Têxteis portuguesas resistem à corrida europeia às máscaras FFP2

As têxteis Daily Day, Adalberto e João Pereira Guimarães não sentiram quebra na procura por máscaras comunitárias, ao contrário da Crivedi que registou quebra de 50% para o mercado alemão e francês.

As máscaras FFP2 estão a fazer correr muita tinta. Duas semanas depois da Alemanha e da Áustria proibirem o uso de máscaras comunitárias, as têxteis portuguesas garantem que não estão a sentir os impactos dessa medida e que houve apenas alguma apreensão por parte dos clientes e mais pedidos de esclarecimento.

A Daily Day, que foi das primeiras empresas têxteis portuguesas a produzir máscaras comunitárias certificadas pelo Citeve, não está a sentir quebra na procura por máscaras sociais, apenas alguma apreensão. “O impacto é pouco ou nenhum. O volume de encomendas está mais ou menos igual. Foi mais o choque de uma nova informação que acabou por gerar mais dúvida e confusão que esclarecimento”.

“Houve momentos que sentimos que havia uma apreensão e um compasso de espera por parte dos clientes até ficarem esclarecidos do que estava a acontecer”, descreve Filipe Prata, presidente da Daily Day que já vendeu dois milhões de máscaras desde o início da pandemia.

À semelhança da Daily Day, a Adalberto não registou quebra nas encomendas de máscaras comunitárias, mas houve um aumento no pedido de esclarecimentos. “Continuamos com o mesmo ritmo de produção de máscaras comunitárias, não sentimos quebra, temos pedidos de esclarecimento, mas até agora normal”, explica Susana Serrano, CEO da Adalberto. A Mo juntamente com a Adalberto desenvolveram a primeira máscara têxtil reutilizável com capacidade comprovada para inativar o novo coronavírus, a MOxAd-Tech.

O impacto é pouco ou nenhum. O volume de encomendas está mais ou menos igual. Foi mais o choque de uma nova informação que acabou por gerou mais dúvida e confusão.

Filipe Prata

Presidente da Daily Day

No início da pandemia a têxtil João Pereira Guimarães, especializada na produção de malha, aliou-se à confeção Island Cosmos para produzir máscaras reutilizáveis. Atualmente, já foram vendidas um milhão e meio de máscaras, principalmente para as autarquias. Para a empresa, embora as máscaras tenham representado 10% do volume de negócios da empresa em 2020, a procura por máscaras sociais tem vindo a diminuir e não é reflexo da obrigatoriedade do uso de máscaras FFP2 por alguns países europeus.

“Sentimos que já existe um decréscimo, a nível geral, do uso de máscaras comunitárias desde outubro, não está relacionado diretamente com as FFP2. Depois do verão as pessoas começaram progressivamente a deixar de usar máscaras comunitárias. O preço das descartáveis desceu brutalmente e toda a gente tem acesso a elas em qualquer lado”, explica ao ECO Carolina Guimarães, gerente da João Pereira Guimarães.

César Araújo, presidente da Associação Nacional das Indústrias de Vestuário e Confecção (Anivec) confirma que as máscaras comunitárias deixaram de ter uma procura desenfreada desde setembro, muito devido ao aumento da oferta. O presidente da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal (ATP), Mário Jorge Machado, quantifica: 65% das empresas têxteis registaram quebras de volume de negócios superior a 10% em janeiro deste ano. “Não devemos na Europa deixarem-nos arrastar para um tipo de decisões desse género”, pede, sublinhando que “tudo o que prejudique a procura vai dificultar mais a vida às empresas”.

Para o presidente da ATP, o facto de a Alemanha e da Áustria proibirem o uso de máscaras sociais e obrigar o uso de máscaras FFP2 veio prejudicar essencialmente as têxteis portuguesas que exportam para esses mercados. A Crivedi é uma delas. Viu as suas encomendas de máscaras sociais cair 50% nas duas últimas semanas, principalmente para Alemanha e França, destino de 50% da sua produção de máscaras.

Ao contrário das têxteis Daily Day, Adalberto e João Pereira Guimarães que não sentiram quebra no volume de encomendas de máscaras comunitárias, a Crivedi sentiu logo o impacto desde o momento que surgiram os primeiros rumores que a Alemanha ia proibir o uso de máscaras sociais e que França estava a desaconselhar.

“Esta medida teve um impacto negativo e a queda nas encomendas foi imediata. A nível internacional refletiu-se muito mais porque temos um grande mercado em França e Alemanha e vimos esse mercado a reduzir as suas encomendas. Tivemos um decréscimo nos pedidos de encomendas superior a 50% no mercado externo e 20% no mercado nacional”, explica ao ECO o presidente Crivedi, António Archer.

O responsável conta que “diariamente recebem questões dos clientes se as máscaras comunitárias são seguras e se as FFP2 vão tornar-se obrigatórias. Obviamente isso tem um efeito direto nas vendas das máscaras, a nível nacional”. António Archer considera que existem “grandes interesses” nesta jogada e defende que todo o trabalho que a indústria têxtil portuguesa desenvolveu em torno das máscaras sociais “não pode, nem deve, cair por terra devido a esta desinformação”.

O presidente Crivedi lamenta que, em Portugal, quando se entra com uma máscara social num hospital, seja certificada ou não, a pessoa seja obrigada a substituí-la por uma máscara cirúrgica. “É uma enorme injustiça perante quem teve a trabalhar e a aperfeiçoar todo o processo para desenvolver máscaras com qualidade e seguras”, critica.

Apesar de estar a sentir o impacto da proibição das máscaras comunitárias por alguns países europeus, foi com a aposta nas máscaras que a Crivedi conseguiu dar a volta à crise e cresceu, o ano passado, 15% no volume de negócio. No início da pandemia, a têxtil da Trofa adaptou as linhas de produção e começou a produzir máscaras. Passado quase um ano representam 50% do volume de faturação da empresa. Até agora já venderam dois milhões e meio de máscaras sociais. “2020 foi um ano francamente bom para nós e muito devido às máscaras”, reconhece António Archer.

Comunicado de Bruxelas deixa cluster mais tranquilo

Perante toda esta confusão que se instalou em torno das máscaras, o Centro Europeu de Controlo de Doenças já veio mostrar a sua posição e considera desnecessário o uso de máscaras de proteção FFP2” contra a Covid-19 para a população em geral, com base nos dados científicos de que dispõe atualmente.

O presidente da Anivec já tinha dito ao ECO, antes deste comunicado de Bruxelas, que “devia existir um estudo científico para perceber quais as diferenças entre uma FFP2 ou uma máscara social”. Para César Araújo com tudo isto, “a Europa acabou por gerar uma confusão enorme e criar desconfiança nas populações”.

Para o presidente da Daily Day, este comunicado de Bruxelas foi importante para esclarecer as populações. “Agora vamos voltar à normalidade que era desejável que não tivesse sido perturbada até porque foi só ruído que foi lançado. Não foi acrescentado nada de útil para a saúde pública”, diz Filipe Prata. O presidente da Crivedi não está assim tão tranquilo e julga ser “uma batalha que vai ainda vai durar”.

Mário Jorge Machado considera que não existem razões de desconfiança das máscaras portuguesas certificadas. O presidente da ATP frisa que “as máscaras sociais têxteis mostrarem nestes últimos meses que são capazes de proteger as pessoas”.

As associações têxteis já vieram defender que existem máscaras têxteis com a mesma eficácia que cirúrgicas. O presidente da Anivec voltou a insistir que as máscaras sociais portuguesas são seguras e até dá um exemplo. “Quando António Costa esteve em contacto com o Presidente francês Emmanuel Macron — que se veio a saber, horas mais tarde, que estava infetado com Covid-19 — estava a usar uma máscara portuguesa comunitária e não foi infetado, isso quer dizer alguma coisa”, sublinha César Araújo.

Dispara procura por máscaras comunitárias com proteção superior

Desde o momento que o número de infetados pelo novo coronavírus começou a aumentar em Portugal e no mundo, as pessoas começaram a procurar máscaras comunitárias com um nível de proteção superior. O presidente da Daily Day confirma a tendência e destaca que “as pessoas estão a procurar máscaras com maior nível de proteção.

“As máscaras de nível 2 estão a ter mais procura porque tem mais proteção — acima de 90%”. Destaca que as máscaras têxteis portuguesas são eficazes e que não há motivo de preocupação. “Temos máscaras de nível 2 que mesmo após as 75 lavagens continua a ter um nível de filtração de 97%”, refere Filipe Prata.

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