? Todos a bordo dos milhões do Festival Eurovisão da Canção ?

É considerada a festa da música mais antiga do mundo e desembarcou este ano em Portugal. A bordo vinham também muito milhões. De euros, de pessoas e até de metros de cabos elétricos.

 

Todos os caminhos da Eurovisão vieram dar a Lisboa.Ilustração: Lidia Leão

“All aboard!” Ou em português, “todos a bordo”. Foi com este mote que Lisboa se apresentou como hospedeira da edição de 2018 do Festival Eurovisão da Canção. O barco foi trazido de Kiev por Salvador Sobral, no ano passado, depois de ter conquistado o primeiro lugar do concurso e os corações dos fãs eurovisivos.

Na doca estava já à espera a RTP, que ficou encarregue de, em conjunto com a União Europeia de Radiodifusão (EBU) organizar o evento que concentra milhões de pessoas para celebrar a música. Assim, e desde que o troféu foi levantado, a responsabilidade passou para Portugal. A demanda começou então com escolha da cidade que iria receber o evento.

Enquanto Lisboa, Guimarães, Braga, Gondomar e Santa Maria da Feira se mostraram interessadas em ser o porto de abrigo deste que é considerado pelo Livro do Guinness o espetáculo de música mais antigo, o Porto afastou logo essa possibilidade, com Rui Moreira a afirmar que “dispensava”. Porquê? A resposta está nos milhões.

“Tendencialmente, o Porto não está interessado em despender qualquer coisa por 30 milhões de euros para receber o evento”, apontou na altura o presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira. “A haver um concurso público, em que as cidades se candidatem, como parece ter existido noutros países, a cidade que vier a organizar o Festival da Eurovisão deve arcar com os custos”, acrescentou Rui Moreira.

Prós e contras pesados e contas arredondadas, Lisboa foi a escolhida para receber o evento, acontecimento registado com a passagem de um molho de chaves gigante das mãos do Presidente da Câmara de Kiev para Fernando Medina. Começava aí a viagem.

Lisboa a rebentar pelas costuras

Se no mês de maio do ano passado a Área Metropolitana de Lisboa recebeu 591,2 mil hóspedes, espera-se que este número seja fulminado com a realização da Eurovisão. A passagem por Portugal do Papa Francisco impulsionou os números do turismo nesse período, mas como apontou o responsável da Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal ao Diário de Notícias, há poucos eventos que se possam comparar a este.

“É um evento one shot de aproveitamento máximo, com esta dimensão de cobertura mediática. Nem Web Summit, nem Euro 2004, não há nenhum que se compare à Eurovisão. Aqui há um destino, um país, uma cultura”, disse José Manuel Esteves.

Tendo em conta que, como apontou ao ECO a RTP, estarão 11,5 mil espetadores no Altice Arena em cada um dos nove espetáculos, acrescendo ainda 900 membros do staff, 400 voluntários, mil membros de 43 delegações, 1.700 jornalistas acreditados, serão 107,5 mil pessoas que vão passar pela cidade. E muitas delas terão de ficar hospedadas na cidade ou nos arredores.

No que diz respeito à hotelaria convencional, a Associação de Hotelaria de Portugal aponta para uma taxa de ocupação muito elevada, principalmente nos hotéis de quatro estrelas — 90%. A taxa de ocupação geral poderá ficar entre os 70% e os 80%. Outro estudo da Momondo aponta para que sejam o alemães, os dinamarqueses e os franceses os que mais procuram viagens e estadia na cidade.

Já a Airbnb estimou que na semana da Eurovisão cheguem 54 mil hóspedes a Lisboa vindos de mais de 4.300 cidades. Face à mesma semana do ano passado, estes números representam um aumento de 83%. A reserva mais comum feita na plataforma é a de dois a três hóspedes que ficarão em Lisboa por seis noites e que pagarão uma tarifa média por quarto de 65 euros.

Revivalismo da família à volta da televisão

Ainda assim, o festival também estará presente nas casas de milhões de famílias portuguesas, ao contrário do que acontecia nos anos anteriores. E a culpa é, outra vez, do Salvador. Como aponta um estudo feito pelo IPAM, 68% dos portugueses vai assistir ao espetáculo em casa, sendo que 69% destes afirma que a vitória do ano passado serve como motivação para assistir ao evento.

Ao ECO, Pedro Mendes refere que este ano vamos assistir a um revivalismo familiar, uma situação que já não acontecia há muito tempo devido à emergência das novas tecnologias e das redes sociais. “77% das pessoas inquiridas vão assistir ao evento na televisão com a família, o que traz de volta muito daquele que era o espírito da Eurovisão.”

No ano passado, a vitória de Salvador Sobral foi vista por mais de 180 milhões de espetadores, em mais de 42 países.

Luzes e fogo-de-artifício made in Portugal

O Altice Arena está vestido a rigor para receber os fãs eurovisivos.Andres Putting/EBU

E para receber estas 100 mil pessoas e montar um espetáculo desta magnitude, tanto para quem vê ao vivo como quem vê através dos vários ecrãs não basta varrer o chão do espaço. Pelo que vimos nas duas semifinais que decorreram durante a semana não vai haver pó no palco da Eurovisão, mas o fogo e a neve não vão faltar.

Para a instalação deste megaespetáculo, foram necessárias 1.800 mãos, que esticaram 200 quilómetros de cabos elétricos, penduraram no teto do Altice Arena 200 toneladas de equipamento e ligaram 2.632 unidades de luz. E ainda que a RTP não esteja sozinha e conte com a ajuda das equipas da EBU, também houve mão portuguesa nestas montagens.

É o caso da iluminação, que resulta da parceria entre a Pixel Light, uma empresa portuguesa, e uma empresa holandesa do mesmo ramo. “Está tudo bem preparado, o ambiente é ótimo e tem de ser, para estar tudo ao mais alto nível”, conta Ramiro Martins, senior project manager da empresa portuguesa, ao ECO.

A empresa, responsável pela iluminação e projeção de vídeo do Festival da Canção, também emitido pela RTP, nunca tinha estado envolvida num projeto desta dimensão, em que, segundo Ramiro, “tem de se estar muito atento aos pormenores” e “tudo é levado ao limite”.

Quando questionado qual é a delegação que mais dores de cabeça tem dado à sua equipa, Ramiro afirma que o nível de organização não permite que haja dores de cabeça, mas há projetos mais desafiantes que outros: “A interpretação da Estónia, com videoprojeção no vestido da cantora, é um dos trabalhos mais difíceis.”

Mas não é só de luz que se faz o espetáculo de música mais antiga do mundo. Mesmo que a edição do ano passado tenha sido ganha por um artista que afirma que a música não é “fogo-de-artifício”, mas sim “sentimento”, a Eurovisão não era Eurovisão sem fogo ou fuego, como diz a artista cipriota desta edição. Os efeitos especiais e pirotecnia neste espetáculo também estão nas mãos de portugueses, neste caso da Luso Pirotecnia.

“O mais difícil tem sido lidar com a ansiedade, tanto nossa como dos artistas, que muitos têm aqui o seu primeiro momento de fama”, explica ao ECO Vítor Machado, Pyro & SFX Designer da empresa nacional. Ainda que a sua empresa faça grandes espetáculos, nunca fez um tão grande como a Eurovisão, mas a dimensão não assusta a equipa. “Estamos a trabalhar com os melhores de Portugal e os melhores do mundo, por isso não há problemas”.

Quando questionado acerca da necessidade dos efeitos especiais no espetáculo, Vítor é direto: “A alma da Eurovisão é mesmo o espetáculo. Para além da música, elementos como os efeitos especiais, as coreografias, a banda não podem ser descurados.” “Agora percebo a Eurovisão de outra maneira”, diz ainda.

E qual tem sido o trabalho mais difícil. “Temos duas delegações que têm trabalhos muito elaborados. A Hungria dá-nos muita possibilidade para trabalhar, porque é heavy metal, e tem todo o material que usamos. Pirotecnia, chamas… Já a Irlanda é difícil porque o artista está sentado ao piano e começa a cair neve, e os efeitos atmosféricos são os mais complicados.”

E quem paga a conta?

Quando Salvador chegou a Lisboa só haveria um sentimento mais forte do que o orgulho e a felicidade na primeira consagração de Portugal na Eurovisão. A incerteza em torno de quem iria ficar responsável pelas despesas em torno deste grande evento. A RTP teve, obrigatoriamente, de se “chegar à frente”, começando a traçar um plano de pagamento para os milhões que se iriam seguir.

A organização apontou, já esta semana, que o orçamento para esta edição é o mais baixo desde 2008, ano em que o evento passou a ser constituído por duas semifinais. Este situar-se-á entre os 19,7 e os 20,1 milhões de euros, mas poderá ainda sofrer alterações até ao final, como apontou João Nogueira, o produtor executivo desta edição à Lusa. “Depende dos próximos dias, nomeadamente da desmontagem do concurso. Temos de retirar em quatro dias o que demorou semanas a montar”, disse.

Destes 20 milhões, 4,3 milhões virão dos bolsos da EBU, três milhões do Turismo de Portugal e cinco milhões da Câmara Municipal de Lisboa. Para além disto, o espetáculo conta com patrocínios de empresas privadas, seja a Osram, a The Native ou a Vueling, não sendo, no entanto, conhecido o valor que estas marcas vão canalizar.

Ainda assim, ficará um buraco de cerca de quatro milhões de euros que terá de ser tapado com o dinheiro do canal. Em declarações ao Público, Gonçalo Reis afirmou que terão de ser feitas algumas alterações à grelha de programação neste ano para suportar este gasto, uma vez que no verão a RTP vai transmitir os jogos do Mundial de Futebol, que já adquiriu.

A última pergunta que se impõe depois de todos estes milhões é: será que este investimento vai trazer retorno para o país? Nas palavras de Pedro Mendes, a Eurovisão vai trazer retorno a dois níveis, o financeiro e o mediático.

Enquanto, em termos económicos, a presença de mais pessoas em Lisboa, os investimentos e as receitas das várias empresas nacionais e a necessidade de alguma mão-de-obra — sendo que muitos dos que estão em trabalho no Altice Arena estão em regime de voluntariado — trará um impacto de 30 milhões de euros, como apontam as contas do IPAM, a marca Portugal ficará ainda mais forte depois disto.

“Portugal continua a afirmar-se como um país forte na organização de grandes eventos, provando que tem capacidade, pessoas e segurança para tal”, remata o professor. Será esse outro dos bens que vem a bordo deste evento.

Uma carta aos nossos leitores

Vivemos tempos indescritíveis, sem paralelo, e isso é, em si mesmo, uma expressão do que se exige hoje aos jornalistas que têm um papel essencial a informar os leitores. Se os médicos são a primeira frente de batalha, os que recebem aqueles que são contaminados por este vírus, os jornalistas, o jornalismo é o outro lado, o que tem de contribuir para que menos pessoas precisem desses médicos. É esse um dos papéis que nos é exigido, sem quarentenas, mas à distância, com o mesmo rigor de sempre.

Aqui, no ECO, estamos a trabalhar 24 horas vezes 24 horas para garantir que os nossos leitores têm acesso a informação credível, rigorosa, tempestiva, útil à decisão. Para garantir que os milhares de novos leitores que, nas duas últimas semanas, visitaram o ECO escolham por cá ficar. Estamos em regime de teletrabalho, claro, mas com muita comunicação, talvez mais do que nunca nestes pouco mais de três anos de história.

  • Acompanhamos a cobertura da atualidade, porque tudo é economia.
  • Escrevemos Reportagens e Especiais sobre os planos económicos e as consequências desta crise para empresas e trabalhadores.
  • Abrimos um consultório de perguntas e respostas sobre as mudanças na lei, em parceria com escritórios de advogados. Contamos histórias sobre as empresas que estão a mudar de negócio para ajudar o país
  • Escrutinamos o que o Governo está a fazer, exigimos respostas, saímos da cadeira (onde quer que ele esteja) ou usamos os ecrãs das plataformas que nos permitem questionar à distância.

O que queremos fazer? O que dissemos que faríamos no nosso manifesto editorial

  • O ECO é um jornal económico online para os empresários e gestores, para investidores, para os trabalhadores que defendem as empresas como centros de criação de riqueza, para os estudantes que estão a chegar ao mercado de trabalho, para os novos líderes.

No momento em que uma pandemia se transforma numa crise económica sem precedentes, provavelmente desde a segunda guerra mundial, a função do ECO e dos seus jornalistas é ainda mais crítica. E num mundo de redes sociais e de cadeias de mensagens falsas – não são fake news, porque não são news --, a responsabilidade dos jornalistas é imensa. Não a recusaremos.

No entanto, o jornalismo não é imune à crise económica em que, na verdade, o setor já estava. A comunicação social já vive há anos afetada por várias crises – pela mudança de hábitos de consumo, pela transformação digital, também por erros próprios que importa não esconder. Agora, somar-se-ão outros fatores de pressão que põem em causa a capacidade do jornalismo de fazer o seu papel. Os leitores parecem ter redescoberto que as notícias existem nos jornais, as redes sociais são outra coisa, têm outra função, não (nos) substituem. Mas os meios vão conseguir estar à altura dessa redescoberta?

É por isso que precisamos de si, caro leitor. Que nos visite. Que partilhe as nossas notícias, que comente, que sugira, que critique quando for caso disso. O ECO tem (ainda) um modelo de acesso livre, não gratuito porque o jornalismo custa dinheiro, investimento, e alguém o paga. No nosso caso, são desde logo os acionistas que, desde o primeiro dia, acreditaram no projeto que lhes foi apresentado. E acreditaram e acreditam na função do jornalismo independente. E os parceiros anunciantes que também acreditam no ECO, na sua credibilidade. As equipas do ECO, a editorial, a comercial, os novos negócios, a de desenvolvimento digital e multimédia estão a fazer a sua parte. Mas vamos precisar também de si, caro leitor, para garantir que o ECO é económica e financeiramente sustentável e independente, condições para continuar a fazer jornalismo de qualidade.

Em breve, passaremos ao modelo ‘freemium’, isto é, com notícias de acesso livre e outras exclusivas para assinantes. Comprometemo-nos a partilhar, logo que possível, os termos e as condições desta evolução, da carta de compromisso que lhe vamos apresentar. Esta é uma carta de apresentação, o convite para ser assinante do ECO vai seguir nas próximas semanas. Precisamos de si.

António Costa

Publisher do ECO

Comentários ({{ total }})

? Todos a bordo dos milhões do Festival Eurovisão da Canção ?

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião