“Faz sentido dar mais apoios nos voos para o Porto”premium

Pedro Nuno Santos assume a vitória política nas negociações com Bruxelas e admite que faz sentido reforçar apoios para aumentar voos no Porto. Sobre o futuro, está disponível para o que Costa decidir.

Pedro Nuno Santos critica aqueles que antecipavam uma decisão negativa da Comissão Europeia em relação ao plano de reestruturação da TAP. Nesta entrevista, logo a seguir à decisão de Bruxelas, escusa-se a falar do seu futuro político. Garante acreditar que o PS vai ganhar as eleições de 30 de janeiro e diz estar disponível para ser "disponível para fazer aquilo que o senhor primeiro-ministro entender que eu deva fazer". E pede aos políticos e ao próximo Governo, qualquer que ele seja, para "recuarem e deixarem a TAP viver e ser governada e gerida como uma empresa". E o que diz aos cidadãos do Porto sobre a TAP e a presença no Aeroporto Sá Carneiro? Pedro Nuno Santos assinala que o modelo de negócio da TAP de hub-and-spoke [aeroporto central que recebe passageiros de outros aeroportos e os distribui para voos internacionais e intercontinentais] tem consequências, admite por isso as razões de Rui Moreira e reconhece que faz sentido dar mais apoios para as companhias aéreas voarem para o Porto.

A aprovação do plano de reestruturação é uma vitória política sua?

Eu não quero reduzir isto a isso, mas não posso fazer de conta que depois de meses em que diziam que o plano ia fracassar, que o plano não ia ser aprovado, iam exigir mais cortes e mais despedimentos e uma ‘Tapezinha’... Quem transformou isto numa vitória política...

Sua?

Do Governo, foi de facto quem andou neste último ano a dizer que isto ia ser um desastre. E digo outra coisa: Não só o plano foi aprovado, não só a TAP não fica uma ‘Tapezinha’, pelo contrário, não só não temos de fazer mais nenhum despedimento, mais nenhum corte, nem devolver mais aviões, como temos um plano de reestruturação que já tem um ano de vida e que tem as receitas superadas face ao previsto e os custos operacionais inferiores ao que está no plano.

Como é que a TAP vai fechar o ano de 2021?

Em termos de resultados, vai ter um prejuízo gigantesco, e em 2022 ainda vamos ter um prejuízo enorme. Em 2023, já vamos ter um resultado operacional positivo. Não sei quais serão os resultados deste ano, deixo para a gestão da TAP os números deste ano.

Se o PS ganhar as eleições, gostaria de continuar como ministro das Infraestruturas?

Tenho a convicção plena de que o PS vai ganhar as eleições e estou disponível para fazer aquilo que o senhor primeiro-ministro entender que eu deva fazer. Não é fugir à minha forma de falar abertamente com as pessoas, mas não é simpático nem educado nem correto estar a dizer em público o que gostaria de fazer quando é uma decisão que depende do primeiro-ministro.

O seu trabalho na TAP está acabado?

Não faço só TAP... aliás, deveriam fazer mais elogios ao trabalho que fazemos na ferrovia e que é uma revolução em curso, extraordinária. Mas ninguém quer saber dos comboios, que é uma coisa que me entristece.

Agora é a vez dos políticos, sejam eles quais forem, recuarem e deixarem a TAP viver e ser governada e gerida como uma empresa. Isso faz-se se os políticos não tiverem a tentação de se meterem na política de preços, nas rotas, isso é fundamental. No passado, aquilo a que fomos assistindo foi uma tentação de diferentes governantes e políticos de darem orientações sobre o negócio.

Pedro Nuno Santos

Mas o seu trabalho está feito e agora a responsabilidade é da gestão, ou entende que a sua continuação nestas funções seria importante para acompanhar a sua execução?

Tivemos um ano e meio muito turbulento, em que tínhamos de conseguir três coisas, essencialmente: Fazer o plano de reestruturação, com a BCG e a administração da TAP, conseguir encontrar uma administração qualificada e conseguir aprovar esse plano em Bruxelas. Essas três tarefas estão concluídas. Com o plano aprovado, e credível, e com uma nova equipa, estão criadas as condições para fazermos com a TAP aquilo que deve ser feito com qualquer empresa. Dar autonomia. As orientações do Governo são muito claras e não vamos inventar, nenhum Governo deve inventar no futuro... É o plano de reestruturação. Se for bem executado, e se for cumprido, vai dar bons resultados no final, e a própria remuneração da CEO está indexada a isso. Neste momento, estão criadas as condições para que a TAP possa voar sozinha. Mas isso não quer dizer que deva haver uma desresponsabilização [política] face aos próximos anos.

O plano tem um conjunto de metas em cima de uma determinada conjetura prevista, mas a vida muda muito, e por isso o Governo, seja ele qual for, seja qual for o ministro responsável, deve acompanhar este plano até ao fim. Mas que resista à tentação de ser ator principal, ou até secundário, deste processo. Agora é a vez dos políticos, sejam eles quais forem, recuarem e deixarem a TAP viver e ser governada e gerida como uma empresa. Isso faz-se se os políticos não tiverem a tentação de se meterem na política de preços, nas rotas, isso é fundamental.

No passado, aquilo a que fomos assistindo foi uma tentação de diferentes governantes e políticos de darem orientações sobre o negócio.

Isso sucedeu recentemente por causa das ligações para o Porto.

É verdade, e não pode ser.

Mas o que diz aos cidadãos do Porto? A TAP não é para eles?

Eu sou de São João da Madeira, área metropolitana do porto, e as empresas da minha família são do Norte, trabalham muito com Itália, com Milão, e a TAP terminou essa rota.

O que lhe diz o seu pai dessa decisão?

O meu pai é um empresário, e acha que a TAP deve ser gerida como uma empresa, e deve ter uma operação viável e sustentável, como qualquer empresário acha. O que acontece? O senhor presidente da Câmara do Porto é alguém que respeito e que sabe muito bem, e melhor do que muitos políticos, a diferença entre o modelo de ponto a ponto e o hub-and-spoke [aeroporto central que recebe passageiros de outros aeroportos e os distribui para voos internacionais e intercontinentais]. As companhias como a TAP especializam-se num aeroporto, e é assim com todas as que são hub and spoke. A TAP tem 12% do aeroporto do Porto, a Iberia tem 3% do aeroporto de Barcelona. Isto para percebermos que o modelo como o da TAP, como plataforma giratória que vai buscar passageiros e volta a distribuí-los, tem consequências.

Como é que se compensa, então, o Porto e o Norte?

Eu vou lá chegar. Mas tenho de dizer que o investimento na TAP tem como destinatário a economia e a economia do Norte beneficia muito da existência da TAP porque compra muito a empresas da região. O negócio ponto a ponto, o que tem mais sucesso no aeroporto do Porto, está perdido para as companhias de bandeira, porque não conseguimos fazer os mesmos preços, como nenhuma outra companhia de bandeira. Apesar disso, a TAP é a terceira maior companhia no Porto, a um ponto da segunda, e a primeira e única a ligar o Porto diretamente o Brasil e aos EUA, ao outro lado do atlântico.

A operação da TAP pode ser ainda mais pequena no Porto?

Para todos nós é claro que a operação da TAP em qualquer sítio tem de ser rentável. Por isso é que o discurso do senhor presidente da Câmara do Porto, que eu apoio, nunca foi contra a TAP, mas a favor de mais financiamento para que haja mais voos a partir do Porto. Esse financiamento existe, através de apoios que são dados a várias companhias que voam para o Porto. Imagino que a reivindicação, que admito que possa fazer sentido, é a de que haja mais apoios. Por exemplo na Madeira e nos Açores têm um subsídio social de mobilidade e, apesar de ser para os residentes, é indiretamente um subsídio às companhias aéreas. Se não existisse esse subsídio, muitas viagens não seriam realizadas.

Admito, por isso, que esse financiamento se possa intensificar, através do Instituto do Turismo e de outras formas. É uma reflexão que pode ser feita, porque o Porto é estrutural... Um dos projetos que vamos fazer na ferrovia é muito importante para o Aeroporto Sá Carneiro. Uma das ligações de alta velocidade que queremos fazer é o Sá Carneiro/Vigo, aquele aeroporto é já o maior do noroeste peninsular e no dia em que tivermos esta ligação, teremos os galegos a ter o Aeroporto Sá Carneiro como principal aeroporto e isso vai dar uma grande oportunidade para novas rotas e novos voos.

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