Williams, a queda de um gigante

  • Jorge Girão
  • 5 Outubro 2020

A Williams é a segunda equipa mais bem-sucedida da história da Fórmula 1, só batida pela Ferrari, e era a última das equipas familiares. Mas no dia 21 de agosto acabou por ser vendida.

Foi vendida a fundo de investimento norte-americano, o que ditou o fim da ligação da estrutura aos Williams.

A maior parte das formações que foram marcando presença nas grelhas de partidas dos Grandes Prémios da categoria máxima eram o sonho de um homem ou grupo de homens que tinham nas veias a paixão pelas corridas.

Nenhum, ou poucos, deles tinham como objetivo enriquecer na Fórmula 1, aliás dizia-se que uma das formas mais eficazes para empobrecer era ter uma equipa, mas sentiam a inquietação da competição automóvel e muitos deles passaram por grandes dificuldades, sendo um dos exemplos Frank Williams.

Com todo o dinheiro investido no seu sonho de ter uma equipa de Fórmula 1, o natural de South Shields, Inglaterra, chegou a ter como escritório uma cabine telefónica. As histórias sobre ele e a forma tenaz no seio de dificuldades como edificou a sua equipa são muitas. Uma das mais deliciosas é contada por Bernie Ecclestone: “Costumava emprestar-lhe dinheiro nos tempos difíceis. Ele aparecia e pedia-me 500 libras e eu dava-lhas com a condição de me pagar na terça-feira seguinte. Ele voltava na terça-feira, devolvia-me as 500 libras, tomávamos um chá por entre dois dedos de conversa e no final perguntava-me se lhe podia empresar 700 libras”.

Apesar das dificuldades iniciais, a Williams tornou-se numa equipa bem-sucedida e nos anos 80 e 90 era uma das maiores forças das grelhas de partida, levando aos títulos pilotos como Alan Jones, Keke Rosberg, Nelson Piquet, Nigel Mansell, Alain Prost, etc.

Altura houve em que, se um piloto não tivesse um Williams ao seu dispor, dificilmente conseguiria lutar por um título.

No entanto, de 1997 para a frente começou a sentir-se um declínio consistente na equipa, não tendo desde então conquistado qualquer cetro mundial e desde 2012 que não ganha um Grande Prémio.

De 2018 em diante, tem vindo a figurar no último lugar do Campeonato de Construtores e este ano é a única equipa que ainda não somou qualquer ponto, quando estão disputados dez dos dezassete eventos agendados.

Era já evidente que a estrutura organizativa da formação que opera em Grove, Inglaterra, assente numa gestão familiar já não se coadunava com a Fórmula 1 de hoje.

"Williams custou à Dorilton Capital 152 milhões de euros, incluindo as dívidas da equipa, que, entretanto, foram totalmente pagas.”

As dificuldades financeiras agravaram-se nos últimos anos, dado que, com os maus resultados, o dinheiro que recebe dos direitos comerciais através da Formula One Management (FOM), decresceu substancialmente.

Para colocar em perspetiva a extensão das perdas da Williams, em 2019 recebeu do grupo que gere os aspetos comerciais da Fórmula 1 51,7 milhões de euros, ao passo que a Mercedes viu entrar nos seus cofres 152,14 milhões. São quantias bastante díspares e que dificultam a progressão técnica da formação de Grove.

O primeiro sinal das dificuldades pelas quais a estrutura inglesa, listada no mercado de valores de Frankfurt, passava foram as contas do ano passado, ano em que apresentou um prejuízo de 18,61 milhões de euros.

Para contrariar a falta de desafogo financeiro, em dezembro o Williams Group vendeu 75% da Williams Advanced Engineering, uma empresa de alta tecnologia e uma das suas joias da coroa, que já forneceu construtores como a Porsche ou Jaguar, tendo também sido responsável pela conceção e construção das baterias dos carros da Fórmula E – o campeonato dedicado a monolugares elétricos.

Com esta operação, o grupo reforçou-se com 48,31 milhões de euros, chegando à equipa de Fórmula 1 32,3 milhões.

Mais tarde, em meados de abril, a equipa fundada por Frank Williams com a ajuda de Patrick Head acedeu a um empréstimo 38,68 milhões de euros concedido pela Latrus Racing.

Esta é uma empresa controlada por Michael Latifi, canadiano, que possui a maior grupo de alimentos processados do seu país, a Sofina Foods, estando a sua riqueza avaliada em cerca de 1,46 mil milhões de euros. Para além disso, é o pai de um dos pilotos da equipa – Nicholas Latifi.

No entanto, este empréstimo não veio sem condições, tendo a formação de Grove dado como colaterais o terreno, os edifícios, a fábrica e maquinaria, para além dos carros do museu da equipa, mais de cem.

Estas medidas faziam parte de um plano para financiar a equipa a tempo da introdução da nova regulamentação técnica prevista para 2021 – entretanto, adiada para 2022 devido à pandemia – e, dessa forma, dotá-la dos meios técnicos que lhe permitisse dar um salto competitivo que quebrasse a deriva negativa dos últimos anos.

Mas então o mundo teve de lidar com algo inesperado — o novo coronavírus — e a Rokit, o patrocinador-título da Williams para a presente temporada, decidiu não manter o seu apoio, o que, na prática, ditou a decisão de Claire Williams – filha de Frank e a chefe de equipa executiva da Williams – de vender a equipa devido as difíceis condições financeiras da formação de Grove.

No dia 21 de agosto foi anunciado que a Williams fora vendida à Dorilton Capital.

O fundo de investimento, cuja identidade do seu verdadeiro dono se desconhece para já, tem sede em Nova Iorque e possui empresas de serviços industriais, de tecnologia da saúde e da alimentação, assumindo-se como uma entidade que fornece capital para o crescimento de projetos, apoio e conhecimento para que as companhias que desejem dar um passo em frente nas respetivas áreas.

A Williams custou à Dorilton Capital 152 milhões de euros, incluindo as dívidas da equipa, que, entretanto, foram totalmente pagas, demonstrando que os americanos estão determinados em mudar o rumo da equipa que adquiriram.

Este desfecho demonstra como o mundo da Fórmula 1 é impiedoso e onde a história pouco conta, não sendo os sucessos do passado uma garantia de futuro, como demonstra o afastamento da família Williams da equipa que fundou. Este desenvolvimento marca o fim de uma era, visto que hoje nenhuma das equipas que competem na categoria máxima do desporto automóvel é detida pelos seus fundadores ou família.

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