Fitch corta rating da China na primeira revisão em 18 anos

A agência de notação alerta para riscos fiscais e orçamentais na China e reduz rating para "A". Pequim critica decisão, enquanto a dívida pública continua a subir rapidamente.

A agência de notação financeira Fitch anunciou esta quinta-feira a revisão em baixa do rating da dívida soberana de longo prazo da China em moeda estrangeira, de “A+” para “A”.

Apesar do downgrade, a perspetiva atribuída ao país permanece “estável”. Esta decisão marca a primeira alteração no rating da China pela Fitch em 18 anos. A última vez que a agência de notação creditícia reviu o risco do Império do Meio foi em dezembro de 2006, quando o país viu o seu rating subir de “A” para “A+”.

O Ministério das Finanças da China reagiu rapidamente à decisão da Fitch, classificando-a como “enviesada” e incapaz de refletir plenamente a realidade económica do país. Em comunicado oficial, o ministério classificou a análise da Fitch como “tendenciosa e não pode refletir de forma completa e objetiva a situação real da China e o consenso dos mercados internacional e doméstico sobre a recuperação da economia chinesa”, afirmando ainda que as políticas fiscais adotadas pelo governo têm sido eficazes na estabilização económica e na contenção dos riscos associados à dívida pública.

Apesar do downgrade, a Fitch reconhece os pontos fortes estruturais da economia chinesa. Entre eles estão o papel central do país no comércio global.

Segundo o relatório da Fitch, a revisão reflete preocupações com o enfraquecimento das finanças públicas chinesas e o aumento acelerado da dívida pública num contexto de transição económica.

“A descida da notação reflete as nossas expectativas de um enfraquecimento contínuo da dívida pública da China e de um rápido aumento da trajetória da dívida pública durante a transição económica do país”, lê-se no documento da Fitch.

A agência destaca ainda que a China tem enfrentado desafios significativos devido à fraca procura interna, pressões deflacionárias e tarifas comerciais crescentes.

Estas condições têm levado Pequim a adotar estímulos fiscais contínuos para sustentar o crescimento económico, resultando em défices orçamentais elevados e numa trajetória ascendente da dívida pública relativamente ao PIB. “Este apoio, juntamente com uma erosão estrutural da base de receitas, manterá provavelmente os défices orçamentais elevados”, antecipam os analistas da Fitch.

A agência de notação creditícia norte-americana prevê que o défice de Pequim aumente para 8,4% do PIB em 2025, um valor muito acima da mediana de 2,7% para países com rating “A”. Este défice reflete uma redução estrutural nas receitas fiscais, agravada por cortes nos impostos e pela queda nas receitas relacionadas com terrenos, uma importante fonte de financiamento para os governos locais.

Apesar do outlook positivo, a Fitch alerta que riscos adicionais podem surgir caso o défice orçamental continue elevado ou se houver materialização de passivos contingentes significativos.

Além disso, a agência projeta que a dívida do governo chinês (central e local) subirá para 68,3% do PIB em 2025 e 74,2% em 2026, valores significativamente superiores à mediana de 57% observada entre os pares com rating “A”.

Apesar do downgrade, a Fitch reconhece os pontos fortes estruturais da economia chinesa. Entre eles estão o papel central do país no comércio global, as vastas reservas cambiais e uma posição credora líquida no exterior. A agência também destaca as perspetivas de crescimento económico médio prazo de 4,3% até 2029, impulsionado por setores avançados de manufatura e tecnologia.

Adicionalmente, a política fiscal chinesa tem procurado mitigar riscos relacionados com dívidas ocultas dos governos locais por medidas como swaps de dívida e maior transparência. Estas ações ajudam a reduzir custos de financiamento e melhorar a gestão fiscal.

Embora os analistas da Fitch tenham mantido uma perspetiva estável para a economia chinesa no novo nível de rating “A”, alertam que riscos adicionais podem surgir caso o défice orçamenta continue elevado ou se houver materialização de passivos contingentes significativos. Por outro lado, melhorias na geração de receitas fiscais ou reformas estruturais poderiam levar a uma revisão positiva no futuro.

Com esta decisão histórica da Fitch, as atenções voltam-se agora para as políticas económicas adotadas por Pequim nos próximos anos e para os seus esforços em equilibrar crescimento económico sustentável com estabilidade fiscal.

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