Bolsa de Lisboa brilha na tempestade criada por Trump

Com taxas de dividendos elevadas e fundamentais atrativos, o PSI destacou-se no primeiro trimestre e apresenta argumentos para continuar a ser um refúgio em tempos de incerteza.

A história do primeiro trimestre nos mercados financeiros internacionais parece uma montanha-russa que culminou num vale profundo. Enquanto Wall Street registou o pior desempenho trimestral desde 2022, com o S&P 500 e o Nasdaq a caírem 8,4% e 12% (em euros) respetivamente, o português PSI brilhou como um autêntico oásis, fechando os primeiros três meses do ano em terreno positivo e conseguindo o feito raro de terminar positivo em cada um dos três meses do ano – uma exceção entre os principais índices acionistas.

“O mercado português não é dos mais expostos à economia americana, pelo que é natural que tenha sido um dos menos voláteis neste período”, justifica Pedro Barata, gestor do fundo de ações nacionais GNB Portugal Ações, para a destreza do PSI entre janeiro e março.

A turbulência nos mercados tem sido largamente atribuída às novas políticas comerciais impostas pela administração Trump. “Os investidores renderam-se largamente durante este primeiro trimestre, já que a negociação tornou-se bastante desafiante”, referiu Adam Turnquist, analista da LPL Financial, à Reuters.

As emblemáticas “7 Magníficas”, que impulsionaram os mercados nos últimos dois anos, exerceram desta vez uma pressão negativa sobre as bolsas norte-americanas, com os investidores a desfazerem-se das ações destas empresas, empurrando os títulos para uma queda média de 15,7% nos primeiros três meses do ano. A Tesla, por exemplo, caiu quase 36% no trimestre.

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O calendário não poderia ser mais simbólico. Foi precisamente para o final do primeiro trimestre que Donald Trump preparou o terreno para o que denominou “Dia da Libertação” de 2 de abril, marcando a entrada em vigor de uma série de tarifas abrangentes que prometem afetar o comércio global. “2 de abril é um dia libertador para o nosso país”, afirmou Trump, garantindo que as tarifas vão incidir “essencialmente sobre todos os países”. Entre as medidas mais impactantes está a imposição de uma taxa de 25% sobre todos os carros exportados para os EUA, a partir desta terça-feira.

Até agora, já entraram em vigor taxas aduaneiras de 20% sobre os bens importados da China, assim como uma taxa de 25% sobre o aço e o alumínio e outra de 25% sobre as importações canadianas e mexicanas. Trump também ameaçou aplicar tarifas de 200% sobre “todos os vinhos, champanhe e produtos alcoólicos”, num post publicado na sua rede social “Truth Social”.

Numa altura em que a volatilidade aumenta é natural que os investidores privilegiem os mercados mais defensivos e que ofereçam um bom retorno via dividendos. E neste último ponto, não há outro como o mercado português.

Pedro Barata

Gestor do GNB Portugal Ações

Neste contexto de turbulência global, o índice português PSI destacou-se como uma rara exceção, fechando março em alta e conseguindo um feito invulgar: não só foi o único índice entre os mais populares a fechar março com ganhos como o único a terminar positivo nos três meses do trimestre.

“O PSI foi, em primeiro lugar, beneficiado pela rotação em favor dos mercados acionistas europeus, reduzindo assim uma parte da underperformance dos últimos anos”, explica Virgílio Garcia, gestor do fundo Sixty Degrees Ações Portugal. “Ao mesmo tempo, em especial em março, o PSI foi ‘premiado’ por não ter exposição ao setor tecnológico e outros setores mais penalizados na queda“, acrescenta.

As armas do PSI que atraem os investidores

Os indicadores fundamentais do índice nacional também ajudam a explicar a resistência do PSI neste arranque de ano. Atualmente, o índice da Euronext Lisboa negoceia com uma taxa de dividendo média de 4,35% e com uma cotação equivalente a 11 vezes os resultados por ação (PER). O pan-europeu Stoxx Europe 600, por exemplo, transacionada com uma taxa de dividendo de 3,32% e um PER de 16,5 vezes, enquanto o Euro Stoxx 50 apresenta uma taxa de dividendo de 3,1% e um PER de 16,2 vezes.

“Numa altura em que a volatilidade aumenta é natural que os investidores privilegiem os mercados mais defensivos e que ofereçam um bom retorno via dividendos. E neste último ponto, não há outro como o mercado português”, refere Pedro Barata, sublinhando que “as empresas portuguesas são tradicionalmente generosas com os seus acionistas.”

Um fator que parece estar a sustentar o desempenho positivo do PSI é a política de dividendos das empresas portuguesas cotadas no principal índice da Euronext Lisboa. Mesmo com os lucros do ano passado das cotadas do PSI a reduzirem-se em cerca de 28%, a remuneração acionista vai aumentar em quase 8% face ao ano anterior.

Existem razões para acreditar que o índice [PSI] poderá continuar a ter uma performance relativa mais favorável que os seus congéneres europeus no resto do ano.

Virgílio Garcia

Gestor do Sixty Degrees Ações Portugal

As cotadas do PSI que já anunciaram as suas políticas de dividendos propõem-se a pagar 2,9 mil milhões de euros, dando continuação à tendência de subida que se tem registado desde 2021. Este é um sinal de “resiliência” por parte das cotadas portuguesas, refere Carlos Pinto, gestor do Portugal Golden Opportunities, que classifica o mercado português como “muito sensível à remuneração acionista e que tem, por isso, vindo a preservar o dividendo”.

A NOS NOS 0,00% destaca-se neste aspeto, mantendo-se pelo quarto ano consecutivo como a cotada com maior taxa de dividendos por ação do PSI. Além do pagamento de 35 cêntimos, à semelhança do que aconteceu em 2023, a operadora pretende pagar um dividendo extraordinário de 5 cêntimos.

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Como navegar em águas turbulentas

É difícil antecipar como será o comportamento do PSI no resto do ano, mas Pedro Barata ressalva que “se a volatilidade do mercado se mantiver elevada, é natural que a performance do mercado português continue a destacar-se fruto do seu perfil mais defensivo.”

Para Virgílio Garcia, após o PSI ter acabado o trimestre com uma rendibilidade semelhante à média europeia, tendo recuperado em março da underperformance que se fez sentir nos 2 primeiros meses, refere que “existem razões para acreditar que o índice poderá continuar a ter uma performance relativa mais favorável que os seus congéneres europeus” ao longo do ano.

No entanto, o gestor faz um importante alerta: “Será, no entanto, pouco realista que a performance se mantenha positiva se entrarmos efetivamente num bear market de ações”, ressalvando, no entanto, que “este não é o nosso cenário central.”

Para os pequenos investidores, o desempenho alcançado pelo PSI no primeiro trimestre traz um alento num momento de incerteza global, mas os especialistas recomendam cautela. Sobretudo porque a volatilidade deve continuar alta, especialmente enquanto o impacto real das tarifas de Trump não for completamente absorvido pelos mercados.

Num cenário onde a incerteza parece ser a única certeza, o mercado português oferece uma combinação de valorização atrativa e taxas de dividendos atrativas que pode representar um porto seguro para investidores que procuram estabilidade. No entanto, como sempre, a diversificação continua a ser a melhor estratégia para navegar em períodos de turbulência.

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