The Thinker and The Sinner: A startup que cria almofadas a partir de retalhos, só para “pecadores”

António Peres e Paulo Julião criaram a "The Thinker and The Sinner", uma startup que cria almofadas a partir de pedaços de tecido. Mas, no futuro, ambicionam parcerias com marcas da alta costura.

Dois apaixonados por moda juntaram-se para criar almofadas a partir de pedaços de tecidos, muitos deles com poucos milímetros. Através de gravatas usadas e lenços, a ideia foi criar almofadas decorativas e vendê-las, com os lucros a reverterem para instituições sociais. E assim nasceu a startup The Thinker and The Sinner, com poucos meses, mas com objetivos bem definidos: aproveitar roupas de marcas de alta-costura e convertê-las em produtos de luxo. E tudo a partir do patchwork.

António Peres ouviu “falar de roupa a vida toda”, mas esteve sempre ligado a outras áreas. A mãe trabalhou em Paris como consultora na casa Chanel e, de olhos postos nela, “trabalhar produtos era uma coisa que sempre quis fazer”. Para além do exemplo materno, inspirou-se nos povos africanos, “que utilizavam muito os trapos e pedaços de vestidos para se vestirem”, conta ao ECO. Numa altura em que engordava e emagrecia constantemente, surgiu a ideia de criar roupas a partir de retalhos. “No fundo faz-se uma reciclagem pura e é uma forma de preservar roupa”, diz.

Foi assim que nasceu aTheThinkerandTheSinner que, em português, significa “o pensador e o pecador”. Os primeiros passos desta startup começaram a ser dados há cerca de um ano, mas só agora o projeto vai arrancar a sério. E os primeiros produtos foram almofadas. “A primeira almofada a ser feita foi pela minha mãe, em brincadeira. Porque eu falava-lhe no conceito e na história e ela um dia quis experimentar. Foi feita a partir de três ou quatro gravatas e quando eu vi o resultado achei espetacular“, conta o fundador.

A partir daí criou um ateliê, na zona das Olaias, em Lisboa, onde tem atualmente uma equipa de sete funcionários, entre os quais três costureiras ucranianas, “as melhores do mundo”. Mas costurar almofadas a partir de pequenos pedaços de tecidos — o chamado patchwork — não é fácil, sublinha. “É um trabalho muito minucioso e moroso, os métodos são os mais artesanais possíveis e isso dá trabalho”, diz António. Há almofadas que podem demorar dois dias a fazer, outras até quatro ou cinco, depende dos cortes, explica.

Os tecidos, esses foram doados por associações e amigos ou familiares. O maior contributo veio do próprio fundador, que doou centenas de gravatas logo no nascimento deste projeto. A António juntou-se, pouco depois, Paulo Julião, especialista na área e que já passou por vários ateliês do país. Ao ECO, o chefe do ateliê da The Thinker and The Sinner conta que viu nesta startup “algo que já não via há muito em Portugal, que era a qualidade com que as almofadas eram feitas”.

“Comprar uma almofada destas é um pecado”

Em cerca de seis meses, os dois empreendedores e a restante equipa já fizeram cerca de 80 peças. Mas porquê almofadas? António responde, entre risos: “Porque gosto de dormir”. Nesta primeira linha de produtos, o investimento feito foi de cerca de 50 mil euros, revelou ao ECO. “Eu próprio fiquei surpreendido que se tenha conseguido chegar a este resultado só com este investimento, e tudo através de fundos próprios”, diz, embora não descarte a possibilidade de, no futuro, vir a recorrer a fundos comunitários.

As almofadas são pouco comuns, tanto no estilo como no preço. Os preços arrancam nos 90 euros e vão até aos 200 euros, “são para um público aspiracional”, diz António. Mas a startup tem uma cujo valor ascende aos 3.000 euros devido ao “terço com 28 gramas de ouro”, mas essa será oferecida à Madonna, “para agradecer tudo o que ela feito pelo país e, de preferência, para a ter como cliente”.

“Comprar uma almofada destas é um pecado, mas é um pecado perdoado”, atira o fundador entre risos, quando questionado pelo nome dado à startup, que faz alusão a um pecador.

Os produtos da The Thinker and The Sinner vão começar a ser vendidos apenas em janeiro através de um site online e canais multimarcas, cujas negociações estão a decorrer. Mas, para o futuro, os dois empreendedores ambicionam trabalhar em parceria com grandes marcas de alta-costura, como Dior, Gucci, Chanel, etc. “Sabemos que a política de reciclagem das grandes marcas está atrasada”, diz António, acrescentando que, como estas coleções não podem entrar em saldos ou promoções, acabam por ser queimadas. “Os princípios do movimento zero têm dificuldades em chegar à moda, é um caminho que ainda está a ser percorrido”.

Em termos de faturação, as previsões apontam para vendas na ordem dos 40 mil euros, “com um acréscimo de três dígitos em 2020”, revelou a equipa ao ECO. Nesta fase inicial, as almofadas serão leiloadas e o dinheiro arrecadado com as vendas será doado a duas instituições de solidariedade — Associação Mulheres de Vermelho e Associação de Apoio à Vítima (APAV) –, algo que Paulo Julião pretende que se mantenha.

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