Guerra e exportações fazem subir preço do borrego na Páscoa

  • Lusa
  • 13 Abril 2022

Nem o aumento do preço da carne, devido aos custos mais elevados com a guerra na Ucrânia e às exportações, fez diminuir a procura por borrego, "a lagosta da carne", dizem produtores.

A tradição “à mesa” na Páscoa passa pelo consumo de borrego e nem o aumento do preço da carne, devido às exportações e aos efeitos da guerra na Ucrânia, diminuiu a procura, segundo representantes do setor no Alentejo.

Na Herdade de Ladrões e Cardiga, em Fronteira, no distrito de Portalegre, o produtor pecuário Pedro Mendes de Almeida explica à Lusa que o preço dos borregos tem vindo a atingir valores significativos, sobretudo devido à exportação destes animais para Israel.

Para o produtor, que tem cerca de mil ovinos em mais de 500 hectares, a exportação tem provocado o aumento da procura, mesmo que a oferta a nível nacional possa diminuir em algumas alturas, pelo que estas vendas “ajudam” ao preço que tem vindo a ser praticado nos últimos tempos.

“O período mais alto [de vendas] continua a verificar-se até ao Natal e, depois, há um ligeiro decréscimo, mas não é muito acentuado. Ultimamente, tem havido mais homogeneidade no valor de comercialização dos borregos ao longo do ano”, observa.

Até à data, a guerra na Ucrânia ainda não influenciou a atividade deste produtor pecuário, mas situação diferente relata à Lusa a coordenadora do Agrupamento de Produtores Pecuários do Norte Alentejano – Natur-al-Carnes, Maria Vacas de Carvalho.

Este agrupamento está a pagar, nesta altura, “acima dos sete euros o preço da carne [de borrego morto]”, enquanto o “consumo se mantém idêntico” aos de anos anteriores, diz. Face à Páscoa do ano passado, “temos uma diferença de mais 50 cêntimos. No ano passado, estávamos a comprar à volta dos 6,70 euros o quilo [de carne] e, nesta altura, já estamos acima dos sete”, precisa.

Para a responsável, que coordena este agrupamento com cerca de 400 acionistas e que vende cerca 10.000 borregos por ano, a guerra na Ucrânia está a ter “muita influência” no preço destes animais, pois, o conflito levou a uma escalada dos preços dos transportes.

“O borrego é produzido no interior do país, sobretudo no Alentejo, e temos sempre de transportá-lo, quer seja vivo, quer seja para os matadouros” para ser abatido, “e o preço é sobretudo devido ao transporte”, cujo aumento “fez com que os preços disparassem”, sustenta.

Como exemplo, antes da guerra, o frete das transportadoras desde o matadouro situado em Tomar (Santarém) para os canais de distribuição custava “50 euros” e, agora, passou para “71 euros”, um aumento na casa dos “40%”, indica Maria Vacas de Carvalho.

À margem desta situação, o produtor Pedro Mendes de Almeida reconhece que os produtores estão a passar por uma boa fase, mas admite que, futuramente, o conflito que se vive na Ucrânia possa vir a “causar mossa”. “Até agora sim, estamos” a passar por uma boa fase, mas “há a tal interrogação sobre o que é que se irá passar daqui para a frente”, admite.

Num ano marcado igualmente pela seca, o criador de ovinos reconhece que este fator “teve alguma influência” no desenvolvimento dos borregos, mas só numa determinada altura, agora já não. “Tive alguns custos mais acrescidos, porque tive de suplementar os animais, na altura de janeiro e fevereiro. Depois, a dada altura, vieram umas chuvas, pelo menos nesta região, e as coisas melhoraram um bocadinho”, relata. E, acrescenta, graças a “estas últimas chuvas do final de março”, a situação “melhorou bastante” e “há disponibilidades alimentares”.

Maria Vacas de Carvalho reitera que a seca “teve influência” no desenrolar da atividade, mas insiste que, nesta altura, o aumento do preço da carne de borrego, com “fortes tradições à mesa” na época da Páscoa, deve-se à guerra. “A seca já teve influência, porque tínhamos os produtores a quererem tirar rapidamente os animais do campo, porque não tinham alimentação” para lhes dar. Neste momento, “já não é o problema da seca na produção destes animais, mas é a guerra”, frisa.

De acordo com a página de Internet da Direção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV), consultada pela Lusa, o Alentejo é a região do país onde se produzem mais ovinos de carne, existindo nesta zona mais de 1,3 milhões de animais, distribuídos por 6.765 explorações pecuárias.

Produtores do Alentejo com vendas melhores nesta Páscoa, mas mais custos

As vendas de borrego criado no Alentejo, nesta Páscoa, aumentaram face ao ano passado, muito graças à exportação, mas há produtores que se queixam do aumento dos custos de produção, devido à guerra e à seca.

“O borrego está com uma procura interessante. Estamos a exportar muitos machos” e também “há uma procura maior das fêmeas no mercado interno”, disse hoje à agência Lusa Diogo Vasconcelos, presidente da Associação dos Jovens Agricultores do Sul (AJASUL), sediada em Évora.

Segundo o responsável, a procura por borregos machos, que são os comprados “por Israel e por toda a bacia do Mediterrâneo”, tem sido “constante nos últimos meses” e o preço da carne destes animais tem tido “uma melhoria significativa”, rondando “os 3,50 euros” por quilo.

No distrito de Beja, a venda de borregos também tem estado a “aumentar muito” face a 2021, relatou à Lusa António Lopes, presidente do conselho de administração do agrupamento de produtores pecuários Carnes do Campo Branco, com sede em Castro Verde.

“Já devemos ir entre os 12.000 e os 15.000 borregos vendidos”, revelou, afiançando que já não é só a Páscoa a “agitar” o mercado de ovinos: “Agora, é sempre época alta” para a comercialização, “porque a maior parte vai para fora”.

No Campo Branco, que abrange os concelhos alentejanos de Castro Verde e Almodôvar e parte dos de Aljustrel, Mértola e Ourique, grande parte da produção também segue para Israel.

O preço por quilo tem variado entre “os 3,40 e os 3,50 euros”, uma subida que, ainda assim, “não consegue acompanhar os aumentos das rações”. “Não estamos a ganhar mais do que no ano passado. Devido à seca, o consumo de rações aumentou de forma brutal” e “ainda hoje há animais a comer à mão”, frisou. E tudo isto faz com que o preço da carne de borrego seja cada vez mais alto para o consumidor final que, “qualquer dia, chega ao talho e não tem dinheiro para a comprar”.

“Está com preços que não são para ‘a carteira’ de todos. O borrego é a ‘lagosta’ da carne e a nossa sorte é a exportação”, disse.

O mesmo lamento acerca da subida dos fatores de produção chega do distrito de Portalegre. A coordenadora do Agrupamento de Produtores Pecuários do Norte Alentejano – Natur-al-Carnes, Maria Vacas de Carvalho, disse que a guerra na Ucrânia fez disparar os preços dos transportes, o que influencia o valor da venda de borregos na Páscoa.

O presidente da AJASUL alude igualmente ao “preço completamente desproporcional e louco das rações” e de outros fatores de produção, que corta a margem de lucro aos produtores.

“Estamos a vender borregos mais leves e que nos custaram mais dinheiro. Vendemo-los com 25 quilos, o que nos custou 20 euros, quando, no ano passado, estávamos a vender borregos com 30 quilos, que nos custaram 15 euros”, conta.

Com a seca, “tivemos que lhes dar mais ração” e, devido aos efeitos económicos da guerra na Ucrânia, esses suplementos “estão todos mais caros”, argumentou Diogo Vasconcelos, acrescentando: “Se não tivéssemos tido uma seca, nem uma guerra, estaríamos bem melhor, mas é o que há…”.

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