BRANDS' ECO Os desafios das indústrias transformadoras em Portugal para o horizonte 2030

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  • 21 Janeiro 2020

Hermano Rodrigues, Principal da EY-Parthenon, fala do panorama nacional no sector das indústrias transformadoras, incluindo os desafios e oportunidades.

As indústrias transformadoras em Portugal agregam atualmente mais de 68 mil empresas (98% das quais, PME). Estas empregam cerca de 735 mil pessoas e geram um volume de negócios de mais de 95 mil milhões de euros e um Valor Acrescentado Bruto (VAB) de 22.5 milhões de euros, exibindo uma orientação exportadora de aproximadamente 46%. No computo da economia como um todo, respondem por cerca de 5% do total de empresas, 18% do emprego, 24% do volume de negócios, 23% do VAB e 53% das exportações de bens e serviços, números que atestam a sua relevância no país.

Em termos acumulados, nos últimos 10 anos, o número de empresas nas indústrias transformadoras em Portugal caiu cerca de 16% e o emprego reduziu mais de 5% (embora o número de empresas e de pessoas empregues em atividades terciárias de suporte à indústria tenha aumentado de forma significativa). Em contrapartida, o volume de negócios aumentou 19%, o VAB cerca de 20% e as exportações cerca de 49%. Isto só foi possível porque, no período em análise, a produtividade aparente do trabalho aumentou 25% em termos acumulados, passando de 24 mil euros por trabalhador, em 2008, para quase 31 mil euros, em 2018. O mais notório é que se conseguiu este resultado sem um aumento líquido do investimento, o qual, em termos absolutos, caiu significativamente após 2008 e só recentemente começou a regressar aos níveis iniciais.

"Mais de 40% das indústrias transformadoras nacionais são classificadas em baixa tecnologia e mais de 70% são classificadas em baixa ou média baixa tecnologia.”

Esta evolução do volume de negócios, do VAB e das exportações das indústrias transformadoras nacionais nos últimos dez anos parece fantástica. Contudo, em termos de crescimento anual, mostra-se moderada (1.8%, 1.8% e 4.1%, respetivamente) per si e bem aquém da média da UE. Este é, pois, um primeiro desafio importante que se coloca às indústrias transformadoras portuguesas para o futuro: acelerar de forma mais robusta o crescimento do VAB, do volume de negócios e das exportações, apostando para o efeito num reforço do investimento em Investigação & Desenvolvimento (I&D) e inovação, em tecnologia avançada e em internacionalização.

Do ponto de vista setorial, as indústrias transformadoras em Portugal são lideradas, em termos de relevância do volume de negócios, pelas atividades alimentares (que respondem por cerca de 14% do volume de negócios total), a fabricação de veículos automóveis, reboques, semi-reboques e componentes (11%), a fabricação de coque, produtos petrolíferos refinados e de aglomerados de combustíveis (8%), a fabricação de produtos metálicos (8%) e a fabricação de pasta, de papel, de cartão e seus artigos (5%). Já em termos de emprego, destacam-se na liderança as atividades têxteis e do vestuário (que respondem por quase 19% do total do emprego), sendo que todas as outras atividades industriais relevantes em termos de volume de negócios se mostram também importantes.

industria-4.0

Este padrão setorial evidencia de forma clara uma das fraquezas históricas das indústrias transformadoras portuguesas: a baixa intensidade tecnológica das indústrias mais relevantes que a compõem. Com efeito, mais de 40% das indústrias transformadoras nacionais são classificadas em baixa tecnologia e mais de 70% são classificadas em baixa ou média baixa tecnologia. Em contrapartida, as indústrias de média-alta tecnologia não vão além de 23% em Portugal e as de alta tecnologia não ultrapassam os 4%.

Não é estanho assim que, quando comparamos a produtividade média do trabalho nas indústrias transformadoras portuguesas com a realidade europeia, se constate que a mesma não chega a 50% da média da UE-28 nem a 40% da média de países como França e Alemanha. Desta forma, um outro desafio importante que se coloca às indústrias transformadoras nacionais para o futuro prende-se com a promoção e consolidação de novas atividades industriais, mais intensivas em tecnologia e conhecimento. A aposta no empreendedorismo tecnológico, na diversificação relacionada das atividades ditas tradicionais e na captação ativa de investimento direto estrangeiro estruturante é absolutamente indispensável para o efeito.

"As indústrias transformadoras nacionais necessitam ainda de responder aos grandes megatrends que grassam no mundo, designadamente aos desafios que resultam da urbanização acelerada, da digitalização e indústria 4.0, da economia circular e da descarbonização e transição energética.”

A este nível, um outro aspeto pouco interessante que se observa nas indústrias transformadoras nacionais prende-se com o sentido da dinâmica setorial relativa que se tem observado em anos recentes. De facto, entre 2008 e 2018, não se identifica nenhuma alteração no peso relativo das indústrias de alta tecnologia no país e o crescimento do peso relativo das indústrias de média-alta tecnologia foi muito moderado e conseguido sobretudo pela redução do peso das indústrias de média-baixa tecnologia.

Esta realidade decorre sobretudo do facto de, para além fabricação de outro equipamento de transporte, as performances nacionais mais interessantes em anos recentes terem ocorrido sobretudo na fabricação de pasta, de papel, de cartão e seus artigos, na fabricação de artigos de borracha e de matérias plásticas e na indústria do couro e dos produtos do couro, incluindo o calçado. Esta realidade reforça a pertinência e o imperativo da diversificação da indústria nacional para atividades mais intensivas em tecnologia e conhecimento.

De forma transversal a tudo isto, as indústrias transformadoras nacionais necessitam ainda de responder aos grandes megatrends que grassam no mundo, designadamente aos desafios que resultam da urbanização acelerada, da digitalização e indústria 4.0, da economia circular e da descarbonização e transição energética.

Estes drivers encerram em si muitas ameaças para as atividades industriais, sobretudo porque estão a alterar radicalmente as fronteiras tradicionais entre as atividades industriais e entre estas e os serviços, mas simultaneamente imensas oportunidades. Algumas delas inclusivamente em favor das respostas aos desafios atrás identificados. A que se destaca mais é a possibilidade do nosso país criar uma indústria relevante de tecnologias de produção e de serviços de suporte à intensificação da indústria 4.0, da economia circular e da descarbonização pelo mundo. A EY pode ajudar nestes objetivos e está presentemente a trabalhar com inúmeros stakeholders industriais privados e públicos para que isso se torne uma realidade.

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