Vinho português pode perder mais de 20% do mercado dos EUA com tarifas de 15%

Representantes do setor vinícola lamentam que Bruxelas não tenha negociado um acordo melhor, mas ainda acreditam que é possível o vinho entrar na lista de produtos isentos de tarifas nos EUA.

Apesar de prosseguirem as negociações que ainda podem incluir as bebidas alcoólicas na lista de produtos com isenção de tarifas para os Estados Unidos, a partir de dia 1 de agosto, os vinhos e destilados europeus que tenham como destino o país vão mesmo passar a pagar taxas aduaneiras de 15%. Caso esta tarifa seja para manter, o vinho português poderá perder mais de 20% do mercado norte-americano, que no ano passado comprou mais de 100 milhões de euros, avisam os representantes do setor.

O acordo selado no domingo entre o presidente norte-americano Donald Trump e a presidente da Comissão Europeia Ursula von der Leyen fixou um teto máximo de 15% nas taxas aduaneiras norte-americanas sobre a maioria dos bens europeus e isenções tarifárias para determinados produtos. Apesar de o texto final ainda não estar fechado — há muitos pormenores e negociações a decorrer –, o acordo trouxe previsibilidade aos negócios, encerrando um período em que os empresários estavam “às escuras” sobre quanto os seus produtos iriam pagar para entrar nos EUA.

O setor português do vinho, que em 2024 vendeu 102 milhões de euros para os EUA (10,58% do total das exportações nacionais), aplaudiu o fim da incerteza, mas aponta os custos elevados que taxas desta dimensão podem trazer para o setor. “Os 15% [de tarifa] não são bons. Trazem-nos alguma dificuldade. Os nossos concorrentes diretos, como a Austrália e a China têm taxas 10%”, conta ao ECO Frederico Falcão, presidente da ViniPortugal.

Frederico Falcão, presidente da ViniPortugal, avisa que taxas de 15% poderão levar a uma quebra de 20% da procura.

O responsável assume, ainda assim, que este cenário traz “previsibilidade”. “Saber com o que contamos, ainda que isso traga um decréscimo de 20% nas encomendas, ou talvez superior”, torna o negócio mais previsível, assume o porta-voz do setor. Esta previsibilidade é valiosa para as exportadoras de vinho para os EUA, que chegaram a ser ameaçadas com tarifas de 200% e viram muitos clientes congelar encomendas até que houvesse maior clareza sobre a política comercial.

Porém, um aumento da taxa para 15%, acima dos 10% em vigor e pagos por outros concorrentes dos vinhos europeus, deverá resultar em aumentos de preço acima de 20% para os consumidores norte-americanos, o que vai refletir-se numa quebra de procura, explica Frederico Falcão. “A quebra em termos de consumo muito provavelmente será acima de 20%“, estima.

Apesar destas previsões, Frederico Falcão mantém uma visão otimista para as negociações que continuam a decorrer, nomeadamente em torno das isenções de taxas. “Temos uma forte expectativa de que [o setor do vinho] termine com tarifa de zero. As negociações continuam“, apontou, em declarações ao ECO. O responsável está confiante que nos próximos haja “uma boa notícia”, evitando este cenário mais negativo para o setor.

Há espaço para os vinhos portugueses, mesmo assim, aumentarem os preços e continuarem competitivos. Estamos num patamar de preços muito baixo no mercado dos EUA.

Bernardo Gouvêa

Presidente do Instituto da Vinha e do Vinho (IVV)

Bernardo Gouvêa, presidente do Instituto da Vinha e do Vinho (IVV), também admite que a imposição de tarifas vai resultar numa quebra da procura. Mas, tal como o presidente da ViniPortugal, ainda acredita que seja possível juntar o vinho à lista de produtos com isenção de tarifas. “Seria bom que os vinhos pudessem entrar no regime de taxa 0%”, assume. Caso isso não aconteça, defende que “há espaço para os vinhos portugueses, mesmo assim, aumentarem os preços e continuarem competitivos. Estamos num patamar de preços muito baixo no mercado dos EUA”, destaca.

“Pode até ser uma oportunidade para melhorar o posicionamento de preço nos EUA. Mesmo com preços mais altos, os vinhos portugueses não ficam ‘descompetitivos'”, argumenta o presidente do IVV. Bernardo Gouvêa acredita que “o que é inteligente é reforçar os esforços de promoção e marketing”, de modo a posicionar os vinhos portugueses numa gama de preços mais elevada.

O presidente do instituto público nota ainda que a imposição destas tarifas vai “exigir aos produtores que tenham maior preocupação em acompanhar o mercado” e vão ter de reforçar as negociações com a distribuição. Ainda assim, realça que “todos os países vão ter algum tipo de tarifa”. Ainda que a taxa paga pelos vinhos portugueses seja superior àquela a que estarão sujeitos o Reino Unido, a Austrália ou a China.

Paulo Amorim, presidente da Associação Nacional dos Comerciantes e Exportadores de Vinhos e Bebidas Espirituosas (ANCEVE), avisa que as tarifas de Donald Trump são a “tempestade perfeita que fará com que esta vindima de 2025 seja ainda pior do que a de 2024 em termos de dramatismo para a fileira do vinho português”.

A Europa não quis fazer retaliação e julgo que foi um erro estratégico. Ficou numa posição muito menorizada.

Paulo Amorim

Presidente da Anceve

Quanto ao acordo fechado no fim de semana passado, Paulo Amorim não é meigo nas críticas: “Foi um péssimo acordo que deixa muito fragilizada, mais uma vez, a imagem de Ursula von der Leyen”. “A Europa não quis fazer retaliação e julgo que foi um erro estratégico. Ficou numa posição muito menorizada e von der Leyen presta-se a um papel lamentável ao ir ter com o presidente dos EUA a um hotel que tem na Escócia” para assinar um acordo. “Isto foi, na prática, uma grande operação de relações públicas do presidente dos EUA, que está a braços com o grande escândalo Epstein”, enquadrou.

Paulo Amorim considera ainda “lamentável” que o Reino Unido, que saiu da União Europeia e não tem o mesmo “poder de fogo”, tenha conseguido negociar sozinho taxas inferiores, de 10%. O líder da ANCEVE lamenta ainda os meses de incerteza em torno das tarifas, com impacto nas vendas para o país. “As importações ficaram bloqueadas logo em março. Os importadores pararam as encomendas numa altura em que Portugal estava a crescer nas exportações de vinho [no primeiro trimestre]. Neste momento está a cair muito por via do problema nos Estados Unidos”, explica o responsável.

“Para o sistema de distribuição nos EUA é péssimo e vai causar muitos despedimentos e até falências de empresas, porque as empresas de distribuição e importação nos EUA são muito dependentes dos vinhos italianos, franceses, espanhóis e, em menor grau, também dos portugueses“, atira. É que, resume Paulo Amorim, estes agentes não conseguem “sobreviver” só com os vinhos da Califórnia ou o Chile. “Para eles é vital ter os vinhos europeus”, aponta.

João Gomes da Silva, administrador executivo da Sogrape, assume que esta decisão de aplicar tarifas de 15% sobre os vinhos europeus a partir de 1 de agosto “representa um desafio significativo para o setor vitivinícola”. No caso da Sogrape, os EUA são o terceiro mercado mais importante e “um destino estratégico para várias marcas do portefólio”. “Embora a redução da tarifa inicialmente prevista [20%] para 15% seja um sinal positivo, o impacto no curto prazo poderá ainda traduzir-se numa retração da procura, devido ao aumento de preços”, refere o gestor da maior empresa portuguesa de vinhos.

“A Sogrape está a trabalhar em estreita colaboração com a sua importadora local para mitigar os efeitos desta medida, assegurando a competitividade e a valorização da sua oferta, e mantém o seu compromisso com os consumidores e parceiros norte-americanos”, completa João Gomes da Silva, que reconhece que “a incerteza desde o final do ano de 2024 já implicou uma retração do mercado”. “A imposição destas tarifas, pelo seu impacto nos preços, não poderá deixar de implicar uma retração, mesmo que temporária, da procura”, assume.

A imposição destas tarifas, pelo seu impacto nos preços, não poderá deixar de implicar uma retração, mesmo que temporária, da procura.

João Gomes da Silva

Administrador executivo da Sogrape

A Sogrape realça que “os impactos estruturais são resultado de circunstâncias muito complexas e, por isso, difíceis de antecipar neste momento, mas nenhuma hipótese deve ser descartada”. O facto de o grupo de Vila Nova de Gaia contar com uma importadora própria nos EUA permite uma resposta mais ágil e flexível, “essencial para adaptar estratégias de comercialização e logística”.

Apesar destas dificuldades, mostra-se confiante que “através do diálogo e da cooperação, será possível ultrapassar os desafios atuais e continuar a crescer num mercado estratégico para o grupo”. “Confiamos na solidez das nossas marcas e na relação próxima que cultivámos ao longo dos anos com os nossos parceiros e consumidores, que continuam a demonstrar um interesse crescente pelos vinhos portugueses”, remata.

Tomás Roquete, administrador da Quinta do Crasto, realça que, no último ano, a quinta do Douro exportou “praticamente zero” para os EUA devido a um problema com um importador. No entanto, Tomás Roquete revela que tem a “ambição que os EUA voltem a ser um dia o maior mercado de exportações” da empresa, recordando que de 1997 a 2010 eram o principal mercado de exportação do Crasto. Depois de 2010, o mercado brasileiro começou a ganhar peso e tornou-se no principal mercado. “Os EUA não acompanharam o ritmo do crescimento do Brasil”, relata.

Uma taxa de 15% é alta, mas não é a decapitação do negócio.

Tomás Roquete

Administrador da Quinta do Castro

“Os EUA têm um enorme potencial para voltar a ser o nosso principal mercado de exportação”, afirma o administrador da Quinta do Crasto, lamentando que com as taxas de 15% “a expectativa de crescer este ano nos Estados Unidos não será tão grande como aquela que seria se não houvesse taxas”. Uma “taxa de 15% é alta, mas não é a decapitação do negócio”, diz Tomás Roquete, sugerindo que a taxa seja absorvida pelo produtor e pelo importador.

“O Canadá, entretanto, retirou todos os vinhos americanos das prateleiras e talvez se abram aqui algumas oportunidades para vinhos de outras partes do mundo”, acrescenta. “Temos de perceber se os 15% passam a ser uma oportunidade quando comparado com outros países com 20% ou 25% ou passa a ser uma debilidade porque outros só tiveram 10%”, aponta Tomás Roquete.

Rapidez no acordo Mercosul

Uma forma de compensar a quebra para os EUA é abrir novos mercados, o que pode ser conseguido com o desbloqueio de outros acordos. O acordo Mercosul é uma vez mais exemplo da lentidão e da falta de cooperação interna da Europa (…) Este acordo poderia ser muito bom para Portugal no mercado do Brasil, que é um mercado estratégico para nós, e onde poderíamos aumentar muitas as vendas e compensar um pouco o que vamos sofrer no mercado dos EUA”, considera o presidente da ANCEVE.

Também o presidente da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Brasileira (CCILB) já tinha dito na semana passada que as tarifas impostas pelo presidente dos EUA podem funcionar como catalisador para uma reaproximação “urgente” entre o Mercosul e a União Europeia.

Otacílio Soares da Silva Filho vê neste cenário uma “oportunidade estratégica” para acelerar o entendimento entre os dois blocos e dar novas oportunidades e cenários comerciais para o mercado brasileiro.

A proposta de acordo de livre comércio entre a UE e o Mercosul, que continua por ratificar após décadas de negociações, surge como instrumento central para “reequilibrar as relações económicas internacionais e fortalecer a cooperação Sul- Norte”, vinca o responsável.

Para Otacílio, a entrada em vigor do acordo UE-Mercosul poderia servir como “âncora regulatória e institucional, promovendo investimentos bilaterais, emprego qualificado e avanços tecnológicos em ambos os blocos”.

O líder da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Brasileira recorda que combinados, Mercosul e União Europeia representariam um mercado de mais de 700 milhões de pessoas e um Produto Interno Bruto próximo dos 22 mil milhões de dólares. Para Otacílio Soares da Silva Filho este potencial deve ser aproveitado com “pragmatismo, superando resistências políticas e barreiras internas”.

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