Luís Filipe Vieira: “A minha ida para o Benfica foi pedido de vários bancos”

Empresário defende que Benfica não foi um trampolim para os seus negócios pessoais e que não tirou nenhum “benefício empresarial” com o facto de liderar o clube encarnado há duas décadas.

Luís Filipe Vieira, ouvido na comissão de inquérito ao Novo Banco devido às dívidas de mais de 450 milhões do grupo Promovalor, contou que a sua ida para a presidência do Benfica, há quase 20 anos, foi um pedido de vários bancos interessados em salvar o clube encarnado. O empresário, que começou no negócio dos pneus e tem interesses no setor imobiliário, defendeu que liderar os encarnados não representou um trampolim para os seus negócios, nem tão pouco tirou “benefício empresarial” disso.

“A minha vida não foi criada com o BES ou com a minha vinda para o Benfica a partir de 2001. Na verdade, já era um reconhecido e prestigiado empresário quando comecei a trabalhar no Benfica”, afirmou esta segunda-feira o empresário no Parlamento.

Vieira disse aos deputados que ser presidente dos encarnados “é uma das coisas mais felizes” da sua vida e é “um orgulho” para ele, mas quem disser que isso lhe trouxe “benefícios empresariais está a mentir”.

Ao contrário, o facto de liderar o Benfica só lhe trouxe maior pressão pública, mas nada que o tivesse abalado: “Apenas por ser presidente do Benfica fui escrutinado até à exaustão e os resultados são inequívocos: os ativos que foram financiados estão aí, à vista de todos, não evaporaram nem estão em offshores; a reestruturação feita é única, por comparação a qualquer outra do Novo Banco ou de outros bancos: zero perdão de dívida (capital e juros), reforço de garantias hipotecárias, manutenção do meu aval pessoal, reforço de liquidez para recuperar os ativos, com contributo meu”.

Antes, havia contado que a sua ida para o clube no início dos anos 2000 não foi apenas uma vontade da sua parte. “Foi também um pedido de várias instituições financeiras”, ressalvou o empresário na sua intervenção inicial.

Vieira recordou que o Benfica se encontrava nessa altura “numa situação financeira muito delicada, como nunca antes tinha vivido na sua história”. E revelou que os bancos estavam interessados na “viabilização” do clube encarnado. “Interpretei esse pedido como uma prova de confiança nas minhas capacidades e na minha palavra, tendo em conta a situação de extrema fragilidade que o Benfica atravessava no ano 2000”, sustentou o empresário.

Os desafios que encontrou no Benfica obrigaram-no a “uma dedicação quase exclusiva, incompatível com a gestão das minhas empresas”, razão pela qual veio a reduzir o seu envolvimento na condução das empresas e a organizá-las no grupo Inland/Promovalor, em 2006.

A sociedade foi constituída com capitais próprios de 35 milhões de euros e sem dinheiro da banca, assegurou Vieira.

Com as crises de 2008 e 2011, o grupo iniciou um processo de expansão internacional para contrariar a estagnação do mercado português. Vieira contou que o “desinvestimento em Portugal” também foi pedido pelos bancos, numa altura em que a troika mandava apertar a torneira do crédito aos setores da construção e imobiliário.

A Promovalor virou-se então para o Brasil — onde tem atualmente um hotel no Recife – e Moçambique – onde tem um edifício de escritórios. Mas também estes mercados registaram paralisações.

Em 2014, após a queda do BES, a Promovalor “procurou encontrar uma forma de cumprir com as suas obrigações, em particular com o Novo Banco”. Este trabalho envolveu o Fundo de Resolução e culminou na reestruturação de parte da dívida em 2017, com a transferência de créditos para um fundo de investimento alternativo especializado (FIAE) gerido pela C2 Capital Partners, de Nuno Gaioso Guerreiro, antigo braço-direito de Vieira do Benfica.

Nesta operação, o fundo comprou créditos de 133,9 milhões de euros ao Novo Banco, sendo que foram reestruturados pelo banco financiamentos existentes de 85,8 milhões de euros

“Sublinho: esta foi a decisão tomada pelo Novo Banco e pelo Fundo de Resolução para pagamento, na totalidade, repito, na totalidade, das dívidas da Promovalor ao Novo Banco”, reitera Luís Filipe Vieira, vincando a ideia de que não teve qualquer perdão de dívida por mais do que uma vez.

Quanto ao fundo de investimento que gere os seus créditos, Vieira diz que não tem qualquer palavra a dizer, pois 96% das unidades de participação são detidas pelo Novo Banco, mantendo o presidente do Benfica 3%. Foi elaborado e aprovado um plano de negócios que contemplava o desenvolvimento de alguns ativos imobiliários e a venda de outros com maximizar o seu valor e saldar as dívidas ao banco.

Em setembro de 2017, a Promovalor tinha uma dívida de 227 milhões de euros — dos quais 217 milhões referentes a capital, 8,9 milhões relativos a juros e 1,4 milhões de comissões – e ainda por pagar empréstimos obrigacionistas de 160 milhões ainda não vencidos.

Vieira assegurou que o FIAE “recebeu a totalidade do património para pagamento da dívida e juros e liquidação do referido empréstimo obrigacionista”. Dois dos ativos transferidos não tinham qualquer hipoteca a favor do Novo Banco: o hotel do Brasil e o edifício de escritórios em Moçambique.

Já no final da sua intervenção, Vieira disse nunca ter sentido ou pedido qualquer “tratamento privilegiado” e também nunca o recebeu.

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