Falência da Camel deixa fábricas portuguesas com dívidas na mão e sapatos no armazém

Processo de insolvência da empresa alemã detentora da licença da Camel Active cancela encomendas e deixa faturas por liquidar em Portugal, onde a marca subcontratava parte da produção de calçado.

A falência da empresa alemã HC Footwear, a unidade do grupo Hamm Market Solutions (HMS) que detinha há dois anos a licença comercial para as coleções de calçado da Camel Active nos mercados europeus, está a agitar a indústria portuguesa, que há várias décadas produz sapatos para esta marca internacional. As encomendas foram canceladas e acumulam-se as faturas por liquidar.

A associação que representa os industriais portugueses (APICCAPS) confirma ao ECO que a Camel subcontratava parte da produção em Portugal, embora desconheça o número exato de fabricantes nacionais de sapatos e de componentes que trabalhavam com a marca, já que estes contratos incluem cláusulas de confidencialidade.

Paulo Gonçalves, porta-voz da associação empresarial liderada por Luís Onofre, faz votos para que este episódio “não crie muita mossa e que não [sejam] surpreendidos por algo que foi inesperado, vindo de um cliente com este peso”. “Espero que não tenha grande impacto no setor. Aliás, até maio as exportações estavam a aumentar 30% e era bom que conseguíssemos manter este ritmo mais algum tempo, ainda que saibamos que será extremamente difícil”, completa o responsável.

Esperamos que [esta falência] não crie muita mossa e que não sejamos surpreendidos por algo que foi inesperado, vindo de um cliente com este peso.

Paulo Gonçalves

Porta-voz da associação industrial do calçado (APICCAPS)

O assunto é delicado no setor do calçado e várias empresas contactadas pelo ECO preferiram não dar a cara ao comentarem o tema. Até porque ainda têm esperança de recuperar parte do dinheiro e temem ser mal interpretados, numa altura em que o processo de insolvência ainda decorre na Alemanha. “Está toda a gente a tentar reaver alguma coisa do que lá ficou”, resume o responsável comercial de um grupo de Felgueiras.

“Fomos informados logo em maio que aquilo estava com problemas. Tínhamos dinheiro a receber de encomendas anteriores e outras prontas para entregar também. (…) Quanto menos barulho houver à volta disso, melhor para nós. Estamos a ultrapassar a dificuldades dia após dia, com o máximo de silêncio que é para não espantar a caça”, acrescenta o administrador de uma empresa de Guimarães, que pediu igualmente para não ser identificado.

Tínhamos dinheiro a receber de encomendas anteriores e outras prontas para entregar também. (…) Estamos a ultrapassar a dificuldades dia após dia, com o máximo de silêncio que é para não espantar a caça.

Administrador de uma empresa de calçado de Guimarães

Tudo o que tinha sido encomendado para a próxima coleção de outono/inverno foi de imediato anulado pelos representes da empresa alemã no mercado português. Por sua vez, as próprias fábricas de calçado começaram a “cancelar tudo o que era possível” aos fornecedores de componentes, relata ao ECO uma fonte conhecedora destas negociações. É que, desabafa, “nem tudo estaria já produzido para as coleções de inverno, mas todos os materiais já estavam encomendados”. “Veio por ali abaixo” na cadeia produtiva.

Regresso adiado e “fôlego” para outros clientes

Depois de ter estado 18 anos nas mãos da Gabor, multinacional germânica que tem uma fábrica em Barcelos com perto de 1.500 trabalhadores, a partir da temporada outono/inverno de 2020, a licença para desenvolver e comercializar o calçado de homem e senhora para esta marca de lifestyle ficou a cargo da HMS. Também é responsável para as marcas Gant Footwear e Scotch & Soda Footwear, mas garante que essas unidades de negócios não são afetadas pela falência.

Em comunicado, a HC Footwear, sediada em Osnabrück, justificou que nos últimos dois anos, que coincidiram com a pandemia de Covid-19, foi vítima de “cadeias de fornecimento interrompidas, que resultaram em atrasos graves, juntamente com custos exorbitantes” no transporte marítimo, além de bloqueios em países onde fabricava e comercializava os sapatos. E disse ainda ter sido “duramente atingida” pela guerra entre a Rússia e Ucrânia, perdendo mercados e clientes nesses territórios.

Proprietário da licença “master” da Camel Active na região EMEA está à procura de um novo parceiro, mas admite que a marca só irá ser relançada no outono / inverno 2023-24.

Tão cedo as fábricas portuguesas não voltarão a ter encomendas desta marca. O grupo têxtil alemão Bültel, que é o proprietário da licença “master” da Camel Active na região EMEA (Europa, África e Oriente Médio), anunciou no final de julho que está à procura de um novo parceiro para relançar a marca na coleção outono/inverno 2023-24. O que significa que não haverá coleções novas no inverno 2022-2023 nem no verão do próximo ano.

O grupo Kyaia é o maior fabricante nacional de calçado e durante cerca de 25 anos produziu e, inclusive, chegou a distribuir os sapatos da Camel em Portugal e Espanha. Interrompeu essa relação de longa data quando a marca trocou para estes representantes que “entraram numa de querer sapatos muito baratos”. “E passados estes anos deu nisto, infelizmente”, completa o presidente, Fortunato Frederico, em declarações ao ECO.

António Costa com o líder do grupo Kyaia, Fortunato Frederico, nas instalações da plataforma online Overcube, em Guimarães.ALEXANDRE RIBEIRO/LUSA 17 abril, 2018

Ainda assim, o histórico empresário nortenho, que tem fábricas em Guimarães e Paredes de Coura e é dono de marcas como a Fly London, considera que a perda da Camel, por muito grande que seja, até pode abrir espaço para essas indústrias nacionais poderem aceitar encomendas de clientes em melhor situação financeira, ganhando assim “algum fôlego para fabricar para os outros”. “Penso que a saída da Camel não irá causar muitos problemas de trabalho, a não ser àqueles que deixaram de receber, coitados”, remata.

Entraram numa de querer sapatos muito baratos e passados estes anos deu nisto, infelizmente. (…) Penso que a saída da Camel não irá causar muitos problemas de trabalho, a não ser àqueles que deixaram de receber, coitados.

Fortunato Frederico

Presidente da Kyaia

Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística, Portugal exportou quase 33,6 milhões de pares de sapatos no valor de 792,4 milhões de euros entre janeiro e maio deste ano. Significa uma subida de 30,33% em valor, face ao mesmo período do ano anterior, e um crescimento em relação ao nível pré-pandemia (+13,7% vs. 2019) – e ficou até 4,2% acima do registo dos cinco primeiros meses de 2017, que foi o melhor ano de sempre no que toca às vendas de calçado português no estrangeiro.

No ano passado, as exportações portuguesas aumentaram 16%, mais do dobro da média mundial. De acordo com o World Footwear Yearbook, entre os principais produtores mundiais de calçado, Portugal apresenta o segundo maior preço médio de exportação (28,60 dólares, o par), com a APICCAPS a assinalar que é um “sinal do prestígio que o setor conquistou no plano internacional”.

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