André Jordan: “Foi a corrupção do PT que criou as condições para a candidatura de Bolsonaro”

Este domingo decorre a segunda volta das eleições presidenciais brasileiras. Bolsonaro vai à frente nas sondagens. Andé Jordan, empresário brasileiro em Portugal, diz que, se votasse, seria em branco.

É já este domingo que cerca de 147 milhões de brasileiros são chamados a votar para decidir quem será o sucessor de Michel Temer. Será a segunda volta das eleições presidenciais, disputadas entre Fernando Haddad, do Partido dos Trabalhadores (PT), e Jair Bolsonaro, que encabeça o Partido Social Liberal (PSL, de extrema-direita), que obteve 46% dos votos na primeira volta.

Segundo as últimas sondagens, Bolsonaro conta com 54% das intenções de voto, contra 46% para Haddad. Com um discurso radical e medidas autoritárias, o “efeito” Bolsonaro tem preocupado o panorama político internacional. Por cá, algumas personalidades, como deputados, académicos ou escritores, como Manuel Alegre, Freitas do Amaral ou Francisco Pinto Balsemão, assinaram, inclusive, um manifesto onde apelam à derrota do candidato, e onde pode ler-se que Bolsonaro “promove o elogio da tortura e da ditadura” e que “propõe a discriminação das mulheres e o desprezo pelos pobres, representando uma cultura de ódio”.

André Jordan não consegue, para já, antever qualquer cenário. O empresário brasileiro de 85 anos, considerado o “pai” do turismo em Portugal, fala ao ECO sobre o estado do seu país de origem e o que espera destas eleições. Admite que nunca deixará de voltar ao Brasil, mesmo que Bolsonaro ganhe, e explica que foi o estado da corrupção que deixou o PT mal visto.

Domingo é um dia decisivo para a história da democracia do Brasil. Votar em Fernando Haddad é a única solução para fugir a um regime do “medo”?

Havia um grande humorista brasileiro no tempo da minha juventude que se intitulava o “Barão de Itararé”. E publicava num jornal semanal humorístico, como aquele suplemento do Público — o Inimigo Público — e, um dia, um deles tinha o título: “Os devassos estão com medo das devassas”. Nós estamos agora um pouco nessa situação. No Brasil, têm medo uns dos outros. A direita tem medo de Haddad, e a esquerda tem medo de Bolsonaro. Os dois representam problemas. O Brasil está numa situação muito difícil e nunca teve uma escolha tão fraturante como esta. As posições no Brasil estão muito extremadas e, portanto, não sei…

Por que é que para a maioria dos brasileiros votar no PT não é sequer uma hipótese?

O maior problema, e o que criou as condições para a candidatura do Bolsonaro, foi a corrupção. É preciso não esquecer isso. O Bolsonaro durante 20 anos foi um deputado obscuro. Ninguém sabia quem ele era. Congregava apenas um pequeno núcleo de eleitores porque era um saudosista da ditadura militar, mas era inexpressivo. Hoje o grau de corrupção chegou a tal ponto e tal é a insegurança… Quando o volume de bandidos é superior ao número de polícias, a população sente-se indefesa e o Bolsonaro promete entrar com um regime autoritário. As pessoas querem ouvir isto, porque não se pode imaginar lutar contra essa insegurança com um regime benigno, tem de ser um regime autoritário, o que é muito mau para o país. É mau e os dois lados têm grandes culpas. O PT, que esteve envolvido no Lava Jato, é o responsável político por essa situação.

É o efeito Trump a repercutir-se?

Não, Trump é um outro fenómeno. O Trump não é verdadeiramente autoritário, o Trump é arbitrário (risos). Ele é a favor de todas as medidas que favoreçam os seus negócios e os negócios dos seus apoiantes. Agora, acho que o Trump não influencia neste caso. Penso que o povo normal brasileiro, o povo trabalhador, conhece o Trump muito vagamente.

Vai ser preciso um certo grau de austeridade, que as exportações internacionais aumentem e que os juros não disparem. O Brasil tem um superávite bastante importante, não tem interesse nenhum em gastá-lo. É preciso bom senso, conhecimento e apoio às empresas para que o Brasil, passo a passo, recupere e preserve, na medida do possível, os programas sociais, como a bolsa família e o programa casa. É aí onde reside a esperança do PT e o seu apoio popular.

André Jordan

Também vota nestas eleições, certo?

Não voto porque há alguns anos deixei caducar o meu título eleitoral. Voto só em Portugal e voto em todos os níveis.

Se pudesse votar no Brasil, o que é que votaria?

Não votaria em nenhum dos dois candidatos.

Votaria em branco, é isso?

Votaria em branco, sim.

Segundo as últimas sondagens, Haddad está pela primeira vez à frente de Bolsonaro nas intenções de voto na cidade de São Paulo. A “virada” ainda é possível?

Em eleições nunca se pode dizer nunca porque tudo é possível acontecer até ao fim. É possível, mas não acho provável.

Se Bolsonaro ganhar, o que podemos esperar do Brasil?

Temos de rezar… Bolsonaro não tem sido feliz nas declarações que tem feito nos últimos dias e mostrou fraqueza por ter recusado o debate. Podemos esperar que prevaleça o bom senso, a contenção, o respeito pelos valores da sociedade, pelos direitos da mulher e dos trabalhadores, pelas oportunidades. Esperar que o Bolsonaro governe democraticamente e consiga conter a violência que permanece no Brasil.

Nesse cenário equaciona voltar?

Volto sempre. Hoje em dia, aos 85 anos, viajo muito menos, como é natural. Mas volto sempre ao Brasil, tenho lá família, amigos e casas. E sempre voltarei ao Brasil como sempre ficarei em Portugal, onde passei mais de metade da minha vida. O desassossego e o perigo no Brasil já existem desde sempre.

Neste contexto político, o que é que podemos esperar para a economia brasileira?

Que deus ajude!… Penso que vai ser preciso um certo grau de austeridade, que as exportações internacionais aumentem e que os juros não disparem. O Brasil tem um superávite bastante importante, não tem interesse nenhum em gastá-lo. É preciso bom senso, conhecimento e apoio às empresas para que o Brasil, passo a passo, recupere e preserve, na medida do possível, os programas sociais, como a bolsa família e o programa casa. É aí onde reside a esperança do PT e o seu apoio popular.

Se Haddad ganhar será o “mal menor”?

Não consigo avaliar. Responsabilizo o PT pelo crescimento da corrupção, que sempre existiu, mas num determinado nível que o país considerava tolerável. Agora deixou de o ser. Bolsonaro não tem fama de ser corrupto, mas promete medidas autoritárias que não serão boas para o Brasil nem para o mundo. Acho que estamos entre… (pausa). Não sou capaz de avaliar qual será o mal menor.

Se pudesse deixar uma mensagem aos brasileiros qual seria?

Que votem! Um dos grandes problemas eleitorais no Brasil, e mesmo nos Estados Unidos ou em Portugal, é que metade da população não vota. Esse é um dos desafios mais importantes na democracia.

Queria só acrescentar que nunca o interesse que os portugueses estão a mostrar pela política brasileira foi tão grande, nem o seu envolvimento emocional neste assunto. Isso é muito importante, ao nível social, cultural e político. Quanto mais Brasil e Portugal se integrarem melhor para os dois países.

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