“O problema na Alemanha é que existe uma oposição forte a qualquer mudança na Europa”

Presidente de um dos mais poderosos institutos económicos, diz que Draghi foi um "gigante", que Merkel não decide tudo e que o problema da Alemanha é achar (erradamente) que paga sempre a fatura.

A Europa precisa de reformas urgentes e tem que acelerar passo sob pena de não estar preparada quando a próxima crise atingir o bloco europeu. Para isso, é preciso que a Alemanha decida o que quer e deixe de pensar que será sempre quem terá de pagar, ou que será uma vítima dessas reformas, defende o economista Marcel Fratzscher, presidente do Instituto Alemão de Análise Económica (DIW, na sigla em alemão), um dos mais poderosos think-tanks europeus.

Em entrevista ao ECO, à margem do Fórum que o Banco Central Europeu organizada pelo quinto ano consecutivo em Sintra, Marcel Fratzscher — que trabalhou no BCE durante mais de uma década — diz que Draghi foi um “gigante” durante a crise, que o maior problema não é a dívida, mas a falta de crescimento económico, e que a situação política e económica em Itália pode ser mais problemática para a Europa do que o Brexit.

Sobre o futuro presidente do Banco Central Europeu, que os líderes europeus vão escolher nas próximas semanas, diz que, seja qual for a escolha, não haverá uma mudança abrupta no rumo da instituição.

As divergências entre os líderes de França e Alemanha podem afetar o futuro da economia europeia?

Há uma distinção importante a fazer. França e Alemanha são as duas maiores economias da Zona Euro, por isso são importantes para a Europa. Se estiverem em recessão, toda a Europa estará em recessão. Pessoalmente, estou otimista em relação às economias francesa e alemã nos próximos anos, porque têm bases fortes. França fez reformas importantes, apesar de, particularmente na Alemanha, não gostarmos de o reconhecer, mas às vezes temos de olhar de forma mais cuidadosa e perceber que França fez, de facto, muito.
Dito isto, penso que a França e a Alemanha são cruciais no que diz respeito às reformas da arquitetura da União Europeia, em particular da zona euro. Neste domínio não estou tão otimista. França tem uma visão muito clara do que quer, o Presidente Macron já a apresentou, mas o governo alemão não sabe bem o que quer, e isso é um grave problema porque, sem um acordo entre os dois a Europa não terá as reformas que precisa urgentemente.

Essa mudança ainda pode acontecer com Angela Merkel, que está a perder força internamente?

Angela Merkel ainda é uma força na Alemanha. Os presidentes, primeiros-ministros, e chanceleres tendem a ser os políticos mais poderosos no país, mas não são todos-poderosos, e Angela Merkel também não é toda-poderosa. O problema na Alemanha é que existe uma oposição forte a qualquer mudança na Europa. Temos esta narrativa fortemente enraizada, não apenas entre os conservadores, que eu chamo das duas ilusões. Uma, que a Alemanha acredita que são suficientes reformas a nível nacional. A segunda que a Alemanha é a banqueira da Europa, por isso quaisquer reformas feitas será a Alemanha a pagá-las, e serão sempre em detrimento da Alemanha. Não acredito que isso seja verdade. Precisamos de reformas ao nível europeu e, não, a Alemanha não será a vítima.

Essa diferença de visões sempre existiu. Está pior?

Não está piorar, o problema é que não está a melhorar suficientemente rápido. Em relação ao Eurogrupo na semana passada, concordo que um orçamento de 17 mil milhões em sete anos é claramente uma piada. Sem um plano claro de estabilização macroeconómica, é um instrumento de competitividade e convergência, seja lá o que isso for. Mas também temos as reformas do Mecanismo Europeu de Estabilidade, como a linha de crédito preventiva, à qual estão associadas condições e pode ser desembolsada de forma rápida. Há progressos, o meu receio é que o progresso seja demasiado lento. Faltam elementos muito importantes, como a união dos mercados de capitais, a criação de ativos seguros… Há progressos, estão é a ser demasiado lentos e o risco de que algo possa acontecer, como um choque ou uma crise, é elevado.

Com as tensões económicas a que assistimos, haverá tempo suficiente para terminar as reformas necessárias se continuarmos ao ritmo atual?

Está a demorar demasiado tempo. O que podemos fazer neste momento é rezar para que nada corra mal nos próximos dez, doze, quinze ou vinte anos, porque, ao ritmo atual, é o tempo que vamos demorar a chegar lá, se alguma vez lá chegarmos. Não estou pessimista quanto à Zona Euro. Penso que a Zona Euro ainda está muito abaixo do seu potencial: a taxa de desemprego ainda está muito elevada em muitos países, embora não em todos, as empresas estão a demorar a investir, há muito potencial para ser aproveitado. A esperança é que a Europa tenha tempo para recuperar e usar esse potencial antes de algo muito importante descarrilar esse processo.

E em relação a países como este que têm dívidas muito elevados?

Temos que olhar de forma cuidadosa. Tenho uma visão positiva em relação às reformas feitas em Portugal, em Espanha, na Irlanda. Muitos países fizeram reformas muito difíceis. Com taxas de juro tão baixas, não acredito que o nível elevado de dívida pública seja a questão mais importante nesta altura, mas sim o crescimento. Irá regressar? Será suficientemente forte para gerar crescimento das receitas fiscais? Essa é a forma de reduzir a dívida sem ter um acidente. As taxas de juro permitiram a muitos países ganharem muito tempo para o fazer.
A minha principal preocupação quanto à Europa é política. O Brexit é a menor das minhas preocupações, mas é um exemplo. Em termos económicos não estou preocupado com o Brexit, com exceção do Reino Unido e da Irlanda, penso que o resto da Europa vai superar o Brexit bastante bem.

Então qual é a sua maior preocupação?

A minha grande preocupação é a Itália, e é uma preocupação política. A Itália tem uma dívida muito mais elevada que Portugal, tem dificuldades económicas muito maiores, como o crescimento económico dos últimos dez, vinte anos, e o problema não é que Itália não tenha potencial, porque tem, é um problema político. Que o Governo possa decidir emitir uma moeda paralela, questionar o euro, ou algo do género.

Trabalhou mais de uma década no BCE. Como é que uma liderança conservadora pode mudar a atuação do BCE e afetar países, em especial países mais vulneráveis como Portugal?

Antes de mais, penso que Mario Draghi tem sido um gigante entre os banqueiros centrais. Tem sido um líder do BCE incrivelmente sábio, eficaz e com uma visão ampla. No verão de 2012, com o anúncio de que faria o que fosse preciso para salvar o euro, desempenhou um papel muito, muito importante na Europa. A Europa estaria numa situação muito pior se não fosse por ele e pela sua contribuição no Banco Central Europeu. Dito isto, o BCE nunca é apenas uma pessoa, são sempre 25 membros do conselho de governadores. Todas as vozes são ouvidas. O caminho escolhido para a política monetária foi o escolhido por uma maioria, por isso duvido que vejamos uma mudança abrupta. Existirá, claro, uma uma mudança subtil, com quem vier a seguir, mas a questão mais importante não é a saída de Mario Draghi, será como o BCE responderia se houvesse uma nova crise, como em 2012.

O BCE ainda tem instrumentos para responder a uma nova crise nesta altura?

Um banco central tem sempre instrumentos. Nunca subestime o que um banco central pode fazer. A grande questão é se a liderança irá usá-los no momento certo, na quantidade certa, com a combinação certa e ao mesmo tempo comunicá-la da melhor forma. São muitos ‘ses’, por isso não é fácil. É uma questão importante e um grande desafio para o novo presidente e para a nova administração, que também irá mudar de forma substancial.

Mas a liderança ainda desempenha um papel importante. O que aconteceria com líderes conservadores, como Jens Weidmann ou Erkki Liikanen, dois dos potenciais sucessores?

A moeda mais importante de um presidente de um banco central é a credibilidade e a confiança, o grande desafio é construir essa credibilidade e essa confiança. É isso que o novo presidente tem de fazer. Os candidatos que mencionou são todos membros do conselho de governadores e têm sido presidentes dos bancos centrais há muitos anos, o que quer dizer que têm a experiência, sabem como se joga este jogo. Não devemos esquecer-nos que os governadores dos bancos centrais nacionais têm um papel diferente para desempenhar no conselho de governadores do que o presidente do BCE desempenha. Como Jean-Claude Trichet gostava de dizer, o presidente do BCE é o capitão de uma equipa. Ser o capitão da equipa é uma coisa diferente de ser o atacante, o médio ou o defesa, todos têm de desempenhar esse papel, por isso eu teria cuidado nas previsões sobre como atuará o novo presidente do BCE.

Defende a mudança das regras orçamentais europeias. Como podem estas ser reformadas para serem eficientes, sem incentivar movimentos populistas?

As regras atuais, o Tratado de Maastricht e o Tratado orçamental, são demasiado pró-cíclicos, ou seja, dão demasiada margem de manobra aos governos para gastarem quando as economias crescem, aumentando a dívida, e quando a economia cai [dão] muito pouca margem de manobra para combater uma recessão. Vejo o mesmo problema para Itália. Primeiro, a regra em si: exigir um orçamento estruturalmente equilibrado a Itália agora, com uma economia que vai na terceira recessão numa década, que encolheu cerca de 5% desde 2008, que tem um desemprego de quase 10%, não faz qualquer sentido. Segundo, a forma de cálculo do hiato do produto: na metodologia da Comissão Europeia, Itália praticamente não tem hiato do produto. Isto não faz qualquer sentido.
As regras precisam de mudanças profundas. Itália tem uma dívida pública muito elevada e está certamente a cometer muitos erros importantes, mas isso não muda o facto de as regras orçamentais não fazerem sentido para Itália. A Itália deve gastar mais, devia era estar a gastar de forma sábia, a investir para criar emprego, para dar um impulso ao investimento privado, que promova mais crescimento, em vez de pagar aos poderes instalados e aos amigos do partido.

As regras foram mudadas recentemente porque não eram suficientemente abrangente. Acha que deviam ser ignoradas?

As regras devem sempre ser seguidas, caso contrário não deveriam existir. Não é uma questão fácil, mas a partir do momento em que dissermos que as regras não contam, então perdemos toda a credibilidade. A resposta não pode ser ‘quebre-se as regras’, a resposta tem de ser ‘mudem-se as regras’.

Com a crescente onda de descrença nas instituições europeias, será uma boa altura para as mudar?

Penso que é urgente, mas vejo-o como parte de um conjunto de mudanças, como o orçamento da zona euro, a partilha do risco, a união dos mercados de capitais, a finalização da união bancária, a estabilização macroeconómica e, claro, regras orçamentais que façam sentido. Há temas mais importantes que outros, mas queremos chegar ao ponto em que temos um conjunto que faça sentido como um todo.

Após uma década de mudanças, ainda haverá vontade política para fazer este tipo de mudanças?

O meu medo é que mudem quando sofrermos uma nova crise. A minha esperança é que desta vez seja diferente.

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