ECO da Campanha: aborto mancha campanha da AD e Montenegro acaba pintado de tinta verde

As reações ao ataque com tinta de ativistas climáticos dominaram o dia, que foi marcado também por declarações polémicas sobre o aborto por parte do vice-presidente do CDS.

A campanha segue com alguns sobressaltos, sendo que um dos pontos mais surpreendentes do dia foi o “ataque” com tinta verde a Luís Montenegro, por parte de ativistas pelo clima. A AD teve também de lidar com outro evento inesperado: o vice-presidente do CDS defendeu um novo referendo do aborto, numa intervenção que ao que tudo aponta não estava prevista, já que tanto Nuno Melo como Montenegro tiveram de se distanciar das declarações e sinalizar que este tema não está no programa da AD nem seria tratado nesta legislatura.

O dia foi ainda marcado pela aparição do Presidente da República, que andava atipicamente silencioso nas últimas semanas, na Bolsa de Turismo de Lisboa, onde comentou as declarações de Passos Coelho, deixando também críticas à forma de protesto escolhida pelos ativistas.

Tema quente

Vice do CDS defende referendo a aborto mas Nuno Melo assegura que tema está fora do programa

No dia em que Luís Montenegro foi atingido por tinta verde, um dos assuntos que dominou o dia foi o aborto. O vice-presidente do CDS pronunciou-se sobre o assunto numa intervenção inesperada que até teve de ser justificada pelo presidente do partido: o aborto “não consta do acordo de coligação e não é tema para a próxima legislatura”, disse Nuno Melo. “É um assunto que está absolutamente arrumado”, rematou depois Montenegro.

Tal não impediu as reações dos restantes partidos, que criticaram o retrocesso. Pedro Nuno Santos defendeu que um referendo seria um “regresso ao passado”, ao tempo “das prisões, do risco de vida para a mulher e à criminalização”. Já Paulo Raimundo sinalizou que o tema ficou resolvido há 17 anos e apontou que “quem não tem nada a propor, propõe andar para trás”.

A figura

Paulo Núncio

O antigo secretário de Estado dos Assuntos Fiscais de Passos Coelho, Paulo Núncio, tem feito parte da campanha da AD no que diz respeito às questões económicas. Mas desta vez pronunciou-se sobre o aborto, num debate promovido pela Federação Portugal pela Vida (FPV), defendendo um novo referendo. “A única forma de nós revertermos [a despenalização do aborto] passará por um novo referendo, para conseguirmos ganhar como ganhámos em 98″, disse.

A frase

“Ao fim de tanto tempo, como nunca houve na democracia portuguesa, os portugueses sabem exatamente o que sentem sobre os candidatos”.

Marcelo Rebelo de Sousa

A surpresa

Montenegro atingido com tinta verde

O presidente do PSD e líder da Aliança Democrática (AD), Luís Montenegro, foi atingido por tinta verde numa ação de protesto organizada por ativistas pelo clima na BTL, em Lisboa, em plena campanha eleitoral para as legislativas. De acordo com a PSP, o ativista responsável foi detido pelas autoridades, enquanto outros quatro foram intercetados.

“Por mais tinta que me atirem, eu vou seguir o mesmo caminho”, reagiu Montenegro, recordando que a “preocupação ambiental” tem estado presente no programa do PSD há 50 anos. “Tenho todo o respeito pelas pessoas que se manifestam pelo clima, mas era mais fácil podermos conversar”, atirou. O líder da AD vai apresentar queixa-crime contra os ativistas, ao contrário dos ministros Duarte Cordeiro e Fernando Medina, que numa situação semelhante, optaram por não o fazer.

Luís Montenegro reage após ter sido atingido por tinta à chegada à Feira de Turismo de Lisboa (BTL) durante campanha da Aliança Democrática (AD). Portugal, 28 de fevereiro de 2024.EPA/ANDRE KOSTERS 28 fevereiro, 2024

Prova dos 9

“Nenhum partido tem um plano adequado à realidade climática. Nenhum programa político prevê como vamos fazer a transição justa nos prazos da ciência.”

Vicente Magalhães, Fim ao Fóssil

O prazo “da ciência” que a organização, que foi responsável pelo incidente com tinta a Montenegro, defende é que se deve “ter um plano para fim ao fóssil até 2030”. No entanto, esta meta já tinha sido criticada por Francisco Ferreira, presidente da associação ambientalista Zero, que sinalizou numa entrevista ao Capital Verde que “o Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC), não diz em lado nenhum que temos de atingir a neutralidade climática em 2030 para conseguirmos limitar o aquecimento em 1,5 graus Celsius”.

O IPCC, uma organização científico-política criada pelas Nações Unidas, diz que “em trajetórias modelo sem superação ou superação limitada de 1,5°C, as emissões líquidas globais de CO2 diminuem cerca de 45% em relação aos níveis de 2010 até 2030 (intervalo interquartil de 40-60%), atingindo neutralidade carbónica por volta de 2050 (intervalo 2045-2055). Ora os “prazos da ciência” podem ser considerados 2045-2050 para atingir o net zero. E, olhando para os programas eleitorais, existem vários partidos que planeiam medidas para a transição energética e climática, sendo que o PAN e o Livre até apelam a uma antecipação das metas.

No programa do PAN, preveem-se medidas para “assegurar a neutralidade climática em 2045, procurando assegurar a antecipação desta meta com garantia de uma transição justa e de que até 2035 toda a eletricidade do país provém de fontes de energia renovável”. Além disso, querem “criar um fundo nacional de transição justa que permita assegurar a reintegração profissional dos/das trabalhadores/as afetados/as pela crise climática”, bem como um Fundo de Transição Justa para a Agricultura e Pecuária.

Já o Livre prevê inúmeras medidas para a transição justa e ecológica, defendendo inclusivamente que se deve “reivindicar a adesão dos Estados-Membros da União Europeia à Neutralidade Carbónica no máximo em 2040, em cumprimento e antecipando a estratégia para a neutralidade carbónica da União Europeia mas incluindo a consideração do transporte aéreo e marítimo na pegada carbónica dos países”.

O PS inscreveu no programa a intenção de alcançar a transição justa, definindo algumas metas como “reduzir a intensidade energética em 2% até 2030” e “mobilizar, até 2030, investimento privado de 60 mil milhões de euros nas energias renováveis. O Bloco tem também várias medidas para a transição, nomeadamente a criação do Programa Nacional para a Transição Justa, com apoios sociais e formação. A CDU, por sua vez, quer que se defina um Plano Energético Nacional, sendo que os Verdes têm também um manifesto ecologista com muitas propostas neste sentido, incluindo “defender intransigentemente o não aumento da temperatura média do Planeta em mais de 1,5ºC estabelecido no acordo de Paris”.

À direita, a AD assume as metas previstas no Pacto Ecológico Europeu, que são de neutralidade carbónica em 2050, prevendo medidas para tal. A IL também menciona várias vezes a transição energética no seu programa, com medidas como “simplificar toda a burocracia associada à instalação de energias renováveis”, enquanto o Chega defende que a “transição para uma economia com consumos energéticos eficientes é inevitável e desejável”, ainda que considere que tem sido feita de forma injusta.

Conclusão: Errado

Norte-Sul

Vários candidatos começaram o dia por Lisboa, sendo que a IL e o PAN ficaram-se pela capital, enquanto o Bloco ainda foi também a Santarém e a AD (depois do incidente com os ativistas na BTL) tinha visitas marcadas a Setúbal e Évora. Já Pedro Nuno Santos visitou Leiria e Santarém, enquanto o Chega e o Livre estiveram pelo norte, em Viana do Castelo e Vila Real.

Já Paulo Raimundo esteve em Santiago do Cacém, seguindo depois para um desfile da CDU em Portimão e um jantar-comício em Silves. Rui Tavares, por sua vez, participou num debate sobre Ensino Superior, na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro.

Para amanhã, a CDU e o Bloco mantêm-se por Lisboa, enquanto a Iniciativa Liberal vai a Setúbal, tendo a tarde programada para a capital. Montenegro começa o dia em Ansião, seguindo depois para Leiria, Rio Maior à tarde e Ourém à noite. Pedro Nuno Santos, por sua vez, tem ações marcadas em Évora e Portalegre.

Já André Ventura continua pelo norte, desta vez em Bragança, tendo um jantar-comício marcado para a noite na Guarda. O PAN estará por Coimbra e o Livre em Beja e Faro, tendo previstas ações na Universidade do Algarve.

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