Amílcar Morais Pires ao El País: “Já não há bancos portugueses. Vamos pagar caro por isso”

  • ECO
  • 10 Fevereiro 2019

Antigo braço-direito de Ricardo Salgado, Amílcar Morais Pires conta ao El País a sua versão dos acontecimentos que levaram ao colapso do BES. Culpa o Banco de Portugal e o governador Carlos Costa.

Amílcar Morais Pires, antigo administrador financeiro do BES, dá este domingo uma entrevista ao jornal espanhol El País (acesso livre/conteúdo em espanhol) onde conta a sua versão dos acontecimentos que levaram ao colapso do banco em 2014. Culpa o Banco de Portugal e o seu governador Carlos Costa de terem destruído uma instituição financeira que valia 6.300 milhões de euros em apenas um mês. Diz ainda que Portugal “vai pagar caro” por não ter bancos genuinamente portugueses.

Para o antigo braço-direito de Ricardo Salgado no BES, a medida de resolução aplicada ao banco em agosto de 2014 “foi uma decisão incompreensível e injustificada do Banco de Portugal”. “Foi mau para os acionistas, clientes, empregados e Estado, que pôs 4.000 milhões de euros e quatro anos depois já os perdeu”, afirma Amílcar Morais Pires, dizendo que houve três soluções nos 20 dias anteriores dessa decisão.

“A mais simples, tomava o controlo do banco o segundo acionista, o banco francês Crédit Agricole. Uma solução rápida, fiável e grátis para os portugueses. A segunda foi uma oferta firme do fundo Blackstone de 2.000 milhões de euro de aumento de capital. O Banco de Portugal não a aceitou. A terceira ocasião é quando o Governo de Angola propõe um aumento de capital do BESA e o Banco de Portugal decide não ir, com o qual se perdeu a maioria e a garantia soberana de 5.700 milhões de dólares. Nestas últimas decisões, o governador já tinha colocado à frente do banco Vítor Bento, um economista sem nenhuma experiência em gestão bancária”, relata o antigo CFO do BES.

Amílcar Morais Pires foi condenado no mês passado ao pagamento de uma multa de 1,2 milhões de euros por ocultar informação sobre transferências para o BESA, uma decisão que o próprio já recorreu. Também Ricardo Salgado foi condenado a pagar, em cúmulo jurídico, 1,8 milhões de euros.

“O governador tem essa prerrogativa de acusar e condenar. Na via judicial vão caindo as suas acusações”, atira o antigo administrador do BES, que também já interpôs uma ação popular contra o Banco de Portugal. “Sim, para indemnizar o Estado pelos 4.330 milhões de euros perdidos por culpa das suas decisões erradas”, justifica.

Segundo Amílcar Morais Pires, com os problemas no BES, podia-se ter aproveitado aquele momento para fundir o banco com o BCP, “criando um banco relevante” em 2014.

“Foi um grande erro estratégico. Na próxima crise, o ministro das Finanças não terá no sistema bancário nacional os interlocutores necessários para, por exemplo, desenhar um plano de contingência para as empresas públicas. Em Portugal deixou de haver bancos genuinamente portugueses. (…) Vamos pagar caro por isso”, sublinha.

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