“O escritório continuará a ser o ‘centro’ da organização”, diz Miguel Stilwell

O CEO da EDP, nomeado para os IRGAwards da Deloitte, defende que é preciso criar condições para que as empresas cresçam "de pequenas para médias, de médias para grandes e de grandes para globais".

A pandemia veio revolucionar a forma como se trabalha na EDP, que vai manter-se depois da pandemia. Em resposta a questões por e-mail, o presidente executivo da elétrica, Miguel Stilwell, e um dos nomeados na categoria de melhor CEO na relação com os investidores da 33ª edição dos Investor Relations and Governance Awards (IRGAwards) da Deloitte, diz que a empresa vai testar um novo modelo híbrido de trabalho, permitindo que os colaboradores fiquem até dois dias por semana em modo remoto. Mas garante que “o escritório continuará a ser o “centro” da organização”.

Qual foi o maior desafio que a EDP teve de enfrentar no último ano e meio?

Para a EDP, o maior desafio foi seguramente a forma como gerimos a pandemia, por um lado, assegurando a segurança física e mental dos nossos colaboradores e, por outro, continuando a gerar, distribuir e comercializar energia, em Portugal e nas mais de 20 outras geografias onde operamos. Vivemos tempos disruptivos com alterações estruturais, como as transições digital e energética e a pandemia global veio, não só acelerar estas transformações, como trazer vários desafios que não estavam previstos, mas que estamos a conseguir superar juntos.

As novas abordagens ao trabalho eram já um tema relevante e estratégico para o grupo e, por isso, desde o início da pandemia e mesmo antes de o país entrar em estado de emergência, a EDP ativou um plano de contingência que colocou a saúde e a segurança das pessoas em primeiro lugar. Graças a esse plano, foi possível à EDP manter 72% dos colaboradores a nível mundial e 79% dos colaboradores em Portugal em regime de teletrabalho. A adaptação ao teletrabalho foi exigente e requereu, de todos, muita entrega, disciplina e flexibilidade, nomeadamente devido à rapidez com que tudo mudou. Apesar de alguns colaboradores já terem a prática de teletrabalho, o caráter obrigatório desta experiência de trabalho e os fatores de stress associados ao contexto, fruto do confinamento e do isolamento social, implicaram uma grande capacidade de adaptação, sem comprometer a produtividade.

Embora altamente desafiante, a EDP conseguiu superar este momento, também porque já vínhamos, por exemplo, a investir no digital e nas ferramentas digitais colaborativas por forma a promover estas novas formas de trabalhar, o que facilitou muito a transição para um cenário de teletrabalho generalizado. Tendo em conta o impacto que a crise pandémica teve nas vidas pessoais de todos, desenvolvemos, de forma mais acelerada, os programas de well-being da EDP, com foco na saúde mental e física dos nossos colaboradores, que continua e continuará a ser uma das nossas prioridades.

Mesmo face a esta situação atípica, as equipas mantiveram os seus esforços e níveis de performance, o que nos permitiu continuar a entregar energia nas geografias onde estamos presentes.

O que a pandemia e as adversidades deste período mudaram na EDP?

Durante este período de pandemia, tivemos a oportunidade de avaliar de forma concreta a experiência dos colaboradores em teletrabalho através de um questionário global, onde o engagement apresentou resultados notáveis ao nível da motivação intrínseca (90%) e do orgulho em pertencer à companhia (95%). Mais de 80% dos colaboradores afirmaram que as condições atuais de trabalho remoto lhes permitem ser tão produtivos quanto possível e a maioria (81%) afirmou estar a conseguir gerir o seu trabalho tão bem como num formato presencial.

Face a estes resultados e aos resultados do Grupo EDP no último ano e meio, consideramos que esta é uma oportunidade para a EDP e as empresas no geral discutirem a possibilidade de teletrabalho de forma efetiva, sabendo naturalmente que o escritório continuará a ser o “centro” da organização.

Num cenário pós-pandemia, iremos testar um novo modelo híbrido de trabalho, no qual será aplicado um sistema rotativo e flexível, permitindo aos colaboradores com funções compatíveis realizarem até dois dias por semana em trabalho remoto.

Miguel Stilwell

CEO da EDP

Neste sentido, num cenário pós-pandemia, iremos testar um novo modelo híbrido de trabalho, no qual será aplicado um sistema rotativo e flexível que conjugue o trabalho presencial e remoto, permitindo aos colaboradores com funções compatíveis realizarem até dois dias por semana em trabalho remoto.

Para além disso, na EDP queremos aproveitar todos os pontos positivos que a pandemia nos trouxe, como a importância da colaboração remota e global, da nova “ética” digital de pontualidade e eficiência nas reuniões ou dos processos digitais e mais ágeis que se podem refletir no modelo operativo da empresa. Pretendemos, ainda, dar continuidade aos diversos programas de saúde mental e física, programas de desenvolvimento e liderança, benefícios e outras iniciativas desenvolvidas no período de pandemia e que foram muito valorizadas por todos aqueles que fazem parte da EDP.

Por outro lado, num ambiente em constante mudança e que nos exige uma tomada de decisão cada vez mais rápida, é imprescindível que estejamos alinhados e ligados uns aos outros, motivo pelo qual na EDP estamos neste momento organizados em torno de um modelo de plataformas de negócio globais (Renováveis, Redes, Soluções para Clientes e Gestão da Energia), permitindo assim um maior alinhamento e colaboração entre todas as geografias e uma maior adaptação de todo o Grupo à realidade atual e ao nosso grande desafio de liderar a transição energética.

Qual foi a sua principal aprendizagem enquanto líder?

Assumi a liderança do Grupo EDP durante a pandemia. Foram tempos de adaptação, não só para mim, como para todos. Mesmo assim, as equipas continuaram a exceder-se e concretizámos feitos importantes. Além de termos implementado um novo ciclo de gestão do Grupo, apresentámos em fevereiro um novo Plano Estratégico para 2021-2025, com objetivos sem precedentes no campo da descarbonização. Realizámos dois aumentos de capital, em agosto de 2020 na EDP e março 2021 na EDPR, e continuámos com o nosso programa de rotação de ativos, que tem permitido à EDP reciclar capital e melhorar a rentabilidade dos projetos. Duplicámos a nossa presença na distribuição de eletricidade em Espanha, através da aquisição da Viesgo – a maior de sempre – e continuámos a entregar e alcançar os nossos objetivos, nomeadamente alguns que tínhamos definido já para 2022.

O último ano foi, sem dúvida, dinâmico, desafiante e principalmente de muita aprendizagem. Diria que o ensinamento mais importante se prende com a gestão de pessoas neste contexto conturbado, área a que continuaremos totalmente dedicados. Estou ciente que, sem as nossas pessoas, nada do que referi teria sido concretizado e, por isso, orgulho-me que a EDP tenha conseguido criar as condições ideais para que nossa equipa possa continuar a crescer do ponto de vista profissional e pessoal. Estamos comprometidos com cada colaborador que integra o Grupo e queremos continuar a ser uma referência de boas práticas na gestão de pessoas.

Um dos cinco pilares estratégicos denomina-se “Human-centered Experience” e reúne ambições relacionadas com o well-being, a flexibilidade, a diversidade, a inclusão e a responsabilidade social.

Miguel Stilwell

CEO da EDP

Por isto mesmo, no nosso mais recente plano estratégico de pessoas desenvolvido no âmbito do novo plano de negócios, um dos cinco pilares estratégicos denomina-se “Human-centered Experience” e reúne ambições relacionadas com o well-being, a flexibilidade, a diversidade, a inclusão e a responsabilidade social que as nossas pessoas gostam de ter junto das suas comunidades.

O tema da edição deste ano dos IRGAwards é o foco da gestão das empresas nas características humanas e sustentáveis. Concorda que a geração de retorno para os acionistas deve estar lado a lado com o retorno para a sociedade naquilo que é o propósito das empresas?

A sustentabilidade e os indicadores ESG (Environmental, Social, Governance) estão cada vez mais no centro de preocupações da comunidade de investidores e acionistas – e, na verdade, do mundo. Na EDP, somos defensores de longa data dos indicadores ESG e acreditamos no valor de uma estratégia de sustentabilidade integrada, como comprova o plano de negócios que apresentámos recentemente.

Acreditamos que a EDP irá desempenhar um papel fundamental na recuperação das economias onde operamos, bem como na criação de empregos tão necessários, garantindo não só uma transição justa, mas também com impacto positivo na sociedade e em todos os nossos stakeholders. Uma visão que está totalmente alinhada com os objetivos de retorno para os acionistas.

Estamos perante uma sociedade cada vez mais informada, capacitada e exigente e há cada vez mais uma necessidade de transparência e reporte de métricas transversais a toda a empresa. A EDP tem ido sempre além daquilo que é exigido, com um compromisso sério em relação às suas responsabilidades na relação com todos os stakeholders, sejam eles os trabalhadores, a comunidade ou os acionistas.

Se tivesse que eleger a principal transformação realizada pela EDP nos últimos anos, qual seria e porquê?

A EDP foi capaz de se antecipar à transformação a que agora assistimos no setor, traçando um ambicioso caminho ao longo da última década que permitiu ao grupo assumir-se hoje como líder na transição energética. Fruto desta ambição, a EDP está hoje presente em 22 países, é o quarto maior produtor de energia eólica do mundo e 74% da energia que produz é renovável.

O plano de negócios apresentado ao mercado este ano dá um novo impulso a este compromisso, ao prever um investimento de 24 mil milhões de euros na transição energética até 2025 e um aumento de 65% na capacidade renovável instalada. Para o cumprir, precisamos de uma equipa forte e ágil e, por isso, o número de colaboradores dedicados a áreas de inovação duplicará e mais de 90% das pessoas foram incluídas em programas de desenvolvimento digital.

É urgente treinarmos as nossas equipas, investir e incluir todas as linhas empresariais num novo ecossistema livre de CO2.

Miguel Stilwell

CEO da EDP

A EDP tem estado, e continua, na linha da frente no combate às alterações climáticas, comprometida em ser livre de carvão até 2025 e neutra em carbono até 2030. Só a ação imediata pode ajudar a mudar, a tempo, o destino das gerações futuras. É urgente treinarmos as nossas equipas, investir e incluir todas as linhas empresariais num novo ecossistema livre de CO2.

A responsabilidade da EDP consiste em fornecer as ferramentas para que a sociedade possa optar por um estilo de vida sustentável.  Cabe a cada um de nós – cidadãos e empresas – fazer todos os dias a diferença. Só assim poderemos começar já hoje a mudar o dia de amanhã.

E qual a maior transformação que gostaria de ver Portugal fazer?

Considero que esta é uma oportunidade única de crescimento, no sentido de promover o emprego, a inovação e o desenvolvimento socioeconómico nos nossos países. Portugal tem de ter a ambição de convergir e até superar a média europeia em termos de prosperidade per capita. Para isso, o país precisa de ser mais produtivo e competitivo face aos outros países e criar condições para as empresas investirem e criarem emprego. E para que essas mesmas empresas possam ir mais longe, crescendo de pequenas para médias, de médias para grandes e de grandes para globais.

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