BRANDS' ECOSEGUROS Será o ESG o bicho papão dos seguros ou a nova realidade?

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  • 27 Junho 2022

José Rodrigues, diretor geral da Universalis, explica o contexto e impacto das práticas de ESG no mercado segurador, nomeadamente o papel do corretor de seguros.

ESG é a sigla inglesa para Environmental, Social and Governance, que se traduz de forma simplista na língua de Camões, em Ambiental, Social e Gestão Corporativa, ou seja, são um conjunto de indicadores que versam medir as ações que promovam uma atitude empresarial mais sustentável para o ambiente, com responsabilidade social e com melhores práticas dentro da organização.

Passamos do conceito que em 1970 Milton Fridman nos deixou, em que afirmava que a única responsabilidade social de um negócio é aumentar os seus lucros, para um conceito de negócio com significado (purpose), que ajude a promover sociedades mais saudáveis e equitativas, atraindo força de trabalho diversificada, com ativos e investimentos que não coloquem em causa o futuro do nosso Planeta.

O que é que o palavrão ESG tem a ver com seguros? Tudo.

Um dos primeiros alertas no mercado segurador surgiu em dezembro de 2020, quando o Lloyd´s (sexto maior ressegurador mundial) publicou o primeiro relatório ESG, anunciando pela primeira vez que iria definir metas para uma subscrição sustentável, indicando que a partir de janeiro de 2022, deixaria de aceitar novos riscos de algumas atividades relacionadas com carvão e combustíveis fosseis e que iria sair gradualmente desses negócios existentes até 2030.

"As seguradoras não vão subscrever riscos em negócios que possam contribuir para abusos dos direitos humanos, que afetem negativamente a qualidade da água e o seu acesso, que se instalem em países com registo de desprezo pelos direitos humanos, que menosprezem ecossistemas com alta diversidade ou que possam causar danos em habitats críticos, entre outros.”

José Rodrigues

Diretor geral da Universalis

Ora, significa isto que os relatórios ESG começam a ter um peso similar aos relatórios financeiros e as empresas precisam de os exibir, provando que estão a adotar iniciativas ESG transparentes e eficazes ou correm o risco de perderem acesso a cobertura de risco, financiamento e até clientes.

José Rodrigues, diretor geral da Universalis.

O mercado segurador está a caminhar para uma subscrição sustentável, com uma carteira de clientes e negócios que apoiem esta mesma ambição.

Assim sendo, o acesso a seguros e financiamento passará pela triagem das práticas ESG da empresa, desde a forma como o negócio é gerido, até à tipologia de investimentos que faz e dos ativos que possui. Os critérios sociais servirão para mitigar ou agravar o seu risco, levando em consideração a inclusão no ambiente de trabalho e bem-estar. Disputas, protestos no local de trabalho e na comunidade onde o seu negócio está inserido podem afetar negativamente o rating da organização.

As seguradoras não vão subscrever riscos em negócios que possam contribuir para abusos dos direitos humanos, que afetem negativamente a qualidade da água e o seu acesso, que se instalem em países com registo de desprezo pelos direitos humanos, que menosprezem ecossistemas com alta diversidade ou que possam causar danos em habitats críticos, entre outros.

Irá existir mais apetite e melhor preço para riscos que respeitem práticas ESG.

Também ao nível do risco de negócio as seguradoras de crédito, começam a correlacionar o risco de não-pagamento com eventos climáticos severos (que causam interrupções na cadeia de fornecimento) ou entre insolvências e distúrbios sociais (saques e perdas de lucros). Com a incorporação das práticas de ESG no acesso a financiamento, passam a existir novos riscos, que podem advir dos seus clientes já não se conseguirem financiar convenientemente e por essa via aumentar o risco de incumprimento.

Podemos, então, questionar-nos como pode o mercado comparar a performance de dois operadores com igual lucro, mas em que um adota iniciativas transparentes de ESG e outro não?

Nesta fase onde nos encontramos, existem já indicadores definidos e apresentados por várias organizações como é o caso da GRI, SASB, bem como o Fórum Económico Mundial, que no seu relatório, define já um conjunto de métricas ESG. No entanto, as aplicações dos critérios ainda não são totalmente uniformes, pelo que o nível de exigência dependerá do seu cliente, fornecedor, seguradora ou banco.

Tudo isto será uniformizado com a Contabilidade de Impacto, cujo objetivo será refletir nas contas financeiras o seu impacto positivo ou negativo ao nível social, ambiental e de governo da sociedade. Nesse momento não haverá dúvidas que a sustentabilidade deixará de ser um chavão para ser a estratégia e a única forma das empresas aumentarem os seus lucros é serem socialmente responsáveis.

"Num tema tão necessário e complexo como o da sustentabilidade, o papel do corretor assume uma importância ainda mais relevante, já que também cabe a si o papel da consciencialização e formação dos seus clientes, para que se cumpra uma vez mais o objetivo maior do seguro, o de precaver e proteger de eventuais riscos.”

José Rodrigues

Diretor geral da Universalis

O que é que a corretagem de seguros tem a ver com estes temas?

O papel do corretor de seguros passa a ser mais abrangente e passará também por ajudar os seus clientes a responderem aos desafios impostos pelas mudanças climáticas, sociais e de Governance. Caso contrário, não conseguirá colocar riscos complexos no mercado segurador, os seus clientes terão menores capacidades de apresentar cauções ou de demonstrarem robustos plafonds de crédito para continuarem a comprar aos seus fornecedores.

Num tema tão necessário e complexo como o da sustentabilidade, o papel do corretor assume uma importância ainda mais relevante, já que também cabe a si o papel da consciencialização e formação dos seus clientes, para que se cumpra uma vez mais o objetivo maior do seguro, o de precaver e proteger de eventuais riscos.

Mais do que apenas falar sobre o que tem de ser feito, é também chegada a hora de promover ferramentas de informação que permitam de facto implementar a mudança de consciência e de ações em concreto.

O nosso papel continua a ser o de transferir e mitigar risco dos nossos clientes, mas a forma de colocação de risco no mercado segurador está a mudar, pelo que, para continuarmos a desempenhar o nosso papel, o apoio na mudança aos clientes empresariais é fundamental, antes que sejam os reguladores a imporem novas regras ou que a contabilidade de impacto seja uma realidade e aí pode ser tarde de mais.

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