AHRESP diz que rentabilidade do ‘take away’ e entregas é “praticamente nula”

  • Lusa
  • 14 Fevereiro 2021

A AHRESP diz que muitos destes negócios "não têm margem sequer de 20% para pagar 20% a uma plataforma e, portanto, logo à partida isto é um fracasso".

A secretária-geral da AHRESP, Ana Jacinto, afirmou que a rentabilidade do ‘take away’ e entregas ao domicílio é “praticamente nula” para restaurantes que aderiram recentemente e uma das razões são as comissões elevadas das plataformas.

Em entrevista à agência Lusa, a responsável da Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal (AHRESP) defendeu que as empresas “vão trabalhando, porque precisam de trabalhar”, mas quando chegam ao final do mês percebem que “a rentabilidade das vendas é praticamente nula no que diz respeito ao ‘take away’ e ao ‘delivery’ [entregas ao domicílio]”.

“No que diz respeito ao ‘delivery’ e às comissões, que são elevadíssimas e que acabam por não tornar os negócios rentáveis, não é a salvação para nenhuma empresa, mas acabam por ir faturando alguma coisa, para manter os trabalhadores e a rotina de trabalho, para a operação não parar totalmente” afirmou Ana Jacinto.

A secretária-geral da AHRESP disse que, à exceção de empresas que já tinham como ramo de atividade básica o ‘take away’ ou as entregas ao domicílio (‘delivery’) antes da pandemia, as que aproveitaram estas modalidades para fazer face às restrições impostas para conter a covid-19 “enfrentam várias dificuldades”.

“A primeira é não conhecerem bem essas modalidades quando contratam com as plataformas [de entregas ao domicílio], contratam com o desconhecido, porque a verdade é que, independentemente de o Governo ter intervindo nesta matéria, como sabemos – e bem, porque limitou a comissão – a comissão ainda é elevada, nós estamos a falar de 20%”, explicou.

“Muitos destes negócios não têm margem sequer de 20% para pagar 20% a uma plataforma e, portanto, logo à partida isto é um fracasso”, referiu, apontando que, apesar de ser “alguma coisa que cai na caixa registadora”, trata-se de um valor “extremamente residual e muito insuficiente para a maioria”.

Ana Jacinto considerou, ainda, que a proibição de venda de bebidas em ‘take away’ é um fator prejudicial ao negócio dos restaurantes, uma vez que leva os consumidores a dirigirem-se a espaços onde podem comprar a comida e a bebida juntas.

Para a AHRESP, a restauração está neste momento dependente da “capacidade que o Governo tenha de, efetivamente injetar dinheiro nas empresas”, para que consigam resistir até ao momento da retoma. “Nós não temos dúvidas que isso vai acontecer [a retoma da procura] e, se calhar, até com uma intensidade quiçá maior até do que aquela que nós já tivemos no passado. Agora, que empresas é que ficam cá para responder a essa procura?”, questionou Ana Jacinto.

Assim, para a AHRESP é prioritário fazer com que o dinheiro chegue às empresas. “Depois logo veremos que caminhos é que temos de percorrer, como é que vamos percorrer os caminhos, mas agora não podemos criar entraves ao dinheiro entrar nas empresas”, sublinhou.

Há “muitas situações graves” de empresários que não conseguem apoios

A secretária-geral da Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal (AHRESP) disse que recebe “muitas queixas” diariamente sobre “situações graves” de empresários que não conseguem apoios e que “já não há desculpa” para não se saber como agir.

Nós temos todos os dias muitas queixas, muitas situações graves de empresários que não estão a conseguir, efetivamente, ser apoiados”, afirmou Ana Jacinto, em entrevista à agência Lusa. Na opinião da responsável, “agora já não há desculpa para não sabermos como agir”, dado que passou quase um ano desde o início da pandemia em Portugal.

“O que está a acontecer, de facto, é alguma demora injustificada e complexidade injustificada que nesta fase já não devia acontecer”, acrescentou, referindo-se aos apoios aos empresários da restauração e do alojamento turístico. Ana Jacinto disse também que a AHRESP tem identificado várias “incoerências”, “constrangimentos” e “dificuldades” nos critérios de acesso aos apoios, alguns dos quais vão sendo corrigidos, mas outros não o são com a “celeridade” necessária.

Temos empresas recentes que não conseguem fazer comparação de quebras de faturação e, portanto, não estão a ser apoiadas, nós temos os empresários em nome individual num regime simplificado, mas que não têm colaboradores [por isso] não estão a ser apoiados, temos, por exemplo, sócios-gerentes que não têm quebras de 100%, porque estão a trabalhar com algum ‘take away’ ou com algum ‘delivery’ e já não podem ser apoiados, porque só se tiverem quebras de 100% é que podem ser”, exemplificou a secretária-geral da AHRESP.

A associação considera, ainda, que o apoio ao pagamento das rendas dos estabelecimentos comerciais deve ser alterado, uma vez que foi anunciado antes de se saber que haveria um segundo confinamento. “Já não chega sermos apoiados em 30%, 40% ou 50%, atendendo às quebras de faturação. Nós não temos capacidade de pagar a renda a 100%, estamos encerrados completamente e, portanto, precisa de ser revisitado este mecanismo, para além de que só apoia as empresas que tenham contratos de arrendamento”, apontou.

Segundo Ana Jacinto, há “muitas empresas” excluídas do programa de apoio às rendas, porque têm contratos de exploração e não de arrendamento, bem como casos em que os senhorios têm mais de 65 anos e, por isso, não são obrigados a registar os contratos, ou casos de empresas que têm arrendamentos com entidades públicas, que também não são obrigadas a fazer o registo do mesmo.

“[As exclusões] são inúmeras e podíamos estar aqui a falar de diversas, porque cada dia aparece uma situação diferente”, apontou. A AHRESP demonstrou, ainda, preocupação relativamente ao endividamento das empresas e instou o ministro da Economia a “revisitar” a questão das moratórias financeiras e fiscais.

“Ninguém previa que iríamos ficar nesta situação tanto tempo, portanto esse também é um tema que nos preocupa, porque, apesar de as microempresas não terem recorrido tanto a estes financiamentos – porque foi-lhes logo vedado e bloqueado o acesso – também temos muitas empresas que o fizeram, mas isto não se trata propriamente de apoios a fundo perdido, trata-se de créditos e financiamentos que têm de ser pagos e que agora estão a começar a cair, as moratórias e os pagamentos, e eles têm de ser dilatados no tempo”, lembrou Ana Jacinto.

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