Prestação da casa dá maior salto em dois anos com impacto da guerra

Combustíveis e alimentação estão mais caros por causa da guerra. A casa também vai ficar. Prestação ao banco vai dar maior salto em dois anos em abril com subida das taxas Euribor.

Os portugueses já estão a pagar mais pelos combustíveis, gás, luz e alimentação por causa da guerra, e preparam-se agora para ver a prestação da casa aumentar já no próximo mês. Os encargos mensais com o empréstimo à habitação vão dar o maior salto em dois anos para quem tem contrato associado à Euribor a três e a seis meses e cuja taxa seja revista em abril.

A subida da prestação da casa vem colocar as famílias sob maior pressão, pois já têm de lidar com a subida em flecha dos preços dos bens e serviços que consomem no dia-a-dia, em grande medida causada pelo ataque da Rússia ao país vizinho iniciado há mais de um mês.

Para travar o descontrolo da inflação por conta do conflito, o Banco Central Europeu (BCE) acabou de anunciar uma abordagem mais agressiva no aperto das condições financeiras nos próximos meses. Como consequência das decisões que o BCE tomou ainda há três semanas, e também dos sinais que deu aos agentes económicos, as taxas interbancárias na Zona Euro, também conhecidas como Euribor, têm vindo a acelerar, o que vai ter impacto direto no bolso das famílias no próximo mês por via da prestação do empréstimo da casa.

“As expectativas alteraram-se sobretudo a partir da reunião do comité de política monetária de 10 de março, quando a autoridade se mostrou mais agressiva que o esperado, no sentido de uma normalização mais rápida da política monetária. A guerra na Ucrânia teve impacto nesta alteração dado o seu efeito nos preços da energia, em concreto no petróleo e no gás, intensificando pressões de inflação que já se faziam sentir antes”, explica a economista-chefe do BPI, Paula Carvalho, em declarações ao ECO.

Neste cenário, completa o presidente do IMF – Informação de Mercados Financeiros, Filipe Garcia, “a subida das Euribor reflete a expectativa de subida dos juros de referência do BCE (taxa de depósito e ‘refi’), descontando-se que a Euribor a três meses fique positiva em setembro/outubro, a de seis meses em agosto e a de 12 meses talvez já no final de maio”.

Euribor aceleram em março

Fonte: Reuters (média mensal)

Qual será o impacto?

Considerando o cenário de um empréstimo no valor de 150 mil euros, por um prazo de 30 anos, e com um spread de 1%, as famílias com créditos associados à Euribor a seis meses (o indexante mais comum) vão ver a prestação subir mais de 1%, no maior aumento desde junho. Contas feitas, a prestação aumentará quase seis euros, colocando o valor da mensalidade ao banco nos 453,41 euros nos próximos seis meses.

Num mesmo cenário, mas no caso dos contratos indexados à Euribor a três meses, o agravamento rondará os 1,2%, na maior subida desde maio de 2020 que será traduzida num aumento de mais de mais de cinco euros na prestação: o encargo mensal passará para 448,78 euros, o valor mais elevado desde setembro de 2020.

Perto de três quartos dos contratos de empréstimo para a compra de casa estão associados a estes dois indexantes.

Em relação aos empréstimos associados à Euribor a 12 meses — o indexante que tem dominado os financiamentos para a compra de habitação nos últimos anos –, a subida será maior: a prestação sobe quase 16 euros (aumento de 3,6%) para 464,75 euros ao longo do próximo, um máximo desde julho de 2020.

Supervisor e bancos alertam famílias

O aumento das prestações resulta diretamente da subida das taxas interbancárias na Zona Euro durante o mês de março, para máximos desde o verão de 2020. Há dois anos as Euribor subiram acentuadamente por causa da incerteza relacionada com a pandemia, mas foi um fenómeno passageiro e as taxas corrigiram, entretanto, chegando a atingir mínimos históricos ainda em dezembro.

Agora, com apertar do cinto do BCE, tudo aponta para que estas subidas sejam sustentadas, mesmo com a ameaça de um cenário de estagflação a pairar sobre as economias e os bancos centrais. “Perante a escolha entre tentar controlar a inflação ou estimular a economia, os bancos centrais parecem estar a preferir o combate à inflação”, assinala Filipe Garcia. “Em todo o caso, será sempre uma questão de grau. Ou seja, se a economia desacelerar mesmo muito, o BCE provavelmente terá de rever as suas escolhas”, observa o economista.

Para as famílias, isto significa vão ter de se preparar para a subida da prestação da casa nos próximos tempos, tal como o governador do Banco de Portugal e o presidente da Associação Portuguesa de Bancos já alertaram recentemente.

“Espero que as pessoas que contraíram crédito à habitação, e as empresas, nos seus cálculos, tenham acomodado a expectativa de que mais cedo ou mais tarde as taxas iriam subir”, disse Vítor Bento em entrevista ao Jornal de Negócios. “Também é verdade que o nível de taxas de juro não tem nenhuma comparação com os níveis que enfrentávamos há cinco, seis, sete anos”, desdramatizou Mário Centeno em entrevista ao Observador.

Paula Carvalho diz que estas declarações são “compreensíveis à luz da previsível evolução da conjuntura monetária”.

Para Filipe Garcia, são avisos “tempestivos e adequados porque foram muitos anos de taxas de juro muito baixas e até negativas”. “Há uma certa habituação dos devedores a que os juros não sejam um grande problema. Perante tantas alterações em muitas famílias, decorrentes da pandemia, é importante que cada um avalie se está em condições de se deparar com juros mais altos e, caso não esteja, o que poderá fazer para mitigar esse efeito”, recomenda.

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