apanha-o já desanimado, descrente, de um dia ver a democracia em Portugal. Relembra, na entrevista ao ECO, como partilhou com os amigos esse desânimo, a 20 de março de 1974, pouco mais de um mês antes da Revolução de Abril. Dias antes tinha falhado o conhecido como Levantamento das Caldas, a 16 de março. E António Barreto diz aos seus amigos num café em Genebra: “Eu nunca vou ver a democracia em Portugal e é exatamente como o comunismo e o Apartheid, nunca vão acabar”. Enganou-se. Primeiro a democracia em Portugal e mais tarde o comunismo, entendido como o regime da URSS, e o ‘apartheid’ acabaram. Esses são os acontecimentos que elege como os mais inesperados da sua vida.

A democracia permite-lhe regressar a Portugal. É nessa primeira fase de estabilização da democracia que se dedica à política. Será deputado da Assembleia Constituinte. Mas é como ministro da Agricultura de Mário Soares, entre 1976 e 1978, que ficará famoso por causa da “Lei da Reforma Agrária” e que merecerá as mais violentas criticas do PCP, que ainda hoje se ouvem.

Com a Revolução e com o slogan “a terra a quem a trabalha”, várias propriedades agrícolas, especialmente no Alentejo, tinham sido ocupadas. E é António Barreto que protagoniza a legislação que vai obrigar o seu regresso aos proprietários. A “Lei Barreto”, Lei 77/77 consagra, logo no primeiro Governo Constitucional liderado por Mário Soares, a obrigação de devolver as terras aos antigos donos, pondo fim a essa fase de ocupação. António Barreto sente esse tempo como o ato político de que mais se orgulha, como o disse em 2010.

Na entrevista ao ECO, esses tempos permitem-no comparar com os que se vivem agora. Lembra que Mário Soares tentou fazer aquilo que António Costa tenta agora: aprovar o que “é de esquerda” com a esquerda e o que “é de direita” com a direita. Soares contava com o PSD, na altura PPD, para aprovar a “Lei Barreto”. E assim foi. Mas na altura da votação Sá Carneiro saiu do hemiciclo e não votou a lei da reforma agrária, apesar de estar de acordo com ela. Lembra António Barreto que o então líder do PPD — que morreu no acidente de aviação a 4 de dezembro de 1980 — falou depois com ele e disse-lhe que, se votasse aquela lei, com a qual concordava, estaria a caucionar o governo minoritário de Mário Soares, coisa que não queria fazer.

António Barreto regressará ainda à política entre 1985 e 1991, como deputado. Mas antes e depois disso, toda a sua carreira é dedicada à academia, como professor e investigador, ou a escrever livros e a fazer documentários de divulgação como “Portugal, Um Retrato Social” em sete episódios, e “As consequências sociais da televisão em Portugal 1956-2006”. Foi ainda co-autor com a realizadora Joana Pontes de “As horas do Douro” sobre uma das suas paixões.

Na academia, é o Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa que lhe fica no coração, como a sua melhor experiência profissional e onde se pode ler o seu curriculum. Mas foi também professor ou investigador na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, no Gabinete de Estudos Rurais da Universidade Católica e na Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, tendo participado na sua comissão instaladora.

Em 2009, já depois de se reformar da academia em 2008, será o primeiro presidente do Conselho de Administração da Fundação Francisco Manuel dos Santos. Uma outra das suas paixões, as estatísticas enquanto ferramentas de conhecimento rigoroso da realidade, leva António Barreto a ser um dos principais impulsionadores do projeto Pordata dessa Fundação.

Autor de inúmeros livros será também ele o centro de um livro em que a sua vida se cruza com a história recente de Portugal. De Maria de Fátima Bonifácio, “António Barreto, Política e Pensamento” desafia-se a explicar porque é que uma personalidade que poderia ter sido muito mais no Portugal político não o foi. O lado de cientista social, com que se convive com cada entrevista, cada conversa ou cada conferência de António Barreto, pode ser uma das explicações. O seu olhar é sempre o de quem serenamente tenta perceber a realidade da sociedade com distanciamento e rigor. E coragem.

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