“Foi a imagem de que Rui Rio não atua como os outros que inspirou os militantes”

David Justino, mentor da moção estratégica de Rui Rio, considera que o futuro líder do PSD terá de construir uma nova linguagem para se afirmar e romper com o "politiquês que domina a cena".

Foi o responsável pela moção estratégica da candidatura de Rui Rio à liderança do PSD e considera que foi a imagem de que não atua como os outros que inspirou os social-democratas a eleger o antigo autarca do Porto. Em entrevista ao ECO, David Justino diz que Rui Rio terá de construir uma nova linguagem para se afirmar politicamente e romper com o “politiquês que domina a cena”.

Sobre o comentário de Miguel Relvas, que disse que o próximo líder do partido seria a prazo, Justino não duvida de que “foi uma la palissada com segundas intenções”.

Foi uma aposta melhor fazer uma moção mais global e menos detalhada como fez Santana?

Não creio que tenha sido uma aposta. Escolhemos a via tradicional dentro do PSD naquilo que são moções de estratégia. Essas moções devem traçar as grandes linhas, principalmente neste particular contexto em que, se dizemos que havia alguns desvios no posicionamento ideológico e estratégico do PSD, então não vamos pegar em medidas cuja natureza não obedece a uma visão estratégica.

Portanto, a primeira coisa que tivemos de fazer foi definir a visão estratégica e só depois as medidas decorrem dessa visão estratégica. Começar pelas medidas sem ter visão estratégica não faz sentido absoluto nenhum. É muito difícil construir uma visão estratégica a partir das 200 ou 300 medidas.

No plano das medidas, quando é que isso vai começar a ser trabalhado?

Tem de ser trabalhado após o congresso. Uma coisa é podermos lançar duas ou três ideias sobre eventuais medidas que possam ser feitas. Seriam abordagens casuísticas. Agora, de forma sistemática, temos de construir não só uma nova linguagem que rompa um bocadinho com o politicamente correto, com o politiquês que domina a cena, mas temos também de construir propostas que possam ser sustentadas com base em evidência. Não vale a pena ter voluntarismos. Hoje em dia, a decisão política tem de se basear, sobretudo, em evidência e em consensualização. E não vale a pena ter propostas de rutura se não tiverem a força de mobilizarem quem com elas partilha.

As medidas devem fazer parte de um programa eleitoral de Governo. Não de um programa eleitoral a um congresso que tem como principal objetivo definir a estratégia política para os próximos dois anos. Já não era um problema de apostar ou não apostar. Nesse aspeto fomos mais conservadores e somos conservadores no sentido de dizer: “olhe, antes de mais nada, aquilo que temos de fazer é dizer para onde queremos ir, qual é o ponto de situação que fazemos, para onde pretendemos ir e qual é o caminho para lá chegar”. Isso é o que define uma estratégia.

Podíamos ter anunciado uma série de medidas. Os contributos que recolhemos, que foram muitas dezenas, a maior parte deles com medidas. Se tivéssemos juntado todas aquelas medidas, teríamos umas 300 ou 400 medidas. Mas o problema é saber: e então, qual é a estratégia?

Que conselhos deu a Rui Rio durante a campanha?

Ninguém dá conselhos a ninguém. Conversámos os dois sobre os mais diversos assuntos. Qualquer líder tem necessidade de confrontar as suas ideias com ideias que muitas vezes são diferentes. E aí geram-se aproximações. Também já sei como ele pensa, ele também já sabe como eu penso. Por alguma razão estamos no mesmo barco e pensamos da mesma maneira.

De alguma forma foi percetível que Rui Rio foi ajustando a sua estratégia de combate perante Santana. Concorda?

O problema que se põe nem era esse. O Rui Rio foi para o primeiro debate com uma determinada atitude: uma atitude aberta, de apresentar e discutir ideias. Como o debate descambou para outros domínios, no segundo debate o Rui Rio precaveu-se. Ele já se tinha preparado, só que não tinha levado os materiais. Os materiais já existiam. Não foi preciso andarmos à pressa a recolher materiais porque já os tínhamos. No segundo debate, aquilo que fez foi preparar o debate em primeiro lugar, em segundo lugar reunir todos esses materiais e levar. Percebeu que o jogo era outro. Ele tinha uma ideia benévola do que poderiam ser os debates. Estava bem-intencionado em relação aos debates e percebeu que é difícil jogar limpo quando o jogo não é limpo.

De forma sistemática, temos de construir não só uma nova linguagem que rompa um bocadinho com o politicamente correto com o politiquês que domina a cena, mas temos também de construir propostas que possam ser sustentadas com base em evidência.

David Justino

Responsável pela moção de estratégia de Rui Rio

Miguel Relvas disse que o próximo líder seria um líder a prazo…

Todos os líderes são líderes a prazo. Isso é uma verdade de La Palisse. Mas foi uma la palissada com segundas intenções. Esse é o tipo de ruído que não podemos ligar. Não vale a pena, porque de onde vem nós já sabemos o que esperar. Nem vale a pena estar a comentar. Não dou importância a isso.

Que fatores e ideias de Rio convenceram os militantes a votar nele?

O que influenciou foi a postura e atitude de Rui Rio. Aquilo que trazia de novo relativamente à linguagem que Rui Rio utiliza e à forma como pensa os problemas na política. Isso é que o fez ganhar. São os traços de personalidade e acima de tudo a imagem que transmitiu de que não pensa como os outros e que não atua como os outros que inspirou a maior parte dos militantes a votar nele. Tudo o resto são questões acessórias.

Do que registou do discurso de Pedro Santana Lopes após conhecidos os resultados, com que ideia ficou relativamente àquilo que será a abordagem dele no futuro?

Acho que o Pedro Santana Lopes nestes contextos é uma pessoa que também expressa aquilo que sente. Há ali uma carga emocional muito forte e devemos contextualizar as intervenções. Mas é certo que voltou a expressar a vontade de continuar a lutar pelo PSD e isso muito bom sinal.

E em relação ao líder do grupo parlamentar? Haverá mudanças?

Não vale a pena especular. O Rui Rio só toma posse efetivamente no congresso. Até lá não vale a pena especular sobre este tipo de coisas. Nem eu iria especular sobre isso. Temos outros problemas para resolver a curto prazo.

David Justino foi o responsável pela moção estratégica de Rui Rio à liderança do PSD.Inácio Rosa/Lusa

Como por exemplo?

Há questões importantes e que, na minha opinião, o futuro presidente do PSD devia ser ouvido sobre isso e que tem a ver com instrumentos legais e diplomas que estão a ser discutidos na assembleia, tem a ver com o financiamento dos partidos, tem a ver com questões mais interessantes e eventualmente mais polémicas como a entrada da Santa Casa no Montepio. O Rui Rio até já se pronunciou sobre elas. As suas posições sobre estes temas foram muito claras. Duvido muito que vá mudar de opinião. Formalmente, só será presidente após o congresso.

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