BRANDS' PESSOAS Henrique Monteiro: “As lideranças fortes são muitas vezes espirituais”

  • ECO + Tema Central
  • 11 Setembro 2019

Pode a inteligência artificial aspirar a desenvolver estas competências? Henrique Monteiro acha que não, mas não põe de lado que possam desenvolver outro sistema de valores e outra ética.

Três conceitos essenciais para levar uma organização ou um conjunto de pessoas a atingir um objetivo – a liderança, o management e o carisma – radicam em palavras de origem frísia, latina e grega que, em si mesmo, remetem para a espiritualidade e transcendência, não no sentido religioso, mas por não serem mesuráveis ou complemente descritíveis.

Os livros clássicos estão repletos de ensinamentos sobre isto. Pode a inteligência artificial aspirar a desenvolver estas competências? Henrique Monteiro acha que não, mas não põe de lado que possam desenvolver outro sistema de valores e outra ética, naturalmente diferente da que trouxe os humanos até ao ponto em que se encontram. O jornalista, escritor e conferencista vai, já no próximo dia 1 de outubro, pisar o palco do Casino Estoril para dar uma palestra sobre espiritualidade e liderança, na Leadership Summit Portugal.

Será um dos principais oradores da conferência e vai falar sobre liderança e espiritualidade. Sem revelar exatamente do que vai falar, pode adiantar-nos o que podemos esperar deste tema?

Seguramente, mais interrogações e hipóteses do que respostas cabais. Embora defenda claramente que as características essenciais à liderança dependem de fatores não mesuráveis, não objetivos ou mesmo metafísicos que nos remetem para transcendências. Abordo ainda a possibilidade de a inteligência artificial abarcar este tipo de fatores, ou se, pelo contrário, o seu desenvolvimento acabará por criar um novo código de valores e de referências que, muito ou pouco, serão diferentes das que temos por adquiridas.

"A nossa ignorância é infinita e o meu sentido de espiritualidade funda-se nessa humildade que advém do reconhecimento da ignorância e que se funda na recusa do relativismo, do igualitarismo, da engenharia social, do positivismo ou do racionalismo radical, de uma forma genérica.”

Os nossos líderes poderiam desempenhar melhor as suas funções se fizessem uma abordagem mais espiritual da realidade?

Se entendermos uma abordagem espiritual como sinónimo de virtudes clássicas, por certo que sim. Se a entendermos como conhecimento do que foi acumulado pela humanidade ao longo da História, seguramente sim. Mas se verificamos que algumas correntes políticas e de liderança se entendem, elas próprias, como quase-religiões, mais vale deixá-los quietos e longe de tais abordagens.

Identifica alguns líderes que sejam metáforas de uma liderança espiritual?

Claro. O mais evidente é Gandhi. Mas poderíamos falar de Mandela – no sentido em que ele perdoou aos seus carcereiros e, se errar é humano, perdoar é divino. Também há outros, mais do tipo de Bolsonaro que se entende como um defensor da espiritualidade (O Brasil acima de todos e Deus acima de tudo) e não passa de um vulgar populista de trazer por casa, embora perigoso. O facto de se falar muito ou pouco em matérias espirituais não é, seguramente, critério. Penso que Guterres ou Obama, têm essa faceta (embora não se escudassem nela), assim como os fundadores da UE ou De Gaulle e Kohl a tinham (embora também não brandissem essa qualidade). As lideranças fortes são muitas vezes espirituais. E é bom não esquecer que, como em tudo, os excessos são condenáveis. Era o Bispo Alves Martins, figura grada de Viseu (era lá a sua diocese) que foi durante algum tempo primeiro-ministro, dizia que a religião era como o sal: nem demais, nem de menos. Toda a espiritualidade deve ter em conta a necessária tolerância e desprendimento para poder ser vivida em pleno.

É religioso?

Não no sentido corrente do termo, ou seja, não sou membro de qualquer Igreja, por muito que as respeite e saiba como elas impactam a nossa formação. Sou religioso no sentido etimológico da palavra: que é escrúpulo. E sim, sou escrupuloso, cumpro e pago religiosamente o que devo. E sou crente.

Qual a razão desta sua ligação ao tema da espiritualidade?

Penso que tem a ver com o sentido que dou à vida. Também sou espirituoso e gosto de bebidas espirituosas… As coisas colocadas de modo simples podem levar outros a pensar que sou um beato, ou um beto, ou qualquer coisa que não sou. Mas, se o ser humano é dotado de razão, também o é de emoção e de sensações e de aspetos que não sabe explicar, que o transcendem a ele e à humanidade. A nossa ignorância é infinita e o meu sentido de espiritualidade funda-se nessa humildade que advém do reconhecimento da ignorância e que se funda na recusa do relativismo, do igualitarismo, da engenharia social, do positivismo ou do racionalismo radical, de uma forma genérica. Digamos que é uma ligação platónica.

Como definiria espiritualidade?

Espírito, vem do latim spiritu e significa, em primeiro lugar, sopro. Em grego diz-se pneuma, que nos deu a excelente palavra pneumático. As pessoas podem achar que é pouco, mas é essa corrente de ar que passa entre os seres. O aroma das flores era considerado o seu spiritu ou pneuma. Nós, hoje, sabemos por que razão as flores têm um cheiro próprio e as composições químicas e partículas que no ar se conjugam para nos dar essa sensação. Mas não sabemos explicar muita coisa essencial da vida. Desde logo o amor, a paixão que nos vem do espírito; o medo da morte, a esperança, sempre a esperança, última a morrer, tudo o que ficou da caixa (era um jarro, no mito original) de Pandora. É esse sopro, a intuição, o atavismo, o que leva alguém a sacrificar-se por outro, ou um bebé a agarrar-se à mãe… Claro, que quem pensa tudo saber tem explicações para isto. Mas se as aprofundarmos, vemos que são explicações, na maioria tautológicas – ou seja descrevem o fenómeno, mas não as suas causas.

O facto de o nosso Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, ser um homem muito religioso tem contribuído para ser um dos Presidentes da História do nosso país com maior reconhecimento popular?

Tem mais que ver com o facto de ele ter tido anos de “missa” na televisão. E de ser simpático, mas lá está a simpatia (sympátheia, em grego, ou participação no sofrimento ou em quaisquer sensações de outrem, que é o que Marcelo faz) é do domínio do espírito. Do mesmo modo que sempre que digo que sou crente, pensam que sou católico, sempre que falo em espiritualidade, remete-se para a religião. O espírito das Luzes, ou o espírito da Liberdade não são espíritos religiosos, são civis. A simpatia (reparem que o prefixo sin em palavras que vêm do grego querem sempre dizer junção, como em sincretismo, sinfonia, sintético) requer que uma junção de pathos, que começa em grego por significar paixão e sofrimento (que aliás são na raiz a mesma palavra, repare-se como a Paixão de Cristo é o seu sofrimento e como isso em português deu Senhor dos Passos, ou Senhor da Passionis). Mas digamos que além do Pathos, Marcelo tem um Ethos interessante.

As lideranças fortes são muitas vezes espirituais. E é bom não esquecer que, como em tudo, os excessos são condenáveis.

A ideia de representatividade política pode ter na sua génese alguma nuance de espiritualidade? Refiro-me ao sentido existencial da representação, assim entendida por Eric Voegelin.

Bem, não conheço bem a obra de Voegelin, mas salvo erro ele considerava o comunismo e o fascismo como espécie de religiões. Nesse aspeto, não deixa de ter razão. Veja-se o comunismo em comparação com o judaísmo ou cristianismo. Um povo eleito – o proletariado; uma terra prometida, a sociedade sem classes; um homem sem pecado, o homem novo; uma igreja, o partido; uma Bíblia – livros que explicam tudo, como as obras completas de Marx e Lenine; santos, como Lenine Marx e Engels, mártires, etc. Talvez por Marx ser judeu, muito do que há no judaísmo anda por lá. O nazismo tem também estas características – partido, homem novo, império de mil anos, povo eleito (o ariano). Enfim, na essência eles representam uma parte que é substancial na religião: o necessário sacrifício atual para um futuro radioso, um paraíso, um éden. Por isso, defendo que a política, quando começa a falar muito de moral, deve calar-se. Não só por causa dos telhados de vidro, mas também porque as ideias de ética coletiva são, no geral, de evitar ou mesmo de fugir.

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