Setor automóvel deu resposta à pandemia. Mas vêm aí mais desafios

  • ECO
  • 18 Junho 2021

Depois do pânico inicial, o setor deu resposta à crise pandemia. No segundo confinamento, impacto foi menor, mas o mercado não pára de mudar. Crise dos chips e eletrificação são desafios.

A retoma do setor automóvel, as mudanças que o mercado teve de fazer para se adaptar à nova realidade e o futuro dos veículos foram os temas discutidos na webtalk “Mercado Automóvel 2021: comportamento e tendências”, que teve lugar no Terminal do Porto de Leixões.

A sessão foi moderada por Paulo Moutinho, editor executivo do ECO, e contou com a participação de António Coutinho, Presidente Executivo do Grupo M. Coutinho e Vice-Presidente da ACAP, Armando Cardoso, Diretor Comercial Automóvel do Montepio Crédito, Manuel Macedo, Administrador na Macedo & Macedo, Miguel Vassalo, Country Manager da Autorola Portugal, Pedro Gouveia Alves, Presidente do Conselho de Administração do Montepio Crédito e Pedro Rodrigues, CEO da BMcar.

O impacto da pandemia no setor automóvel

O ano de 2020 marcou o mercado automóvel pela acentuada queda de vendas que teve como consequência da pandemia. A quebra no negócio refletiu-se não só nos concessionários, mas também nas fábricas que produzem os veículos e, ainda, nos financiamentos para as compras de carros.

“Todos nós dizíamos que nos próximos 10 anos o setor ia modificar-se muito mais do que nos últimos 100 anos. Eu diria que com o processo de Covid-19, os próximos três anos vão ser mais transformadores do que os últimos 100 anos”, começou por dizer António Coutinho.

O presidente executivo do Grupo M. Coutinho e vice-Presidente da ACAP admitiu que o “pânico” ficou instalado quando a pandemia foi declarada, mas ressalvou que, ainda assim, o setor automóvel conseguiu lidar bem com a situação. “Conseguimos manter a confiança nas pessoas até maio, altura em que o país começou a abrir. Mantivemos as condições de higiene, protegemos as nossas pessoas e os nossos colaboradores”, acrescentou.

E foi precisamente em maio que Manuel Macedo também notou que o interesse pela compra de automóveis começou a aumentar: “Tivemos à altura do desafio, conseguimos responder ao mercado, conseguimos estar presentes quando alguém precisava de atualizar as soluções que tinham, nomeadamente, trocar de carro. E, nesta altura, notamos que a procura tem vindo a crescer a partir de maio”.

Talvez por isso é que, apesar da descida inicial na compra de veículos, o presidente do Montepio Crédito revelou que, ainda assim, conseguiram aumentar o financiamento automóvel: “Crescemos 18% na produção de financiamento automóvel e isso tem muito a ver com o facto de não termos deixado de acreditar nas capacidades dos nossos parceiros, uma vez que, mesmo com o fecho da atividade do ponto de vista de imposição legal, houve um recriar de toda a forma de fazer negócio no retalho automóvel”.

"As marcas de automóveis vão ter dificuldade em acompanhar esta recuperação. Nós estamos com problemas de fornecimento, que são transversais na generalidade das marcas.”

António Coutinho

Vice-presidente da ACAP

A mesma tendência foi verificada por Pedro Rodrigues, que afirmou que a BMcar acabou por fechar o ano de 2020 como o “melhor ano de sempre” em termos de atividade. “Crescemos cerca de 12% face a 2019 e aquilo que tem vindo a acontecer nestes primeiros cinco meses do ano é um pouco o reflexo disso. Nós estamos com um crescimento de cerca de 50% face a 2020, até ao final de maio, mas ainda há muitos desafios a ajustar”, disse.

Esses desafios têm estado relacionados com a demora na fabricação de automóveis novos. “As marcas de automóveis vão ter dificuldade em acompanhar esta recuperação. Nós estamos com problemas de fornecimento, que são transversais na generalidade das marcas, então será muito provável que ainda vamos ter um ano difícil pela frente, não tanto pela pandemia, mas pelas condições de fornecimento”, revelou o administrador da Macedo & Macedo. António Coutinho confirmou que há um “problema de stock que é grande”.

Medo do vírus aumentou procura por carro individual

Se, por um lado, a incerteza que a pandemia trouxe às famílias fez com que a compra de veículos diminuísse no primeiro confinamento, por outro lado, o medo do vírus também impulsionou muitas pessoas a adquirirem um automóvel próprio para evitarem transportes públicos ou a partilha de veículos.

“As pessoas estavam habituadas a partilhar carros, a usar transportes alternativos, os próprios jovens acabavam por se deslocar em grupo, mas cada vez tornou-se necessário o transporte individual”, referiu Manuel Macedo, acrescentando que esta tendência verificou-se ainda em 2020.

O administrador da Macedo & Macedo disse ainda que as próprias empresas com as quais trabalham “tiveram uma maior necessidade de ter meios de transporte individuais”, fator que contribuiu para que a descida não fosse tão significativa e não tivessem de recorrer a nenhum dos apoios do Estado.

A necessidade de ter um carro para evitar as multidões levou muitas pessoas a procurar automóveis usados, muito pelo facto de serem mais baratos. Miguel Vassalo falou de uma queda a pique em março de 2020, mas também de uma recuperação que começou logo em meados de abril do mesmo ano. “Achamos estranho porque, na realidade, ainda estávamos em pleno confinamento. Mas, quando olhamos para trás, percebemos que estava a haver uma recuperação. Acreditamos que uma das razões foi essa procura pelo usado por ser uma forma mais barata de substituir o transporte público”, afirmou.

Também aqui o financiamento automóvel teve um peso importante porque, da mesma forma que a necessidade de ter ou não ter um carro próprio mudou por causa das circunstâncias externas, também as formas de se comprar os veículos estão a passar por algumas mudanças que, segundo os especialistas, são impulsionadas pelas gerações mais novas.

Pedro Gouveia Alves chegou mesmo a dizer que, enquanto há uns anos atrás a posse de um veículo era bastante valorizada pela sociedade, hoje em dia é a utilização do automóvel que tem mais valor. “É algo que está a mudar e algo que é muito geracional. Nesse sentido, os mecanismos e a oferta de financiamento têm vindo a evoluir, não apenas no sentido da posse, da propriedade da viatura, mas também do próprio aluguer operacional. Portanto, compete às instituições financeiras adaptarem-se a esta realidade”, disse.

Por essa razão, o renting que, antigamente, era mais orientado para profissionais, tem sido agora uma opção cada vez mais adotada por particulares. “Se o particular olha para aquele [carro] como algo que ele vai utilizar, obviamente que está mais focado naquilo que lhe vai custar mensalmente e menos focado naquilo que vai ter de pagar pelo bem daqui a seis ou sete anos, uma vez que quando chegar ao termo do contrato, aquilo que ele vai fazer é trocar de carro”, disse Armando Cardoso, de forma a justificar o aumento do renting.

O futuro é dos carros elétricos? Gasóleo vai continuar a ser opção?

Não há dúvidas de que os veículos elétricos e híbridos vão compor a maior “fatia” das vendas de automóveis no futuro. Aliás, a tendência já começa a verificar-se nos dias de hoje e, por essa razão, quer as marcas, quer os concessionários, quer os bancos que dão financiamento automóvel têm de ajustar-se às necessidades da procura.

“Portugal tem vindo a fazer o seu caminho para ser mais amigo do ambiente e as pessoas têm reagido de uma forma positiva. Mas claro que isto também tem a ver com as normas da Comissão Europeia. Nós sabemos que temos uma taxa de 95 gramas a partir da qual há penalizações muito grandes a cada grama que passe e, portanto, há uma pressão europeia sobre as marcas, as marcas põem-se sobre os concessionários e há também uma tendência dos consumidores quererem carros de energias diferentes”, explicou o Presidente Executivo do M. Coutinho e Vice-Presidente da ACAP.

"Nestes últimos anos os carros eletrificados representaram 70% a 80% das minhas vendas. Mas o futuro não será uma única solução. No atual cenário de carros a bateria, o facto de terem de ser ligados à ficha faz com que a maior parte da população ainda não se reveja nesta realidade porque acabamos por ter dificuldades em recarregar essas viaturas,”

Manuel Macedo

Presidente da Macedo & Macedo

Nesse sentido, os bancos também têm vindo a apresentar opções de financiamento mais adequadas para a compra de veículos a bateria ou mistos, já que as vendas destes carros na Europa duplicaram em 2020. O diretor comercial automóvel Montepio Crédito lembrou a solução de Eco Financiamento do Montepio e ressalvou que, nos primeiros cinco meses deste ano, “já se financiaram mais viaturas neste segmento do que no ano todo de 2020”.

“Nestes últimos anos os carros eletrificados representaram 70% a 80% das minhas vendas. Mas o futuro não será uma única solução. No atual cenário de carros a bateria, o facto de terem de ser ligados à ficha faz com que a maior parte da população ainda não se reveja nesta realidade porque acabamos por ter dificuldades em recarregar essas viaturas”, admitiu o administrador da Macedo & Macedo.

E, no caso dos carros usados, a procura por elétricos também aumentou? De acordo com o Country Manager da Autorola Portugal, não há dúvidas que sim: “Naturalmente, os usados têm algum delay nas energias alternativas, mas começam já a dar os primeiros passos e têm seguido o mesmo comportamento do mercado dos novos, ou seja, a taxa de crescimento dos híbridos e dos elétricos tem sido bastante grande”.

No entanto, a desvalorização de um carro elétrico usado é muito mais rápida do que a de um carro a combustão por um simples fator: a bateria tem menos tempo de vida. “Este processo da troca das baterias de um carro com cinco ou seis anos é um processo penoso que as marcas vão ter de resolver num futuro próximo. Mas é um processo normal, de transição do setor e tudo isto se resolve no tempo”, afirmou António Coutinho.

Ainda assim, a perspetiva para os próximos 10 a 15 anos passa por várias opções e não apenas pelos elétricos. Mais concretamente, serão quatro as soluções que, de acordo com Manuel Macedo, farão parte da oferta no futuro do setor automóvel. “Vamos ter viaturas a hidrogénio, que já estariam disponíveis para venda se houvesse uma rede nacional, mas, mais uma vez, é uma questão política não haver essa decisão. Felizmente, estamos a ter bons indicadores nos autocarros, mas vamos continuar com motores a combustão. Os atuais motores a gasolina e a diesel serão bastante interessantes para determinados tipos de utilizações e, se calhar, mais eficientes e até ecológicos. Pelo meio vamos ter viaturas movidas a eletricidade, sozinhas ou mistas – com combustão – e algumas de carregar eletricamente”, concluiu.

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