What’s brewing no setor das cervejas? Antuérpia dita as novas tendências

O ECO esteve no Fórum Europeu de Cervejeiros, em Antuérpia, e registou as tendências para os próximos tempos. Tradição e inovação, lado a lado, em busca da satisfação dos consumidores.

Se juntarmos drink – que significa beber – a ability – que no setor das cervejas pode significar a capacidade de apreciar – temos em drinkability o grau de satisfação de cada consumidor, precisamente ao consumir uma cerveja, tendo em conta fatores como o aroma, o sabor, os efeitos no organismo ou até a forma como se é impactado por um rótulo.

E não será esse o segredo para conquistar novas gerações que se estão a tornar adultas e que chegam ao mercado com novos hábitos e novas perceções sobre o próprio sentido de drinkability?

O Ecoolhunter viajou para Antuérpia, onde assistiu à segunda edição do The Brewers of Europe Forum, a cidade dos diamantes, mas também da cerveja, já que nas proximidades existem várias unidades de produção.

A Europa continua a ser considerada o berço do “modern brewing”, pela tradição de grandes grupos cervejeiros, mas também pela aposta que, cada vez mais, se faz em investigação e em tecnologia no sentido de procurar diversidade, autenticidade e qualidade. Junta-se o rejuvenescimento do setor com os “newcomers”, as novas marcas artesanais que fazem com que se vivam tempos de grande entusiasmo entre os apaixonados pela cultura cervejeira.

Acompanhámos delegação portuguesa (veja o vídeo) e perguntámos que tendências se esperam para os próximos tempos:

#BREWINGFORWARD: “A nível europeu, a revolução artesanal chegou para ficar, embora com sinais de abrandamento nos últimos dois anos, o que configura uma adaptação às realidades do mercado que é marcado por uma forte presença de médias e grandes cervejeiras. Estas últimas, tem vindo a modificar as suas estratégias, induzidas pelo fenómeno artesanal, e adaptando-se aos novos grandes nichos de consumidores que têm apetência por experimentar novas cervejas com estilos bem diferenciados.

Por outro lado, é já bem visível a tendência de uma forte aposta nos segmentos de cerveja sem álcool e de cerveja com baixo teor de álcool como forma de responder às necessidades do consumidor não apenas em momentos especiais (ex. quando vai conduzir), mas como estilo de vida. Resultou ainda deste evento, que a aposta na educação e formação dos consumidores e stakeholders sobre a cultura cervejeira com especial ênfase na ligação da cerveja à gastronomia é essencial como meio de valorizar a categoria e posicionar a cerveja como aquilo que ela é, uma bebida de baixo teor alcoólico, compatível com um estilo de vida saudável e fortemente convivial”. Francisco Gírio — Secretário-geral dos Cervejeiros de Portugal

#SECURINGTHEFUTURE: “A maior dessas tendências resume-se na defesa e proteção do processo cervejeiro. Face aos desenvolvimentos recentes na categoria, tanto a naturalidade da bebida como as melhores prática na sua produção poderão ser comprometidas e os cervejeiros não vão permitir que tal aconteça. Olhando para as mais recentes tendências de produtos que estão a promover-se aos olhos dos consumidores (ex. bebidas adicionadas de extratos ou infusões de cânhamo, alternativas não alcóolicas que não são exatamente cerveja, ou mesmo estilos excêntricos de cervejas e misturas com outras bebidas), a cerveja pode comprometer a imagem de bebida fermentada natural e adulta preservada pelos cervejeiros ao longo da sua história milenar.

Os europeus são reconhecidos mundialmente como fundadores da ciência e técnica cervejeira e defendem que os próximos anos exigem da classe apostas como: formação científica e técnica rigorosa e qualificada; promoção das origens e variedades de matérias primas naturais da cerveja; proteção dos processos clássicos de produção da bebida; inovação orientada a processos que melhorem a eficiência energética e ambiental da produção cervejeira; aplicações de novas leveduras à produção de cervejas de menor teor alcoólico; desenvolvimento de matérias-primas adaptadas às alterações climáticas e escassez de água”. Tiago Brandão — Presidente da Convenção Europeia de Cervejeiros

#BREWINGFORABETTERWORLD: “Para mim, e até tendo em linha de conta as intervenções dos CEO da Heineken e da Carlsberg, os temas dominantes no fórum prendem-se com a sustentabilidade. E à semelhança do ano passado, com as low and no alchool a alinhar com as mega tendências do consumidor em procurar estilos de vida mais saudáveis e associadas a novas experiências de consumo.

Retive da intervenção do CEO da Heineken uma afirmação clara sobre a importância da sustentabilidade num mundo em mudança: «O cenário político em mutação está a forçar-nos a pensar que haverá uma pressão maior relativamente a temas como as alterações climáticas». Ele enfatizou ainda a necessidade de as organizações serem proativas na defesa do clima, no consumo e nas fontes energéticas, nas embalagens a utilizar, no consumo responsável, etc. antes de corrermos o risco de sermos impactados por legislação inadequada ao futuro do negócio”. Nuno Pinto de Magalhães — Diretor de comunicação e de relações institucionais da SCC

#HERITAGEANDINNOVATION: “Claude Lévi-Strauss um antropólogo e filósofo belga do início do sec. XX escreveu que «a cozinha converte a natureza em cultura». A cerveja tem esta capacidade de convergir o melhor dos dois mundos – tradição e inovação. A cerveja como produto natural será cada vez mais infinita nas propostas a oferecer aos consumidores. Não nos esqueçamos que existe uma panóplia vastíssima de cereais, lúpulos de diferentes terroirs e origem, maltes mais frutados ou mais caramelizados, e técnicas que uma vez introduzidas no processo de elaboração deste líquido precioso resultam em diferentes cervejas (por exemplo cervejas de fermentação alta vs baixa fermentação). De múltiplas formas a cerveja chega ao sabor dos consumidores, através da garrafa, lata ou a excelência do barril, onde detalhes como o copo, a forma como é tirada ou a temperatura a que é servida, já são e serão ainda mais, rituais de sofisticação e qualidade ímpares no segmento das bebidas.

O setor será cada vez mais eclético, com tipos de cerveja de ampla diversidade, tendências e inovações, e nem todas serão bem-sucedidas. Mas é a dinâmica atual de atrair novos consumidores — e sobretudo apreciadores! –, enriquecendo a experiência de consumo nas cervejas atuais ou novas, que vai ser a bitola do futuro. Melhorar essa experiência passará por trabalhar vários setores: conseguir tornar cada consumidor num “pequeno” somellier; os pontos de venda serão cada vez mais um polo importante na experiência, agradabilidade e fidelização de consumo; em cada cerveja que é servida, o mundo digital continua a reinventar-se e o setor cervejeiro terá de acompanhar esse movimento. Há países onde a forma de pagamento através de smartphone é já de 70%”. Miguel Araújo – Diretor de comunicação e relações institucionais da Unicer

#CRAFTBEERREVOLUTION: “As intervenções estiveram centradas em dois temas que descrevem a realidade do setor. A inclusão das micro cervejeiras/cervejeiras artesanais que passa pelo reconhecimento da sua importância na valorização da cerveja como produto gastronómico resultando daí a inversão da tendência negativa do consumo per capita, que vinha a baixar há alguns anos. Mas também da cerveja sem álcool ou de baixo teor alcoólico. A única forma de aumentar significativamente o consumo, de forma responsável, é apostando em produtos sem álcool ou de baixo teor alcoólico, permitindo o consumo em horários até agora pouco adequados, nomeadamente ao almoço. Relativamente ao crescimento da cerveja artesanal, constata-se que o mercado americano (um modelo para o craft mundial) dá sinais de crise. Menos vendas, menos exportações, fusões, etc, que poderão ser indícios de um momento de viragem. Na Europa, pelo contrário, continua uma certa euforia, pois os números continuam ainda muito longe dos verificados nos Estados Unidos.

De um ponto de vista global, todos os dias aparecerem dezenas de novos projetos mas, no último ano, regista-se um abrandamento do número total de cervejeiras, já que muitas delas não conseguem sobreviver. Independentemente da zona geográfica são as dificuldades na distribuição, e sobretudo no financiamento, as principais causas do insucesso. Foram abordados vários modelos de crescimento, para tentar ultrapassar estas dificuldades”. Victor Silva – CEO da Vadia

#BEERISNOLONGERBLACK&WHITE: “Existem duas grandes tendências globais no mercado cervejeiro: sustentabilidade e diversidade. No caso da sustentabilidade, existe por parte das cervejeiras uma preocupação cada vez maior com o tema e forma transversal a toda a cadeia de valor. Desde a produção, aos ingredientes, passando pela distribuição e packaging, a otimização de recursos e redução da pegada de carbono torna-se crucial.

Por outro lado, o mercado cervejeiro tem vindo a revelar uma nova dinâmica, mais do que variedades surgem estilos de cerveja diferentes, cervejas com perfis aromáticos e vocações diferentes. Cervejas para todos os gostos e ocasiões de consumo. A diversidade é uma tendência global na categoria de cerveja, os consumidores cada mais exigentes, informados e experimentalistas valorizam um leque alargado de opções cervejeiras. E o caminho não é difícil neste âmbito, uma vez que existem mais de 140 estilos de cerveja no guia de estilos internacional (BJCP Beer Styles Guide). Filipa Santos — Beer category manager da SCC e Beer sommelier pela Doemens desde 2016

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