Este é o Estado da Nação para quem lidera as empresas

O caderno de encargos de empresários como António Mota, Nuno Ribeiro da Silva, José Manuel Fernandes ou Jorge Armindo: financiamento, crescimento, reformas, menos taxas e mais estabilidade política.

Mário Ferreira, Jorge Armindo, Nuno Ribeiro da Silva, José Manuel Fernandes, António Mota, Manuel Tarré, Paulo Melo e Daniela Seixas (da esq. para a direita).

Teve lugar esta sexta-feira, na Assembleia da República, mais um debate do Estado da Nação, no qual os partidos questionaram o primeiro-ministro e o Governo sobre as políticas e os resultados alcançados no último ano.

Com a economia a crescer — “poucochinho, mas a crescer” — o desemprego a diminuir, o défice a cumprir os objetivos, que preocupações assolam os empresários nacionais? O ECO foi saber que diagnóstico fazem as empresas — os motores do crescimento económico — do estado do país. Da construção à metalomecânica, passando pelo têxtil e pelo turismo, o leque é vasto… mas as preocupações comuns.

Os problemas estruturais — com a dívida pública que continua a crescer, à cabeça — , a par da falta de reformas são o denominador comum das preocupações da classe empresarial. Uma dívida que, dizem, impede o país de investir em áreas que são cruciais para ajudar ao crescimento económico. Mas há outra preocupação a dominar o pensamento dos empresários e passa pela palavra “cedência”. “Não pode haver cedência do primeiro-ministro aos partidos mais à esquerda, que sustentam o Governo“, apontam de uma forma geral os empresários.

Paulo Melo, presidente da Somelos e da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal (ATP), diz que é urgente que o Estado avance com as reformas do sistema público. “O Estado tem de ter a coragem e a vontade de fazer as reformas do sistema público. Os empresários tiveram essa coragem e fizeram as reformas necessárias no tempo certo”, afirma Paulo Melo.

Para o empresário é urgente “repensar o mundo, porque as coisas estão a mudar e é preciso tomar novas medidas”. O industrial já anteriormente tinha deixado críticas ao Governo e que passavam pelo custo da energia, pela fiscalidade, sem esquecer a subida do salário mínimo nacional e o financiamento das empresas.

No XX Fórum Têxtil, o presidente da ATP tinha mesmo admitido, perante o ministro da Economia, que “os incentivos podem ajudar as exportações, mas o financiamento às empresas continua difícil e o capital está ainda muito longe de ser acessível, sobretudo às PME, sendo por isso um constrangimento ao crescimento e ao investimento”.

O financiamento das empresas é um tema caro a António Mota. O presidente da Mota-Engil não tem dúvidas de que “o país está, de uma forma geral, diferente para melhor do que estava há um ano, mas há um défice do sistema financeiro para apoiar as empresas”. Para António Mota, a questão não se coloca apenas ao nível do setor da construção, é geral a todos.

E não é só nas grandes empresas que o financiamento é visto com apreensão. Daniela Seixas, fundadora da TonicApp, uma aplicação para médicos partilharem informação, acredita que, para fomentar a mudança, é positivo “que a opinião pública já tenha percebido que o subfinanciamento crónico dos últimos anos na Saúde está a ter um impacto direto na quantidade e, mais grave, na qualidade dos cuidados prestados”. Assim, e por se tratar de uma startup que opera no setor, ” a questão do financiamento”, acredita a empreendedora, “não é de solução rápida, nem fácil”.

Crescer mais, e mais

Mas se para uns o financiamento é uma preocupação, para outros a capacidade de alavancar o país para níveis de crescimento económico a rondar os 3% é o grande desafio.

José Manuel Fernandes, presidente da Frezite, não tem dúvidas. “Estou preocupado por o país não ser capaz de alavancar o crescimento económico para níveis de 3%”. Tanto o Governo como o Banco de Portugal preveem que a economia registe uma expansão de 2,3% este ano.

Para o patrão da Frezite, 3% é um valor “determinante para o país conseguir pagar o que deve e criar uma estrutura mais forte de coesão social e suprir o clima marcadamente do défice”. Paulo Melo concorda com esta visão e acrescenta: “Devíamos crescer mais. A nossa taxa de crescimento é muito baixa”.

Melo diz mesmo que há um perigo iminente para a economia portuguesa que passa por um eventual aumento das taxas de juro. E aí, Portugal pode não ter capacidade para… aguentar.

Manuel Tarré da Gelpeixe também lamenta que o país cresça pouco. “A questão de fundo é que vivemos num país onde as regras mudam a meio do jogo, logo não há qualquer apetência para o investimento”, defende. Para o presidente da Gelpeixe, para investir “é preciso ter estabilidade fiscal, à semelhança do que acontece nos outros países europeus”. “Aqui em Portugal, de cada vez que há eleições, engrossam-se os serviços públicos com a fatura a ser paga com taxas e mais taxinhas”.

O clima de tensão política que tem marcado os últimos tempos, sobretudo em temas como as 35 horas na saúde, a carreira dos professores e as leis laborais, deverá também estar presente neste debate do Estado da Nação. José Manuel Fernandes diz que se vive um “clima hostil entre os partidos de esquerda que sustentam o Governo”. Clima esse que não é alheio às negociações do próximo Orçamento do Estado, da aproximação das eleições legislativas e da necessidade de os partidos à esquerda se descolarem do PS e falarem para o seu eleitorado.

Nuno Ribeiro da Silva, presidente da Endesa Portugal é mais taxativo “É evidente que as propostas radicais do partidos que suportam o Governo têm vindo a sair a lume e, no fundo, evidenciam o desprezo e a desconfiança que quer o BE, quer o PCP têm sobre a União Europeia e sobre o euro”.

Trump… e a guerra comercial

Numa altura em que as novas tarifas de Trump estão a penalizar as bolsas, um pouco por todo o mundo, vem a lume a atual conjuntura económica. Aos receios de que uma guerra comercial comprometa o crescimento mundial, juntam-se as preocupações com os momentos de alguma tensão em países motores da economia europeia como a Itália. E, num cenário destes, Portugal dificilmente poderá escapar aos efeitos de contágio.

Para Jorge Armindo, da Amorim Turismo, “há uma estabilização das economias”. “Não se preveem já grandes crescimentos para a Europa. Diria que estamos perante um arrefecimento controlável”, afirma.

Menos otimista está Nuno Ribeiro da Silva. Para o gestor da Endesa, “o enquadramento económico externo é menos brilhante do que era há um ano”. Ribeiro da Silva enumera a guerra comercial entre Trump e a China, com repercussões por todo o mundo, e ainda a falta de um pulso forte, na Europa, para dizer que os empresários podem, neste cenário, “ter menos disponibilidade para investir”.

De resto, o presidente da elétrica espanhola diz que os clichés utilizados pela esquerda são “agressivos para o ambiente normal da vida económica do país”. “Há manifestamente um enquadramento internacional a que não somos imunes, a que juntamos também um clima de conflitualidade interna“.

Défice e despesa. As duas faces da moeda

Qualquer cedência por parte do Governo na questão da despesa terá um efeito extremamente negativo para a economia“. É desta forma que Jorge Armindo sintetiza o seu pensamento. Para o homem da Amorim Turismo “há bons sinais na economia, sobretudo ao nível da diminuição do desemprego, e apesar de tudo o défice teve um bom comportamento no final do ano passado, mas não podem haver cedências”. Recorde-se que, no final de 2017, o défice foi de 3% contabilizando a recapitalização da Caixa Geral de Depósitos. Mas se esta medida extraordinária não for tida em conta, então o défice foi de apenas 0,9%, o mais baixo da democracia portuguesa.

“O primeiro-ministro não pode, apesar da tensão social, ceder ao Bloco de Esquerda e ao PCP. Tem de se aguentar e não entrar em devaneios”, remata Armindo.

Para Nuno Ribeiro da Silva “o comportamento do défice público não foi tão empolgante no primeiro trimestre“. E justifica: “Até porque todos sabemos que há pó debaixo dos tapetes ou, se quiser, cativações, o que pode não refletir exatamente o equilíbrio entre receitas e despesas, sendo antes o resultado de se empurrar com a barriga alguma dívida/obrigações”.

O défice público atingiu, nos primeiros três meses deste ano, os 0,9% do PIB, um valor que representa uma melhoria face ao resultado do mesmo período de 2017, altura em que incorporava o montante injetado pelo Estado na recapitalização da Caixa Geral de Depósitos. Este valor do défice do primeiro trimestre fica acima da meta traçada pelo Governo para a totalidade do ano. Já o valor das cativações ascendeu a 563,4 milhões de euros, em 2017, níveis idênticos aos praticados nos anos de ajustamento, segundo o Conselho das Finanças Públicas. Para este ano, os peritos do Parlamento estimam cativações de 1.776 milhões de euros, mas o ministro das Finanças recusa este valor, assumindo antes 1.156 milhões de euros. Mas ao longo do ano, Mário Centeno, irá naturalmente libertando verbas.

Para Mário Ferreira, presidente da Douro Azul, “a única preocupação é o facto de a dívida pública continuar a subir”. O empresário diz que é urgente “estagnar a dívida e impulsionar o crescimento da economia”. E deixa outro alerta. “É preciso tomar medidas que facilitem o emprego estrangeiro, porque nos principais setores de atividade, os que sustentam a economia, falta mão-de-obra e isso está a estagnar a economia”.

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