Grupo Mediaset defende importância da entrevista televisiva a Lavrov

  • Lusa
  • 2 Maio 2022

“A Europa poderá envolver-se cada vez mais numa guerra sangrenta e não devemos ouvir quem, a nível institucional, desencadeou este conflito?”, disse o diretor-geral de informação do grupo italiano.

O diretor-geral de informação do grupo italiano Mediaset, Mauro Crippa, defendeu esta segunda-feira a importância da entrevista televisiva ao ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Serguei Lavrov, a primeira a um órgão europeu desde a invasão da Ucrânia.

Crippa criticou, contudo, as declarações de Lavrov segundo as quais pode haver elementos neonazis infiltrados nas cúpulas do poder ucraniano e que o facto de alguns dos governantes, incluindo o próprio Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, serem judeus “não quer dizer nada”, porque “Hitler também tinha origens judaicas”.

“As declarações delirantes do chanceler russo Lavrov são de particular importância, porque confirmam claramente a falta de vontade do [Presidente russo, Vladimir] Putin de alcançar uma solução diplomática para a guerra russa contra a Ucrânia”, sustentou Crippa num comunicado.

“Quanto às acusações de Lavrov e aos paralelos absurdos sobre Hitler e os judeus, só os antissemitas viscerais podem dar crédito ao que parecem ser puras loucuras, assim como os falsos historiadores já desmentidos pelos factos”, acrescentou.

No entanto, após as críticas suscitadas por ter permitido tal entrevista e ter, por isso, consentido ao MNE russo a defesa das suas teses sem que o jornalista as refutasse ou o questionasse sobre elas, o diretor de informação do Mediaset sublinhou que ela “é um documento que retrata a história contemporânea”.

“A Europa poderá envolver-se cada vez mais numa guerra sangrenta e não devemos ouvir quem, a nível institucional, desencadeou este conflito?”, interrogou. Na sua opinião, “o pluralismo da informação e as boas regras do jornalismo sempre sugerem que se oiçam todas as opiniões, inclusive as mais controversas e dissonantes”, sem que isso signifique partilhá-las.

O grupo, da família Berlusconi, já enviou para a zona de guerra jornalistas que “arriscam a vida todos os dias para relatar este horrível conflito, sem descartar a propaganda bélica e mostrando as imagens dos crimes cometidos”, e continuará “a dar voz a todos os protagonistas desta grave crise mundial”, concluiu o diretor de informação.

Na entrevista de quase 50 minutos emitida pelo canal de notícias Rete4, o MNE russo assegurou que a missão da “operação militar especial” na Ucrânia é “desnazificar” o país e, quando o jornalista observou que alguns dos governantes ucranianos a quem estava a chamar nazis são judeus, entre os quais Zelensky, Lavrov observou que, por serem judeus, não quer dizer que não sejam nazis e apontou como exemplo Hitler, afirmando que este “também tinha origens judaicas”.

“Isso (serem judeus) não significa nada. Há muito tempo que ouvimos o sábio povo judeu dizer que os antissemitas também são hebreus”, acrescentou.

A comunidade judaica de Roma classificou tais declarações como “antissemitas”, e a sua presidente, Ruth Dureghello, disse que foram “afirmações delirantes e perigosas” transmitidas ao público a partir de uma televisão italiana.

Também o ministro dos Negócios Estrangeiros israelita, Yair Lapid, classificou as declarações de Lavrov como “graves” e convocou o embaixador da Rússia em Israel “para uma reunião de esclarecimento”, ao passo que o vice-presidente da Comissão Europeia Margaritis Schinas as descreveu como “inaceitáveis” e “escandalosas”.

Entretanto, Itália anunciou esta segunda que vai investigar as mensagens propagandísticas a favor da Rússia e de Putin e sobre a invasão da Ucrânia que diariamente chegam às televisões do país, a última das quais foi a entrevista a Lavrov que desencadeou grande indignação.

Adolfo Urso, presidente da Comissão Parlamentar para a Segurança da República (COPASIR), que supervisiona as atividades dos Serviços Secretos, explicou que está prevista uma investigação específica, juntamente com os diretores da televisão pública RAI e da Autoridade para a Garantia das Comunicações (AGCOM).

O que se receia é a difusão de notícias falsas ou de propaganda nos debates das estações televisivas italianas e, segundo Urso, “a entrevista a Lavrov, pelo modo como decorreu e a montanha de mentiras que espalhou, justifica essas preocupações”.

“Já tínhamos destacado nos nossos relatórios ao parlamento o modo como a Rússia está a agir para condicionar democracias ocidentais, usando a desinformação como um dos seus principais instrumentos, além da guerra cibernética e da espionagem”, indicou.

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