Gráfica lisboeta dá OK à impressão online com engenharia de Coimbra

A centenária Jorge Fernandes recrutou a tecnológica The Loop para entrar no negócio da impressão online e levá-lo para Espanha e França com a marca Ok-Print, que até 2025 pode valer metade das vendas.

Foi no Bairro Alto, em pleno centro de Lisboa, que Jorge Fernandes abriu em 1890 uma pequena tipografia, que depois da sua morte passou para as mãos do filho Jacinto e que um neto acabaria por herdar e desenvolver até que, num momento de “menor estabilidade” do ofício, vendeu o negócio a Fernando Marques. Volvidos 132 anos desde a fundação, a histórica gráfica que continua nas mãos da família Marques – Fernando e Ana já dividiram as quotas com os filhos Miguel e Pedro – está agora a entrar no negócio da impressão online, aproveitando a plataforma tecnológica da portuguesa The Loop, através da criação da marca Ok-Print.

Instalada atualmente na Charneca da Caparica, onde soma cerca de 3.000 metros quadrados de área de produção, a Jorge Fernandes produz material gráfico impresso, como revistas, livros, brochuras ou folhetos, reclamando um lugar no ranking das cinco maiores gráficas do país de máquinas planas (exclui as rotativas, que imprimem os jornais). O Lidl, a Meo ou o banco Santander Totta são alguns dos clientes mais conhecidos, embora também trabalhe com empresas, formatos e tiragens de menor dimensão. E, desde há sete anos, também com duas plataformas online dedicadas à impressão no mercado nacional e europeu.

É o caso da portuguesa 360Imprimir e da holandesa Helloprint, que entregam parte da produção dos materiais que lhe são encomendados por via digital a esta indústria centenária do concelho de Almada. Ora, como relata ao ECO o gestor deste projeto, Ivo Gonçalves, a Ok-Print surge da experiência adquirida ao longo dos últimos anos a trabalhar para essas plataformas e foi acelerada também pela pandemia de Covid-19. “Caíram as vendas para todos os clientes [online e offline] e então foi decidido reprogramar os fundos para esta área, para tentar trabalhar diretamente com o cliente final e subir as margens de negócio”.

Direcionada sobretudo para o cliente final, seja particular ou empresarial, a Ok-Print tem debaixo de olho as micro e pequenas empresas que até agora tinham mais dificuldade em ter volume para produzir na indústria gráfica. “Queremos atingir essa área. Quem recorre à indústria gráfica normalmente tem um volume de impressão muito grande e o trabalho é sempre dedicado. Numa plataforma agregamos vários trabalhos para criar esse volume e reduzir o desperdício, dando assim um maior valor ao consumidor final”, sublinha o gestor, que foi recrutado para o lançamento deste projeto, que já tem três pessoas dedicadas a tempo inteiro.

Ivo Gonçalves, project manager da OK-Print

Apesar do lançamento da sua própria marca de impressão online — aconteceu em dezembro do ano passado, depois de um mês em soft launch –, a empresa vai continuar a produzir para as outras duas insígnias clientes, que não encara como concorrentes. Ivo Gonçalves argumenta que, apesar de ter começado na área gráfica, a 360Imprimir tem uma oferta mais alargada e “basicamente é uma empresa tecnológica e de marketing”. Já a Helloprint, que tem sede na Holanda e vários fornecedores na Europa central, para quem produz os artigos direcionados ao mercado ibérico, “não é um verdadeiro concorrente porque tem uma dimensão muito maior”.

Gostávamos que no primeiro ano esta área rondasse já 10% a 15% do volume de negócios da empresa, crescendo até aos 50% em quatro ou cinco anos.

Ivo Gonçalves

Project manager da OK-Print

A diferenciação, por outro lado, é até mais fácil de explicar: “esta será sempre uma plataforma de produtos gráficos com produção própria”. É por isso que, após começar pelo mercado doméstico e ter começado a abrir o mercado espanhol no início deste ano, a Jorge Fernandes planeia chegar igualmente a França até ao final do primeiro trimestre, apostando assim em geografias próximas. O responsável sublinha que “as perspetivas são boas porque [vai] alcançar um público de muitos milhões de pessoas nestes três países”.

A empresa gráfica fechou 2021 com uma faturação a rondar os cinco milhões de euros e a administração gostava que esta nova área valesse já 10% a 15% das receitas no final do primeiro ano completo de atividade, crescendo “até aos 50% em quatro ou cinco anos”. O investimento direto, sem contar com os recursos humanos, rondará os 30 mil euros por ano e, a prazo, o online printing pode ser decisivo para a sustentabilidade desta empresa centenária, que corria o risco de ficar para trás. “Tínhamos de nos habituar a esta nova realidade e estar onde grande parte das compras estão, que é no comércio eletrónico”, completa Ivo Gonçalves.

Software para integrar encomendas na fábrica

Neste projeto de digitalização que já oferece mais de um milhão de combinações de produtos, a Jorge Fernandes, que emprega 40 pessoas, teve como parceiro a The Loop. A jovem empresa de Coimbra desenvolveu toda a infraestrutura tecnológica que permite aos clientes consultar, interagir e submeter os documentos, fazer os pagamentos, receber as faturas ou gerir a área pessoal; e que inclui também as ferramentas de backoffice para que a gráfica consiga integrar estas encomendas via Internet no processo de fabrico e acelerar os prazos de entrega aos clientes, sem “chocar” com o restante trabalho.

O sócio da empresa de Coimbra, Ricardo Morgado, explica ao ECO que o online printing já tinha sido “identificado há algum tempo como uma área em crescimento”. Antes mesmo de, há cerca de um ano, ter conhecido a Jorge Fernandes, que, por sua vez, estava à procura de um parceiro para digitalizar parte do negócio. “Percebemos que havia ali uma oportunidade de uma empresa de grande dimensão e já consolidada no mercado ter a sua própria solução. Tendo produção própria consegue ter outra escala e ser competitiva em termos de preço, de flexibilidade e de qualidade”, acrescenta.

Tendo produção própria, a gráfica consegue ter outra escala e ser competitiva em termos de preço, de flexibilidade e de qualidade.

Ricardo Morgado

Cofundador da The Loop

A empresa da zona Centro que emprega mais de uma centena de pessoas e faturou 3,7 milhões de euros em 2021 tem origem na Book in Loop, uma plataforma de reutilização de manuais escolares criada por João Bernardo Parreira e Manuel Tovar depois de terminarem o ensino secundário. O sucesso deste projeto levou em 2019 ao lançamento da BabyLoop, que faz o mesmo com produtos de puericultura. Com a junção de Ricardo Morgado e de João Rodrigues, a marca foi refundada como The Loop, assumindo-se agora como uma tecnológica portuguesa focada em modelos de negócio de economia circular e que também presta serviços de tecnologia.

Ricardo Morgado, cofundador da The Loop

É nesta última área de atividade que se insere o nascimento da Ok-Print, com o gestor responsável pelos negócios de economia circular e sustentabilidade a relatar que “o projeto continua e vai avançar para uma segunda fase, para aumentar um pouco o alcance, o que implica tornar ainda mais automáticos os processos” com a parte industrial. Outros exemplos são a colaboração com a plataforma de bilhetes para espetáculos Ticketline, com a área de retalho do grupo Sonae ou com a Cruz Vermelha e as Farmácias Portuguesas, para quem desenvolveu recentemente uma solução para o agendamento de testes Covid-19 e a respetiva comunicação dos resultados aos clientes.

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