• Entrevista por:
  • Marta Santos Silva

“No Brasil, esta pode ser a a eleição das fake news”, diz especialista brasileiro em análise de dados

Os grupos de família no Whatsapp têm um papel importante na disseminação de notícias falsas em vésperas de eleição no Brasil, conta ao ECO o especialista Sergio Denicoli.

Na reta final de uma campanha eleitoral no Brasil que movimenta até deputadas no Parlamento português e cidadãs em Portugal pela hashtag #EleNao contra o candidato Jair Bolsonaro, o que nos dizem as redes sociais e estas mesmas hashtags daquilo que aí vem?

Sergio Denicoli, diretor de Big Data da agência AP Exata, dedicada à análise de dados e que tem tido um papel relevante no mapeamento do apoio aos candidatos nas redes sociais, explicou a ECO, em entrevista por email, que “a retórica das eleições já não é ditada pelos média de massa, mas sim pela internet” e que as fake news são uma realidade incontornável nestas eleições presidenciais no Brasil.

Desde o PT, que foi forçado a abandonar uma candidatura de Lula da Silva e colocou no primeiro plano Fernando Haddad, ao atual favorito Jair Bolsonaro, militar e senador, a campanha eleitoral brasileira tem sido disputada também nas redes. Antes de a nação de mais de 200 milhões de pessoas ir a votos, no dia 7 de outubro, Denicoli ajuda a pensar novas formas de analisar e prever eleições.

De que forma a análise das redes sociais nos pode ajudar a perceber melhor o grau de sucesso de uma campanha eleitoral?

As redes sociais ditam todas as tendências hoje em dia. Nenhum tema tem capacidade de sobressair na agenda de conversas se não for abraçado pelas redes sociais. No caso das eleições, não é diferente. E a disputa eleitoral torna-se ainda mais relevante neste quesito, pelo facto de ser um evento que abarca a toda a população, sobretudo no Brasil, onde o voto é obrigatório.

Pelas redes sociais é possível também identificar as estratégias de marketing dos candidatos, os discursos, as palavras-chave utilizadas, os pontos fortes que estão a ser explorados e os pontos fracos que estão a tentar relativizar ou ocultar.

Além disso, uma vez que as redes se formam por meio da viralização, ao detetarmos algo que está a promover um profundo engagement, de maneira concreta e rápida, sabemos claramente o que funciona, em termos de narrativa eleitoral, e o que não funciona. Portanto, a retórica das eleições já não é ditada pelos média de massa, mas sim pela internet.

Quais as principais formas como os brasileiros usam as redes sociais para expressar o seu apoio ou aversão a candidatos?

Esta pode ser chamada a eleição das fake news. Há imensas fake news, para todos os gostos, tipos e idades. Elas circulam inicialmente pelo Whatsapp — e os grupos de família nessa rede são um dos principais motores de impulsionamento dessas “notícias” — depois ganham força noutras redes, como Facebook, Twitter e Instagram.

As fake news visam principalmente denegrir o opositor, de acordo com o ponto de vista dos grupos para os quais elas são direcionadas. Isso criou um sentimento de que toda a informação é manipulada, inclusive a da imprensa. Os jornais são contestados a todo momento, são colocados sob suspeita, e os factos são postos em causa. Por isso, o facto já não tem tanta importância. O que vale é a interpretação de realidades criadas ou relativizadas. Vivemos numa era da performatização da política, onde quem se balança mais no picadeiro recebe mais atenção e intenções de voto. As propostas ficam em segundo plano.

Existem algumas hashtags ou motes dados que se destaquem nesta campanha? Qual o seu impacto?

A hashtag #EleNao, contra Jair Bolsonaro, mudou o curso das redes. Antes dela, o candidato militar tinha uma hegemonia forte no meio online, com muitas frentes de ataques aos opositores. A #EleNao, criada por um grupo formado por milhões de mulheres que se reuniram no Facebook, acabou por virar uma narrativa de peso na campanha, que se aproveitou de uma forte rejeição que Bolsonaro possui. As ações do grupo têm deixado o candidato numa posição defensiva, contra batalhas levantadas a cada dia, o que é bastante danoso numa disputa tão acérrima.

Como avalia a capacidade das sondagens de prever o resultado de eleições na era de Trump e do Brexit? O Brasil poderá ter a caminho uma “surpresa” semelhante?

Não acredito que as sondagens errem, no caso brasileiro. As movimentações nas redes, que medimos por meio da AP/Exata, que é a empresa que dirijo e que trabalha com análise de big data, têm sido sempre confirmadas pelas pesquisas quantitativas, que estão a ser divulgadas semanalmente. O sistema brasileiro é diferente do sistema eleitoral dos Estados Unidos.

As pessoas votam por paixão, com base em preceitos de cunho pessoal, em detrimento das ideologias.

Se o sistema norte-americano fosse o mesmo do Brasil, Trump não teria sido eleito, pois teve menos votos absolutos que Hillary Clinton. Em relação ao Brexit, também não é possível fazermos uma comparação, pois no Reino Unido o voto é facultativo, e não obrigatório como no Brasil.

Qual dos candidatos apostou mais nas redes e nas novas tecnologias para a sua campanha? Qual aparenta ter sido mais bem-sucedido?

Os candidatos que mais apostaram nas redes foram Jair Bolsonaro e Lula/Haddad. Os demais têm tido uma participação pouco significativa na internet, com falhas estratégicas visíveis. O PT e Bolsonaro compreenderam melhor o espírito da internet e conseguem comunicar-se de maneira mais eficiente com os eleitores que navegam pelos meios online. E isto reflete também no eleitor offline. Cabe ressaltar que a militância desses dois grupos antagónicos tem utilizado fake news, perfis falsos e perfis robôs, em grande volume.

Qual o papel dessas contas falsas ou de robôs, em especial no caso brasileiro?

O papel é o domínio informativo. Ou seja, garantir que algo se torne uma pós-verdade, pela repetição de uma narrativa e por meio da contestação apaixonada de factos. A utilização de um discurso agressivo, de ataque, é também uma estratégia muito utilizada, que tem sido eficiente, em termos de marketing, pois faz calar o outro mediante uma postura mais enérgica, fazendo com que a versão do perfil mais agressivo tenha menos contestação.

Que lições devem ser retiradas desta campanha eleitoral?

A lição principal é que as eleições, a partir de agora, se deverão desenvolver sobretudo dentro do meio online, alimentadas por boatos, fake news, robôs e afins. Sendo as redes essencialmente emocionais, destaca-se o discurso moral sobre o discurso propositivo. Ou seja, as pessoas votam por paixão, com base em preceitos de cunho pessoal, em detrimento das ideologias.

Por outro lado, há uma tendência de retorno dos extremismos, pois para algo sobressair no oceano de informações que circula na internet, é preciso que provoque embate, choque de ideias. Hoje esses extremos autodenominam-se esquerda e direita, num modelo muito diferente do que esses posicionamentos representaram no passado. A dita direita hoje é muito mais de rutura, pregando mudanças radicais nos sistemas dos Estados e atraindo os jovens, enquanto a esquerda se tornou legalista, buscando preservar os direitos das minorias.

  • Marta Santos Silva
  • Redatora

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