Do Airbnb aos voos fretados, portugueses ajudam ucranianos

Crescem as missões humanitárias e as ajudas mais inusitadas como fretar um avião ou reservar quartos via Airbnb para fazer chegar dinheiro aos ucranianos.

Desde iniciativas humanitárias para levar medicamentos, alimentos, vestuário e produtos de higiene aos ucranianos ou resgatar refugiados com avião fretado até ações concertadas para garantir o acolhimento em Portugal são muitas as iniciativas para ajudar o povo ucraniano em guerra. Câmaras municipais, instituições, associações ou grupos de cidadãos têm-se mobilizado para ajudar desde que as sirenes se fizeram soar na Ucrânia. Nem que seja de forma mais inusitada ao marcar noites de estadia nos Airbnb da Ucrânia, informando depois os seus anfitriões que não se vai viajar para o país. O dinheiro das reservas visa ajudar financeiramente os ucranianos.

A Galp, por exemplo, já reservou 6,5 milhões de euros para apoios e anunciou que assume o custo do combustível dos voos humanitários que transportam refugiados ucranianos para Portugal. A empresa “está em contacto com o Governo português, Embaixada da Ucrânia e município de Cascais que estão a organizar voos de transporte de refugiados de países vizinhos da Ucrânia para Portugal”. Também garante o fornecimento de combustível para apoiar a deslocação de camiões que viajam até à fronteira com a Ucrânia.

Uma das ações da empresa passa pela doação de 2,5 milhões à Cruz Vermelha, sendo “este montante repartido por apoios na linha da frente e por apoio às operações da Cruz Vermelha na Península Ibérica, em alinhamento com o Comité Internacional e a Federação Internacional da Cruz Vermelha”, afirma a Galp.

Depois de suspendermos a compra de produtos petrolíferos à Rússia, estamos agora a materializar a nossa solidariedade com o povo ucraniano através de ações que ajudem a trazer o conforto possível aos refugiados neste momento tão difícil”, afirmou Andy Brown, CEO da Galp. Outra das medidas passa pelo apoio nos centros de acolhimento com a doação de kits personalizados de boas-vindas aos refugiados, além da aquisição de bens alimentares e de outros produtos considerados de primeira necessidade para os ucranianos que estão a ser acolhidos nos centros.

"Depois de suspendermos a compra de produtos petrolíferos à Rússia, estamos agora a materializar a nossa solidariedade com o povo ucraniano através de ações que ajudem a trazer o conforto possível aos refugiados neste momento tão difícil. ”

Andy Brown, CEO da Galp

Já a autarquia de Cascais, liderada pelo social-democrata Carlos Carreiras, fretou um avião para resgatar 200 refugiados ucranianos na fronteira da Roménia coma Ucrânia, tendo um centro de acolhimento disponível para os acolher. “Não é apenas a Ucrânia que está a ser atacada. São os nossos valores, a nossa liberdade, a nossa democracia”, nota o autarca Carlos Carreiras, num comunicado enviado aos órgãos de comunicação social. O vice-presidente Miguel Pinto Luz está organizar a viagem de resgate, na zona de Bucareste, com uma equipa médica.

De norte a sul do país multiplicam-se, assim, as ajudas, como é por exemplo o caso da TAP que disponibilizou “lugares em voos de e para Varsóvia” e “o transporte de carga, incluindo material médico, alimentos e outros bens de ajuda humanitária”, no âmbito da iniciativa “Abraço à Ucrânia”. As organizações têm de se candidatar, preenchendo um formulário online. A companhia aérea está a trabalhar “em estreita colaboração com o Ministério dos Negócios Estrangeiros”. A partir do próximo dia 14 deste mês, os passageiros da TAP podem doar milhas para ajudar os ucranianos.

Outra iniciativa partiu da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC) que enviou para a fronteira da Polónia com a Ucrânia 5.000 rações alimentares, 204 mil unidades de medicamentos de uso hospitalar e de ambulatório – antibióticos, analgésicos e soros para hidratação – e ainda 416 mil seringas e agulhas, entre outros produtos para alojamento temporário de emergência. Estes itens são doados por Portugal à Ucrânia ao abrigo do Mecanismo Europeu de Proteção Civil e seguiram por via terrestre juntamente com mil cobertores, igual número de fronhas e 850 lençóis, assim como 500 kits de higiene para serem entregues na fronteira da Polónia com a Ucrânia.

Portugal disponibilizou ainda 603 camas em unidades hospitalares do Serviço Nacional de Saúde (SNS) para doentes emergentes que não podem ser tratados nos hospitais ucranianos.

CIMDOURO quer acolher 100 refugiados

Também já seguiram dois autocarros do Douro para Varsóvia, na Polónia, para resgatar 100 refugiados ucranianos para os concelhos da região, numa iniciativa conjunta com a Secretaria de Estado das Migrações, anunciou ao ECO a Comunidade Intermunicipal do Douro (CIMDOURO). Os 19 municípios que integram a CIMDOURO asseguram “estar devidamente preparados para os acolher e integrar nos territórios, estando já a ser criada uma rede de apoio dos gabinetes de ação social regional que garanta a receção e todas as condições para o correto acompanhamento às mães e crianças que fogem desta guerra que assola a Ucrânia”.

Os municípios também angariaram bens essenciais, alimentos, medicamentos e roupas para serem levados até à fronteira da Ucrânia na próxima semana, em coordenação com o Consulado da Ucrânia no Porto.

Já o Governo português lançou uma nova plataforma Portugal for Ukraine, disponível no endereço PortugalforUkraine.gov.pt. Aqui reúne “todas as respostas e ações em curso, tendo em vista o apoio a pessoas deslocadas da Ucrânia, dentro e fora de Portugal nas dimensões de ação internacional, do envio de apoio humanitário e da integração e acolhimento em Portugal”, anunciou o Gabinete da ministra de Estado e da Presidência. Nesta plataforma é possível consultar as várias iniciativas das diferentes áreas governativas com responsabilidade ao nível de acolhimento e integração.

“Tenho alojamento/habitação (município, empresa ou cidadão individual) e quero disponibilizar aos cidadãos acolhidos no âmbito desta emergência. Quem devo contactar?” ou “Quero ser voluntário e apoiar nesta operação, manifestando a minha disponibilidade, como procedo?” são algumas das perguntas que são respondidas nesta plataforma.

Entretanto, o Governo simplificou os requisitos para a obtenção de proteção temporária de um ano, prorrogável por dois períodos de seis meses, para pessoas deslocadas da Ucrânia por causa da guerra. Estes cidadãos têm, assim, acesso imediato aos números fiscal, de Segurança Social e do SNS para uma melhor integração no país.

Centro de acolhimento para refugiados em Lisboa

Também a Câmara Municipal de Lisboa, liderada pelo autarca Carlos Moedas, está a encetar um plano de apoio, nomeadamente com a abertura de um centro de acolhimento para refugiados – em articulação com a Embaixada da Ucrânia -, disponibilizando 100 camas montadas no pavilhão da Polícia Municipal de Lisboa. Este local é coordenado pela Proteção Civil Municipal – em articulação com a embaixada da Ucrânia – e conta com o apoio da Cruz Vermelha Portuguesa, do Alto Comissariado para as Migrações, da Junta de Freguesia de Campolide e das autoridades de saúde.

Ainda com o mesmo objetivo de integrar os refugiados ucranianos em Lisboa, o município aprovou, em reunião do executivo, a criação de um Programa Municipal de Emergência, o “Vsi Tut – Todos Aqui”.

As câmaras de Matosinhos, Porto e Vila Nova de Gaia também uniram esforços para encetar uma resposta humanitária com a campanha “Somos todos Ucrânia”. Os municípios da Frente Atlântica do Porto pretendem, assim, recolher alimentos – que foram pedidos pelo Consulado da Ucrânia no Porto e que serão entregues na fronteira com a Polónia -, facilitar o acesso a alojamentos e oportunidades de emprego. Foi ainda criado o portal www.somostodosucrania.pt e uma linha de apoio 222 090 420. Do Porto já seguiu, por isso, um camião para a fronteira da Polónia com a Ucrânia com uma dezena de toneladas de roupa, alimentos, medicamentos, cadeiras de rodas e outros bens essenciais.

A cidade de Braga, por sua vez, já acolheu cerca de 30 refugiados e transportou para a Polónia 48 toneladas de medicamentos, comida e roupa, numa iniciativa conjunta do município com outras entidades. De Guimarães também seguiu ajuda humanitária, no âmbito de uma campanha da autarquia vimaranense que ainda prevê resgatar 14 refugiados. De Vila Nova de Famalicão partiu uma caravana humanitária em direção à fronteira da Ucrânia com a Polónia. E de Vizela seguiu um hospital de campanha para prestar assistência.

Já os camarotes do Estádio de Leiria transformaram-se, desde segunda-feira, na casa de algumas famílias ucranianas que entretanto chegaram fugidas da guerra.

A Cáritas Portuguesa, com o apoio da Conferência Episcopal Portuguesa, juntou-se a esta onda de solidariedade e lançou uma campanha para angariar fundos “para reforçar a capacidade de resposta da Cáritas na Ucrânia, nos países fronteiriços e o eventual acolhimento a famílias deslocadas em Portugal”, lê-se no site da instituição. Também a Cruz Vermelha Portuguesa, a Unicef Portugal, Save the Children e Médicos sem Fronteiras criaram mecanismos para fazer donativos para ajudar a população na Ucrânia.

Do grupo IZIDORO/Montalva seguem 22 toneladas de alimentos e duas toneladas de roupa que foi recolhida pelos colaboradores da empresa em conjunto com a Associação de Ucranianos em Portugal. “É impossível ficar indiferente à coragem e ao sofrimento do povo ucraniano. A onda de solidariedade internacional tem sido enorme e o nosso grupo não podia deixar de participar”, afirma Luís Rodrigues, CEO do Grupo IZIDORO/Montalva.

Crescem ainda, a olhos vistos, grupos de apoio nas redes sociais com mensagens de oferta de norte a sul do país.

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