Indústria portuguesa dá corda aos sapatos para “salvar o Inverno”

Guerra na Ucrânia não sai da cabeça, mas empresários do calçado já procuram alternativas ao mercado russo, à falta de trabalhadores e soluções para acomodar a subida dos preços da energia e materiais.

José Moura deixou Moscovo no dia em que Rússia invadiu a Ucrânia. O responsável comercial da Calsuave, uma fábrica de Guimarães fundada há quase três décadas e que emprega 200 pessoas, chegou a Portugal com “perspetivas ótimas” depois de ter estado reunido com o distribuidor russo e com um cliente de vendas diretas, que comercializa este calçado de conforto para senhora através da internet e de televendas.

“Esse cliente diz-nos que continua a vender. Ainda não estão suspensas as encomendas que tínhamos para começar a fabricar para lá, mas é preciso encontrar canais [adequados] para os pagamentos e para o transporte. Sei que está mercadoria a entrar por camião via Estónia e por um porto na Finlândia”, relata o gestor da empresa minhota, que há poucos anos chegou a ostentar o título de maior exportadora de calçado português para a Rússia, com 200 mil pares por ano que equivaliam a 15% da produção total.

José Moura, responsável comercial da CalsuaveJoão Saramago / APICCAPS

Com vendas de sete milhões de euros em 2021, quase metade do valor que tinha antes da pandemia de Covid-19, a Calsuave é uma das 35 empresas portuguesas presentes na Micam, que arrancou este domingo em Milão (Itália). Procura mercados alternativos e, tal como as outras presentes na maior feira de calçado do mundo, teme os efeitos diretos e indiretos da guerra na Ucrânia. Por outro lado, admite que os refugiados podem ajudar a resolver a falta de mão-de-obra que já atrasou duas semanas a saída da coleção de verão. “Já temos brasileiros ou cubanos connosco, mas os ucranianos têm outro afinco no trabalho e adaptam-se mais facilmente”, descreve José Moura.

Ainda não estão suspensas as encomendas que tínhamos para começar a fabricar para lá, mas é preciso encontrar canais [adequados] para os pagamentos e para o transporte.

José Moura

Responsável comercial da Calsuave

No caso da Last Studio, o maior receio é que “grande percentagem” das peles usadas pelo seu principal fornecedor espanhol têm origem na Rússia. “Isso assusta-nos. Já estamos a sentir alguns atrasos, mas ele diz-nos que dois dias antes de começar a guerra tinham saído de lá vários camiões com muitas toneladas de pele. Mas é uma questão de tempo até sentirmos o efeito. Vamos ver se conseguimos salvar o inverno. Temos de arranjar soluções porque elas existem. Provavelmente com preços mais caros, mas existem”, desabafa Luísa Moreira.

Esta companhia de trading detida por uma empresa dinamarquesa produz todo o calçado que vende na Escandinávia, no Reino Unido e nos EUA em fábricas subcontratadas em Felgueiras e em São João da Madeira. Em declarações ao ECO, a designer da Last Studio conta que ‘o Made in Portugal’ é valorizado pela indústria, até porque “são completamente diferentes os tempos de entrega entre comprar em Portugal e na China [porque] o fast fashion existe e quase todos os meses as marcas têm de introduzir produtos novos” no mercado.

Em Santa Maria da Feira, outro polo relevante para a indústria do calçado, a Kayak Storm começou há duas décadas a produzir sapatos de vela, que ainda hoje são o artigo mais relevante no negócio de cinco milhões de euros anuais, que vendem para a Europa, Coreia do Sul, Japão, África do Sul e Norte de África. Outros segmentos por que são conhecidos são os tamanhos grandes (a partir do 46) nos sapatos em pele para homem, em que tem clientes fiéis nos países nórdicos com “pessoas altas e pés grandes” ou a coleção vegan, que criou há oito anos e que é atrativa sobretudo na Alemanha e França. Representa já 20% da faturação — “já não é propriamente um nicho”, ressalva Pedro Lima — e é feita essencialmente com produtos reciclados, quase não usando matéria-prima nova.

Subida dos custos dos materiais é uma dor de cabeça? É e não é, porque transmitimos aos nossos clientes. Ponto final. Ou percebem isso ou não têm sapatos. Não temos alternativa.

Pedro Lima

Gestor da Kayak Storm

Assegurando 50 postos de trabalho, o gestor relata que está “confortável” em termos de encomendas e que “o mais complicado” tem sido “conseguir pôr o produto nas mãos dos clientes” por causa do absentismo provocado pela Covid-19. Chegou a ter 40% do pessoal infetado ou em isolamento profilático e isso atrasou as encomendas, tal como os atrasos no fornecimento de alguns componentes, como as solas, cujos prazos passaram de um para cinco meses.

E se a energia não é um problema — está a pagar menos pela eletricidade do que no ano passado, depois de ter feito um “investimento grande” em painéis solares em julho de 2021 –, a subida do custo dos materiais é uma dor de cabeça. “É e não é, porque transmitimos [o aumento do preço] aos nossos clientes. Ponto final. Ou percebem isso ou não têm sapatos. Não temos alternativa. Todos os meus componentes crescem 20%, os salários mínimo e acima do mínimo têm tido aumentos consideráveis, podemos ter uma pequena almofada, mas a empresa tem de dar lucro”, corrige Pedro Lima.

José Alberto Silva (Tatuaggi) recebeu a visita do secretário de Estado da Economia, João Neves, no stand da empresa na Micam.João Saramago / APICCAPS

“Não se consegue contornar o custo da energia e das matérias-primas. É preciso equilíbrio e um esforço bem feito [na negociação dos preços] porque o consumidor final é que decide. O nivelamento do mercado vai ser feito pelo próprio consumidor. A discussão tem de ser feita desde os fornecedores das matérias-primas e temos de ser muito razoáveis, mas os mercados não se regulam com sensibilidade”, corroborou o presidente da Tatuaggi.

Em conversa com o secretário de Estado da Economia, que esteve em Milão a visitar os empresários nacionais e admitiu repetir o lay-off devido à energia, José Alberto Silva explicou que os bons indicadores no final do ano passado e no arranque deste ano já eram esperados, uma vez que, na sequência da paragem provocada pela pandemia, sabia que “os armazenistas não se tinham abastecido antes”. E a guerra na Ucrânia? “Se houver uma paragem ninguém sobrevive. É uma questão de motivação e racional também. Ou se caminha ou se morre. Não há outra opção”, respondeu o líder desta exportadora especializada em calçado de senhora, que emprega 110 pessoas e fatura perto de seis milhões de euros.

Voltar a voar

Fundada em 2009 em Oliveira de Azeméis, a Cool Gray destaca-se pelo calçado de conforto, exporta 98% da produção e trabalha 70% em regime de private label. Muito exposto ao setor dos transportes, em que tem como clientes companhias de cruzeiros e também de aviação, como a Air France e a Austrian Airlines, “sofreu bastante” com a pandemia. Mas já começou a recuperar. Tem “perspetivas de crescimento de 20%, pelo menos” e nesta fase lamenta apenas a falta de previsibilidade.

“Os negócios dão-se mal com a volatilidade. Recebemos e-mails de fornecedores com aumentos de matérias-primas, nos transportes, temos uma guerra que não sabemos como vai terminar. Tudo isto tem uma carga negativa e quando se tomam decisões a médio prazo, a três anos, como os nossos clientes, há alguma retração. Aconteceu na pandemia, mas espero e acredito sinceramente que isso não aconteça agora”, sustenta Pedro Alves.

Pedro Alves, administrador da Cool Gray, que detém as marcas Aerobics, Bella B. e Uniform ShoesJoão Saramago / APICCAPS

O administrador da empresa nortenha, que tem as marcas próprias Aerobics, Bella B. e Uniform Shoes, aproveitou o ano passado para fazer uma “reestruturação industrial no chão de fábrica”, com a renovação de maquinaria, e investiu também nos canais comerciais para dar logística e plataformas de e-commerce a essas marcas, chegando diretamente ao consumidor final. O regresso à Micam, que já era um hábito, mantém-se uma necessidade depois da pandemia que limitou estes eventos. “Nos nossos produtos de conforto é preciso mexer, ver as cores. O digital é interessante, mas não faz tudo”, completa.

Quando se tomam decisões a médio prazo, a três anos, como os nossos clientes, há alguma retração. Aconteceu na pandemia, mas espero e acredito sinceramente que isso não aconteça agora.

Pedro Alves

Administrador da Cool Gray

O regresso às feiras presenciais é saudado por todos os empresários. Pedro Ferreira, sócio-gerente da Ibershoes que já vem a Milão há mais de 15 anos, admite receios pela conjuntura atual, mas anda pelo stand entusiasmado com os clientes irlandeses, italianos e estónios que foram os primeiros a chegar à Micam. Uma das novidades é a coleção com a marca Creator que está a apostar no “importantíssimo” tema da sustentabilidade, que utiliza solas de materiais reciclados e obrigou a ajustar materiais e processos de produção, A médio prazo assume que “poderá significar 20% das vendas”.

A empresa comercial com 15 trabalhadores, que trabalha com quatro fábricas — duas delas em exclusividade — e 80% para as marcas dos clientes, apenas de senhora, fez 8% das vendas de 2021 (totais de 22 milhões de euros) no mercado russo, onde tem clientes há década e meia. “É mais um volte face”, desabafa o empresário, descrevendo que “o trabalho para a Rússia está parado e o mercado fechado porque era um risco enorme” vender para lá. E os mercados bálticos, como a Lituânia e a Estónia, que “podiam ser uma alternativa, finaliza, também vão ser afetados.

(O jornalista viajou para Itália a convite da APICCAPS)

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