Blanchard: “Reduzir dívida é, agora, menos urgente. Défices são necessários para investir no futuro”

Implicações do reduzido espaço de manobra dos bancos centrais justificam a tese do economista, apresentada na abertura do Fórum BCE, em Sintra.

Enquanto se multiplicam os alertas das instituições europeias sobre os riscos do elevado endividamento e a necessidade de controlar as finanças públicas dos países, o antigo economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI) Olivier Blanchard tem uma posição contrária.

Blanchard defendeu, na abertura do fórum anual do Banco Central Europeu em Sintra, que a forte redução dos juros das dívidas soberanas devido à política monetária expansionista fez com que a redução da dívida se tenha tornado menos urgente. Por outro lado, considera que os bancos centrais perderam espaço de manobra para ajudar os Estados a combater crises pelo que é necessário usar os défices.

"A redução da dívida é menos urgente do que foi. Os custos estão mais baixos e os riscos são menores. Apesar de o endividamento ser elevado, os custos de gestão não o são, em termos históricos. Não há crise da dívida.”

Olivier Blanchard

Ex-economista-chefe do FMI

A política monetária perdeu o espaço de manobra? Está claramente reduzido“, começou por dizer Blanchard, atualmente no Peterson Institute for International Economics, sobre as estratégias de política monetária adotadas durante a crise pelos maiores bancos centrais do mundo: cortar os juros de referência até mínimos históricos e iniciar programas de compra de ativos para limitar o impacto nos mercados financeiros.

Se a Reserva Federal norte-americana já subiu juros e começou a limpar os ativos comprados na crise da folha de balanço, o BCE ainda tem os juros em mínimos históricos e ainda nem acabou as aquisições (com o programa atualmente em fase de reinvestimentos). “Claro que pode comprar muito mais ativos, mas os efeitos nas taxas deverão ser limitados. E certamente que não há espaço suficiente para responder nem mesmo a uma simples recessão“, alertou o economista.

Investimento público deve ser prioridade

São as implicações do curto espaço de manobra dos bancos centrais nas políticas orçamentais dos países da Zona Euro que justificam a polémica tese de que é necessário desacelerar a redução nas dívidas e deixar crescer os défices.

A redução da dívida é menos urgente do que foi. Os custos estão mais baixos e os riscos são menores. Apesar de o endividamento ser elevado, os custos de gestão não o são, em termos históricos. Não há crise da dívida”, afirmou Blanchard sobre a primeira de quatro consequências que identificou no discurso. Portugal é exatamente exemplo desta situação de que fala o economista, com os juros da dívida em mínimos históricos.

A segunda razão é que o consumo interno não chega para que as economias atinjam o seu potencial. Assim, Blanchard considera que é necessária a intervenção dos Estados através do investimento para impulsionar o crescimento económico. Ou seja, “os défices são necessários”, para sustentar a economia dos países da Zona Euro até porque “seria insensato” confiar apenas em reformas estruturais.

No sentido em que os défices são necessários, devem ser usados, na medida do possível, para investir no futuro, quer através de investimento público entendido de forma alargada, quer para financiar reformas estruturais”, sublinhou o economista, lembrando que o peso do investimento público na economia da Zona Euro diminuiu 0,8%, desde 2007. Em Portugal, atingiu -1,3%, ficando atrás apenas da Grécia e de Espanha.

Blanchard reconheceu que os países da Zona Euro são diferentes, mas alertou que pensar nas necessidades de cada um individualmente pode ter consequências negativas para todos. Devido aos efeitos de contágio, parte da procura depende das importações pelo que seria necessária uma ação conjunta ou o desvio do produto corre o risco de se manter, segundo o economista.

Convergência é o segredo para o sucesso, diz Draghi

Blanchard vê duas potenciais soluções para os problemas que identifica. Por um lado, uma expansão orçamental conjunta como a realizada pelo G20 em 2009, em que cada país emitiu dívida. Por outro, um orçamento da Zona Euro financiado em conjunto pela emissão de euro bonds.

“Percebo que falo de um cenário idílico, que ignora geopolíticas complexas, que, no final, determinam os resultados. Mas este é um bom ponto de partida”, afirmou o economista. Blanchard acrescentou ainda no evento, cujo tema são os 20 anos da União Monetária: “Aniversários são bons momentos para avaliar tanto progressos como falhar e, quando necessário, tomar decisões ousadas. A política monetária alterou-se a si própria. Agora é o momento de fazê-lo com o resto da arquitetura macroeconómica“.

O Fórum BCE, que começou esta segunda-feira no Penha Longa Resort e irá decorrer até à próxima quarta-feira, ficará marcado como sendo o último com Mario Draghi como presidente. Ainda não é conhecido o sucessor do italiano — que Blanchard considera “será colocado ao mesmo nível que os pais da Europa, não por a ter criado, mas por a ter salvo” –, mas vários potenciais candidatos estarão presentes no evento.

Draghi, que também fez um curto discurso no início do evento, focou-se na necessidade de aprofundar as relações entre os países da moeda única. “Há muito que é reconhecido, ainda antes da moeda única ser criada, que era necessário um elevado grau de convergência para garantir que a política monetária seria transmitida de forma equilibrada a toda a zona euro“, afirmou o presidente do BCE.

“O sucesso da União Económica e Monetária vai depender da capacidade de gerar prosperidade para todos os países e crescimento sustentável. Há muitos desafios para conseguir estes objetivos, incluindo o progresso tecnológico disruptivo, baixa produtividade e diferenças estruturais entre os países, e, claro, um ambiente internacional mais complexo”, acrescentou Mario Draghi.

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