As contas da F1, dos patrocínios aos direitos de TV

  • Jorge Girão
  • 5 Outubro 2020

O Campeonato do Mundo de Fórmula 1 é um desporto, mas à sua volta coexiste um enorme negócio de milhares de milhões de euros que financiam o próprio campeonato e em larga medida as equipas.

A principal categoria do automobilismo era nos anos 60 uma competição de nicho com presença regular nos jornais da época, mas sem grande peso no mundo alargado do desporto.

Esta situação começou a mudar nos anos 70, tendo como força motriz Bernie Ecclestone, que na época era o dono da Brabham, uma equipa que conquistou alguns títulos. Durante o seu reinado o inglês transformou a Fórmula 1 numa competição desportiva que gera milhares de milhões de euros e numa atividade bastante lucrativa.

Em 2017, a Liberty Media adquiriu o controlo da Formula One Management (FOM), a empresa que gere os direitos comerciais da Fórmula 1, e depois de dois anos em que as receitas caíram, em 2019 subiram 10,67%, para 1.738 milhões de euros.

É uma quantia milionária que assenta em três vetores principais — direitos de transmissão, taxas cobradas às organizações que realizam Grandes Prémios e patrocínios e parcerias comerciais.

No ano passado a FOM recebeu das cadeias televisivas mais de 655,84 milhões de euros para que estas pudessem transmitir os vinte e um eventos do calendário, o que representa 38,1% das receitas do grupo.

Entre os operadores que mais pagam está a Sky que envia para os cofres da FOM 130 milhões de euros todos os anos para poder transmitir os Grandes Prémios para o Reino Unido, assim como param mais alguns países de expressão inglesa.

Em Portugal, a ElevenSports, que tem os direitos de transmissão para o nosso país, contribui para o bolo com cerca de 2 milhões de euros por ano de um contrato de três anos.

A segunda parcela da FOM advém das taxas cobradas aos organizadores de Grandes Prémios que representam 30% das suas receitas, o que equivale a cerca de 517,42 milhões de euros.

"Toda a publicidade estática que se vê num circuito e os patrocinadores-título de cada um dos Grandes Prémios são pagos à FOM, tendo isto valido 260,44 milhões de euros em 2019, 15% do bolo total”

Com vinte e um Grandes Prémios realizados em 2019, em média cada organizador paga 24,63 milhões de euros, mas não é assim tão linear, dado que o Grande Prémio do Mónaco, por exemplo, graças ao seu estatuto, não engorda dos cofres da FOM, sendo os seus únicos custos, ainda assim avultados, a construção anual do circuito citadino de Monte Carlo.

Do lado inverso estão alguns países como o Azerbaijão, Rússia, Bahrein e Abu Dhabi que desembolsam todos os anos mais de 50 milhões de euros pelo privilégio de poderem ter um Grande Prémio de Fórmula 1.

Portugal regressa este ano ao convívio do Grande Circo, mas é uma exceção, sendo uma organização partilhada entre a Parkalgar – empresa que gere o Autódromo Internacional do Algarve – e a FOM, sendo alocados à parte lusa apenas os custos operacionais.

A terceira parcela mais volumosa das receitas do grupo que gere os negócios da Fórmula 1 são os patrocínios e parcerias comerciais. Toda a publicidade estática que se vê num circuito e os patrocinadores-título de cada um dos Grandes Prémios são pagos à FOM, tendo isto valido 260,44 milhões de euros em 2019, 15% do bolo total.

Estas três parcelas contribuem para 1.433,6 milhões de euros das receitas, 83%, mas existem ainda mais algumas fontes para a FOM.

Uma delas é o paddock club, um local restrito dentro do paddock de cada Grande Prémio, cujo acesso custa, no mínimo cerca de mil euros, mas pode chegar aos oito mil. Em 2019 este espaço rendeu mais de 91,97 milhões de euros, 5,3% do total.

Os 212 milhões de euros restantes dividem-se por fornecimentos de componentes e assistência às equipas de Fórmula 2 e Fórmula 3, categorias geridas pela FOM, pelas receitas geradas pelas redes sociais e o serviço de distribuição de conteúdos através da F1 Pro TV, que também transmite os Grandes Prémios para diversos países, onde se inclui Portugal.

Porém, se as receitas são impressionantes, as despesas são também importantes, o que determina que a FOM tenha tido em 2019 um lucro de apenas de 17 milhões de euros.

A grande fatia dos custos está relacionada com os pagamentos às equipas, que recebem 50% das receitas do grupo.

A FOM distribuiu 869,86 milhões de euros pelas equipas de acordo com a classificação de cada uma no Campeonato de Construtores e pela sua importância histórica na categoria. Para dar uma ideia, a Mercedes, a Campeã do Mundo, recebeu em 2019 152,14 milhões de euros, ao passo que a Williams, a última classificada, auferiu apenas de 51,57 milhões, mas nem foi a que menos recebeu, essa foi a Toro Rosso, com 44,70 milhões.

A FOM tem ainda de pagar 25 milhões de euros de taxas à FIA todos os anos para poder usar a nomenclatura de “Campeonato do Mundo de Fórmula 1”, para além de ter custos operacionais elevados.

Estes dados estão envoltos em grandes secretismos, mas tem ainda custos financeiros — entre impostos, empréstimos bancários para pagar e despesas cambiais — para além de usar parte das suas receitas para diversos investimentos, que vão desde o desenvolvimento das suas redes sociais até à sua plataforma de transmissão em direto dos Grandes Prémios.

No final, a FOM apresentou em 2019 um lucro de 14,61 milhões de euros e, se 2020 se prevê um ano difícil, devido à pandemia da COVID-19, as perspetivas são para que os lucros aumentam substancialmente a partir de 2022.

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