A fórmula matemática por trás das tarifas de Trump que promete redesenhar o comércio mundial
Trump quer redefinir o comércio dos EUA ao aplicar tarifas com base numa relação do saldo comercial e em elasticidades económicas, mas a simplicidade esconde impactos profundos para o comércio global.

Donald Trump, no regresso à presidência dos EUA, voltou a colocar as tarifas aduaneiras no centro da sua estratégia económica. Sob o pretexto de corrigir desequilíbrios comerciais e proteger a indústria norte-americana, a sua Administração revelou uma fórmula controversa para calcular as tarifas impostas aos parceiros comerciais. Mas como funciona exatamente esta metodologia? E quais os seus objetivos?
A base do cálculo das tarifas recai sobre o saldo comercial entre os EUA e cada país. Segundo o documento publicado pelo Departamento do Representante de Comércio dos EUA (USTR), a fórmula divide o excedente comercial de um país com os EUA pelas suas exportações totais para o mercado americano. O resultado é então reduzido para metade, originando a chamada “taxa descontada” de tarifa.
Por exemplo, considerando o caso União Europeia (UE), em 2024 os EUA registaram um défice comercial de 235,6 mil milhões de dólares com o bloco europeu e contabilizaram importações de 605,8 mil milhões de dólares, o cálculo foi o seguinte:
Além do saldo comercial, a fórmula considera elasticidades económicas: a elasticidade da procura por importações (ε) e a elasticidade dos preços das importações relativamente às tarifas (ϕ).
“Dados recentes sugerem que a elasticidade é próxima de 2 a longo prazo, mas as estimativas da elasticidade variam”, refere o Departamento de USTR, referindo ainda que “para ser conservador, foram utilizados estudos que encontram elasticidades mais altas perto de 3-4” e “a elasticidade dos preços de importação relativamente às tarifas ϕ, é de 0,25.”
Embora o exercício das tarifas de Trump seja tecnicamente defensável como um “proxy” para barreiras comerciais mais complexas, resta saber se conseguirá atingir os objetivos económicos sem desencadear novos conflitos comerciais.
Isto faz com que estas variáveis tenham sido configuradas para praticamente se anularem mutuamente (ε=4 e ϕ=0,25), simplificando assim a fórmula de cálculo das tarifas à fórmula essencial que, no caso da UE, resulta numa taxa de 19,4% quando a taxa definida por Trump é de 20%.
Apesar da simplicidade da fórmula, é questionável a sua eficácia. A decisão de ignorar fatores como a manipulação cambial ou barreiras regulatórias específicas levanta dúvidas sobre se estas tarifas corrigem as distorções comerciais. Além disso, as taxas apresentadas por Trump diferem ligeiramente das constantes no anexo oficial do decreto presidencial, gerando ainda mais confusão e incerteza.
As tarifas variam entre 0% e 99%, com uma média ponderada global de 41%. Para países com os quais os EUA têm défices comerciais significativos, como a China, espera-se um impacto direto nas exportações.
Contudo, alguns analistas temem retaliações comerciais que possam agravar tensões globais. Assim que se soube das tarifas, Mark Carney, primeiro-ministro canadiano, garantiu que o Canadá vai “combater estas tarifas com contramedidas”. Também o primeiro-ministro irlandês, Michael Martin, anunciou que “qualquer ação deve ser proporcional e visar defender os interesses das nossas empresas, dos nossos trabalhadores e dos nossos cidadãos”.
Não deixa também de ser notado o facto de a fórmula de cálculo das tarifas impostas por Trump baseia-se unicamente numa fotografia tirada ao saldo comercial dos EUA em 2024, ignorando as barreiras tarifárias que os produtos norte-americanos enfrentam no exterior. Esta abordagem contraria a retórica promovida pelo presidente norte-americano durante vários meses, que prometeu combater práticas comerciais desiguais, mas optou por focar-se exclusivamente no défice comercial, deixando de lado a reciprocidade anunciada — apesar de em alguns casos as duas variáveis se tocarem.
Ou seja, mais do que cobrar aos outros aquilo que estes cobram aos produtos norte-americanos, Trump optou por olhar para o défice comercial com os países e desenhar uma taxa que permitiria fechar esse gap, isto se as restantes variáveis se mantivessem constantes. Isto significa que, em teoria, pode até estar a aumentar tarifas face a países que já têm tarifas mais baixas que as americanas, mas que por outras razões têm um grande excedente comercial face aos EUA.
A fórmula adotada pela Administração Trump reflete uma abordagem simplificada, mas agressiva para reequilibrar as relações comerciais dos EUA. Embora seja tecnicamente defensável como um “proxy” para barreiras comerciais mais complexas, resta saber se conseguirá atingir os objetivos económicos sem desencadear novos conflitos comerciais. Para já, fica claro que Trump está disposto a usar todas as ferramentas ao seu alcance para reforçar o lema “America First”.
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