Poupança acumulada vai atrasar retoma, alerta estudo do BCE

A pandemia veio reforçar a poupança de uma parte significativa da população e o destino desse dinheiro terá impacto na evolução futura do PIB e da taxa de inflação.

A pandemia trouxe uma crise, mas também um reforço de poupanças para milhões de pessoas. Esta acumulação, bastante acima do histórico, tem o potencial para moldar a recupera pós-Covid-19, escreve um estudo publicado pelo Banco Central Europeu esta segunda-feira, onde se traça cenários possíveis. Este “excesso” de poupança será gasto ou não? A velocidade da retoma dependerá da resposta a esta pergunta, mas os autores do estudo concluem que o impacto tenderá a ser limitado no médio prazo.

O estudo assinado pelas economistas Maria Grazia Attinasi, Alina Bobasu e Ana-Simona Manu analisa três economias avançadas fora da Zona Euro — os Estados Unidos, o Reino Unido e o Japão — para chegar à conclusão de que há uma série de argumentos que apoiam a tese de que as poupanças acumuladas não se transformarão maioritariamente em consumo. Porém, dada a incerteza que ainda existe nos cenários económicos, as autoras também perspetivam dois cenários alternativos e estimam os seus potenciais efeitos económicos.

Há vários argumentos, mas são três as principais razões pelas quais as economias consideram ser improvável que as poupanças acumuladas se transformem em consumo de forma significativa. Desde logo, quem mais conseguiu poupar foram os agregados familiares de rendimento elevado, cuja propensão marginal para o consumo é mais baixa — dado que conseguem facilmente satisfazer as necessidades básicas — em comparação com os agregados de menor rendimento, tal como indicava o Banco de Portugal quando estudou este fenómeno da poupança na pandemia.

No boletim económico de junho, o banco central assumia que “a poupança acumulada pelas famílias durante a pandemia se traduz, em termos agregados, num aumento persistente da riqueza”. “As características dos principais aforradores – de rendimentos mais elevados e com menor propensão ao consumo – suportam esta hipótese“, argumentavam os economistas do banco central. No entanto, “não pode ser excluída a possibilidade de uma parcela destes recursos ser canalizada para consumo”, acrescentavam, à semelhança do que admite este estudo.

Em segundo lugar, o estudo do BCE considera que os consumidores podem ter usado e continuar a usar estas poupanças acumuladas para reembolsar dívida ou investir em ativos, como o imobiliário. Em terceiro lugar, os contribuintes podem começar a interiorizar que o atual aumento da dívida pública será pago com mais impostos no futuro e, por isso, reduzem o consumo em antecipação.

Três cenários para a poupança: se aumentar, se estabilizar e se descer

Fonte: Banco Central Europeu. À esquerda: Percentagem da poupança face ao rendimento disponível. À direita: Poupança em percentagem do PIB.

Porém, as economistas admitem que a incerteza atual abre a porta a mais cenários: um cenário de cut-back em que a poupança “acrescida” acumulada até ao segundo trimestre de 2021 irá cair em 70% nos próximos dois anos e maio; e um cenário de build-up que assume que a taxa de poupança vai descer para os níveis pré-pandemia apenas no quarto trimestre de 2023, o que significa que os agregados vão aumentar as suas poupanças “excessivas” em mais 30%. No primeiro cenário, as poupanças excessivas baixariam para 2,7% do PIB nas economias analisadas ao passo que aumentariam para 12,6% do PIB no segundo cenário, até ao final de 2023.

E que implicações têm estas duas trajetórias tão diferentes? No cenário de cut-back, a redução da poupança iria impulsionar o consumo privado e a inflação, levando o PIB a ficar 2,6% acima do nível do cenário central em 2022 e a inflação para 1% acima do nível do cenário central em 2023. Contudo, o efeito positivo seria parcialmente contrariado pelo maior nível de importações. O impacto mundial seria “significativo” com o nível do PIB a ficar 1,3% acima do cenário central em 2022.

No cenário de build-up, os consumidores continuam a acumular poupanças e, por isso, a recuperação do consumo privado será mais tímida, “atrasando a retoma”. Neste caso, o nível do PIB ficaria 0,7% aquém do cenário central em 2023. Apesar dos riscos descendentes que causam no curto prazo, este aumento das poupanças dos agregados “pode gerar ganhos de longo prazo”, notam as autoras, referindo que a diminuição do endividamento permite enfrentar choques futuros.

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