• Entrevista por:
  • António Ferreira

Ana Paulo (Zurich): “Temos vindo a conhecer melhor as necessidades das pessoas”

A negociação com clientes empresariais foca-se sempre em variáveis cada vez mais necessárias ao bem-estar dos colaboradores e suas famílias e as seguradoras devem para assegurar futuro.

Ana Paulo, administradora Zurich Vida: “vai ser necessário dar um passo mais além na proteção dos trabalhadores, através de uma maior colaboração com os governos e outros parceiros.”Raquel Wise 4SEE

Licenciada em Matemática Aplicada, Ana Paulo está na atividade seguradora desde 1987. Atuária, assumiu a gestão do negócio Vida em 1994 e, três anos depois, integrou a Direção da Zurich em Portugal. Atualmente é Head of Life e membro do conselho de administração da Zurich – Companhia de Seguros Vida.

A preocupação com as questões sociais e ambientais é compromisso assente no grupo Zurich. No entanto, investigação desenvolvida pela companhia suíça e publicada no relatório Workforce Protection sustenta que a pandemia agravou vulnerabilidades sociais a que urge dar resposta. ECO Seguros falou com a administradora da Zurich Vida para enquadrar a ação da empresa no contexto do “novo contrato social”, desafio formulado globalmente pelo Zurich Insurance Group.

Ana Paulo salienta que as propostas contidas no estudo convergem com alguns pontos do Compromisso Social do Porto, subscrito por entidades e instituições europeias na Cimeira Social da UE, em maio. A “identificação de necessidades e soluções é muito semelhante – há, pelo menos, dois pontos que se tocam: a tão necessária formação e requalificação de adultos e as parcerias público-privadas para aliviar a pressão sobre os governos”.

O estudo do grupo Zurich identifica necessidades sociais e pede respostas. Considera que existe oportunidade para uma reformulação das soluções no mercado de seguros?

Sim, consideramos que há várias oportunidades para reformular as soluções de seguros existentes e, mesmo, para desenvolver novas soluções. Comecemos por duas conclusões do estudo Workforce Protection. Primeiro, a pandemia veio expor, e até agravar, lacunas nos sistemas de saúde pública e de proteção social em muitos países do mundo. Segundo, a pandemia evidenciou também novos riscos e necessidades de proteção dos profissionais que não têm empregos tradicionais, como os trabalhadores independentes, os trabalhadores com empregos temporários ou os trabalhadores a tempo parcial.

Face a este cenário, o estudo Workforce Protection sugere a revisão da proteção dos trabalhadores e a criação de um novo contrato social, que se concretiza numa ampla cooperação entre governos, empregadores, seguradores e comunidades no apoio aos desgastados sistemas de segurança social, para que estes possam assegurar uma resposta de proteção social mais flexível e segura, capaz de apoiar as pessoas ao longo da sua vida profissional.

"o Workforce Protection sugere desenvolver seguros que cubram as necessidades específicas de trabalhadores independentes, trabalhadores com empregos temporários, trabalhadores a tempo parcial, mudanças de emprego, reduções ou interrupções de vencimentos e pausas na carreira”

A resposta terá de passar pelo reforço da proteção social, de forma a garantir que os trabalhadores mais vulneráveis consigam ter acesso a uma fonte de rendimento e a cuidados de saúde. Dentro deste reforço está a adoção de seguros relacionados com a saúde, invalidez, proteção dos rendimentos e de dependentes, que seriam disponibilizados através de programas de proteção social geridos e apoiados por governos, empregadores e seguradores. Como até aqui não temos desenvolvido este tipo de soluções de seguros, a necessidade e a oportunidade existem.

No âmbito da colaboração institucional, envolvendo governos e empregadores, que parte caberia ao setor segurador?

Atualmente, o setor segurador assume um papel de parceiro das empresas na proteção dos seus colaboradores, através da disponibilização de uma oferta alargada de soluções de seguro e do incentivo a uma maior literacia financeira dos colaboradores, no sentido de consciencializá-los para a importância de se protegerem nos diversos momentos da sua carreira e da sua vida.

Mas vai ser necessário dar um passo mais além na proteção dos trabalhadores, através de uma maior colaboração com os governos e outros parceiros, no sentido de explorar quadros de proteção social mais atuais, mais adaptados ao mundo em que vivemos e desenhados para as diferentes fases da vida das pessoas, aliviando desta forma a pressão dos governos na resposta às necessidades de proteção dos cidadãos.

Para alcançar este objetivo, será necessária uma resposta conjunta aos desafios que a pandemia da Covid-19 despoletou, nomeadamente a rápida digitalização da economia, a necessidade de formação contínua e a fragilidade dos sistemas nacionais de proteção social.

A companhia planeia, ou tem em curso, iniciativa institucional junto do governo, empregadores e setor segurador para abordar as propostas do relatório Workforce Protection?

Uma vez que as políticas desta área são inicialmente trabalhadas ao nível europeu, a Zurich integra vários grupos de trabalho internacionais e nacionais onde este tema emergente tem sido amplamente debatido ao longo dos últimos anos. Para lhe dar um exemplo concreto: apesar do estudo Workforce Protection ter sido realizado antes da assinatura do Compromisso Social do Porto, a identificação de necessidades e soluções é muito semelhante – há, pelo menos, dois pontos que se tocam: a tão necessária formação e requalificação de adultos e as parcerias público-privadas para aliviar a pressão sobre os governos.

Em Portugal debatemos também este tema com os nossos Parceiros de Negócio nos eventos que realizamos, fazendo a ponte entre este risco e a importância da literacia financeira. Nas negociações com os nossos clientes empresariais também colocamos sempre a importância dos fundos de pensões, a literacia financeira e os seguros como benefícios de proteção dos colaboradores como variáveis cada vez mais necessárias no bem-estar dos colaboradores e suas famílias.

Na prática, com esta investigação, temos vindo a conhecer melhor as necessidades das pessoas que estão na vida profissional ativa, em particular num período de tanta mudança. A divulgação destes resultados irá, certamente, permitir aos diferentes intervenientes no mercado refletir sobre as respostas a dar, adaptando produtos e serviços de modo a ir de encontro aos requisitos dos clientes.

O projeto baseado em investigação já leva cinco anos e está a contribuir para uma reflexão aprofundada sobre os atuais seguros de proteção de quem está na vida profissional ativa, a sua melhoria ou até o desenho de novas soluções. Como os modelos de trabalho estão muito diferentes do “emprego para toda a vida”, o Workforce Protection sugere desenvolver seguros que cubram as necessidades específicas de trabalhadores independentes, trabalhadores com empregos temporários, trabalhadores a tempo parcial, mudanças de emprego, reduções ou interrupções de vencimentos e pausas na carreira.

Isto pode passar não só pela proteção dos rendimentos e dos ativos das pessoas perante os riscos de morbidade e mortalidade na vida ativa, doenças críticas, acidentes, incapacidade e proteção de rendimento que inclua despesas de saúde, como também na melhoria dos atuais produtos vida que, apesar de proporcionarem coberturas semelhantes, estão relacionados com elementos de poupança ou de investimento.

Para que as propostas se concretizem, o que falta fazer?

As parcerias sugeridas no estudo passam pelo desenvolvimento de programas robustos de proteção a curto e longo prazo, com apoio repartido pelas diferentes partes, ou seja, pelo governo, seguradores, empregadores – através da oferta de soluções de proteção englobadas nas suas políticas de benefícios -, e até mesmo pelos cidadãos. Segundo a nossa investigação, esta seria uma forma de garantir proteção financeira e acesso a cuidados de saúde para os trabalhadores mais vulneráveis.

Dentro destes programas podem incluir-se medidas como seguros relacionados com a saúde, invalidez, proteção dos rendimentos e de dependentes, reduzindo desta forma os encargos do Estado face aos custos e impactos que cenários de novas crises possam trazer.

Tudo isto só será possível com mudanças sistémicas fundamentadas em três grandes pilares: numa Segurança Social que consiga responder à proteção que as pessoas precisam, em empresas que oferecem, de forma estruturada, fundos de pensões aos seus colaboradores e na literacia financeira que leve a maiores níveis de poupança individual. São desafios complexos, mas não impossíveis de resolver.

  • António Ferreira

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