Exclusivo Empresa de handling Menzies pediu adiantamento à TAP por necessidade de tesouraria
A Menzies Portugal, ex-Groundforce, pediu em janeiro à TAP que adiantasse o pagamento de uma fatura. Companhia aérea assinala que "o plano de reestruturação da empresa sofreu um atraso considerável".
A TAP fez em janeiro o adiantamento do pagamento de uma fatura à Menzies Aviation Portugal, a antiga Groundforce, devido a constrangimentos de tesouraria da empresa de handling, apurou o ECO junto de fontes conhecedoras do processo.
A SPdH, designação societária da empresa de serviços em escala, tem em marcha um plano de recuperação, aprovado pelos credores, que levou à entrada de um novo acionista, a britânica Menzies Aviation, que é detida pela Agility, uma empresa do Kuwait. De acordo com o plano, o novo investidor, que ficou com 50,1% da SPdH, tinha o foco de “recuperar a imagem de marca e toda a credibilidade, estabilidade e capacidade financeira” da antiga Groundforce. Os restantes 49,9% pertencem à TAP.
Seis meses depois de ter assumido a gestão, a Menzies Aviation Portugal (SPdH) teve em janeiro de pedir um pagamento adiantado superior a 1 milhão de euros à TAP para fazer face a constrangimentos de tesouraria, segundo apurou o ECO junto de fontes conhecedoras do processo. Uma prática que chegou a ser usada antes da insolvência, declarada em agosto de 2021, a pedido da TAP.
Ao que o ECO apurou, o pedido, apesar de correspondido, criou mal estar na TAP, dada a importância da agora Menzies Aviation para a operação da companhia aérea, já que é esta que assegura o check-in e embarque dos passageiros, o carregamento e descarregamento das malas ou o abastecimento e reboque das aeronaves. Se, por alguma razão, o handling parar, os voos têm de ser cancelados.
O plano de reestruturação da SPdH sofreu um atraso considerável, por condições externas à empresa – tribunais e outros e, naturalmente, tem de se ajustar a prática em conformidade. A TAP tem toda a confiança na Menzies para executar o plano que a definiu como compradora da SPdH.
O ECO questionou a Menzies Aviation Portugal e a TAP, para aferir se o adiantamento se tratou de um episódio pontual ou repetido e qual o motivo para a dificuldade de tesouraria. A Menzies não quis responder. Fonte oficial da companhia aérea respondeu que “o plano de reestruturação da SPdH sofreu um atraso considerável, por condições externas à empresa – tribunais e outros e, naturalmente, tem de se ajustar a prática em conformidade”. A companhia aérea acrescentou que a “TAP tem toda a confiança na Menzies para executar o plano que a definiu como compradora da SPdH“.
O processo nos tribunais foi, efetivamente, demorado. Os credores aprovaram o plano em setembro de 2023, mas o processo dilatou-se ainda vários meses devido aos sucessivos recursos interpostos pela Pasogal, do empresário Alfredo Casimiro, que detinha 50,1% da antiga Groundforce, atrasando o trânsito em julgado da sentença de homologação do plano.
Pagamento de dívidas, aumento de custos e um desconto
A tesouraria da empresa é pressionada pelo plano de pagamento faseado das dívidas aos credores — trabalhadores (2,87 milhões), ANA (12,8 milhões), TAP (15,5 milhões) e Segurança Social (6,2 milhões), para referir apenas os maiores — previstos entre 2023 e 2029. Para o primeiro ano eram estimados 5,23 milhões, mas uma vez que o plano só foi homologado em 2024, só nesse ano a SPdH começou a ter de pagar aos credores. Para os dois anos seguintes estavam contemplados 2,36 milhões.
Há outros fatores que pressionam as contas da SPdH. A Menzies Aviation foi a escolhida pelos administradores de insolvência e os credores para adquirir 50,1%, num processo em que enfrentava a concorrência da Swissport. O plano de reestruturação passou por negociações quer com os credores quer com os trabalhadores, que seriam protagonizadas pelos atuais responsáveis, nomeadamente o vice-presidente para Portugal da Menzies Aviation, Rui Gomes, que lidera a empresa desde junho.
No âmbito do plano, foi assinado com a TAP um novo contrato com alterações às tarifas de serviços a partir de janeiro de 2025. Ao que o ECO apurou, a companhia aérea passou a beneficiar de um desconto comercial de 5% este ano, 10% em 2026 e 15% a partir de 2027.
Este desconto tem um impacto relevante, porque a TAP representa cerca de 70% das receitas da SPdH, como assinala o próprio plano apresentado pelos administradores de insolvência. Assumindo a previsão do volume de negócios para 2024, de 174 milhões de euros, um desconto de 5% na fatia correspondente à TAP significa menos 6,1 milhões. O próprio plano de insolvência aponta para um decréscimo no volume de negócios entre 2024 e 2027, apesar do crescimento do tráfego aéreo. Segundo os dados da ANA, o número de movimentos nos aeroportos nacionais aumentou 1,1% em 2024 e 1,9% do conjunto dos primeiros dois meses de 2025.
Se o desconto comercial implica prescindir de receita, o novo Acordo de Empresa com os sindicatos, negociado pela Vieira de Almeida em representação dos acionistas, significou um acréscimo de custos. Num comunicado enviado aos associados a 4 de junho, o mesmo dia em que se consumou a entrada do novo acionista, o Sindicato dos Trabalhadores da Aviação e Aeroportos (SITAVA) e o Sindicato dos Trabalhadores de Handling, da Aviação e Aeroportos (STHAA) contabilizavam “mais cerca de 4,9 milhões de euros em ganhos” em 2024, face ao ano anterior. Um montante decorrente da atualização salarial, aumento do subsídio de alimentação, anuidades (antigas e novas) ou evoluções de carreira.
O impacto deste encargo adicional seria compensado pela saída de 300 colaboradores, sobretudo com maior antiguidade na empresa e vencimentos mais elevados, prevista no plano de reestruturação, mas que ficou praticamente em metade. Segundo uma resposta enviada pela Menzies em março, até ao primeiro trimestre só cerca de 160 aceitaram as condições propostas pela empresa, que reservou 9,5 milhões para o pagamento das indemnizações.
A Menzies, que se fundiu com a National Aviation Services do Kuwait, é a maior empresa de serviços de aviação do mundo por número de países (65) e a segunda maior em número de aeroportos atendidos (300).
Segundo os sindicatos contactados pelo ECO, o programa de rescisões foi entretanto suspenso, tendo a empresa avançado em meados de março com um despedimento coletivo de 10 colaboradores, que desempenham funções que considera “redundantes” no novo quadro de atividade internacional do grupo. O plano de reestruturação estimava poupanças de 1,2 milhões com a entrada da Menzies no capital da SPdH “em resultado de sinergias entre áreas potenciadoras de ganhos de eficiência operacional”.
A empresa britânica, que se fundiu com a National Aviation Services do Kuwait, é a maior empresa de serviços de aviação do mundo por número de países (65) e a segunda maior por número de aeroportos atendidos (300). As receitas cresceram 20% em 2024, para 2,6 mil milhões de euros. O EBITDA foi de 382 milhões, com uma margem de 15%, segundo os únicos indicadores financeiros divulgados esta semana.
A Menzies e a TAP comprometem-se, no plano de recuperação, a realizar suprimentos caso seja necessário reforçar os capitais próprios ou para investimentos, na proporção da sua participação acionista. No caso da empresa britânica, o reforço é limitado a 10 milhões de euros e no da transportadora a 9,96 milhões, esta última através da conversão de créditos em capital.
O ECO questionou as empresas sobre esta possibilidade, mas não obteve resposta. Foi contactado também o Ministério das Infraestruturas, que remeteu para a companhia aérea por tratarem-se de temas da gestão.
Está a decorrer o concurso público para a atribuição das licenças de handling nos aeroportos de Lisboa, Porto e Faro. Menzies, Acciona, Clece e Swissport foram selecionadas para a fase seguinte, segundo noticiou o Jornal Económico em fevereiro.
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